26 novembro 2012

Resenha Crítica: "Killing Them Softly"

 Entre falas afiadas, balas disparadas, mortes violentas e momentos tarantinescos, "Killing Them Softly" revela-se um thriller ambicioso onde a violência surge pelos personagens, cenários e diálogos, uma obra onde a fronteira entre o bem e o mal aparece mais esbatida do que nunca. Inspirado no livro "Coogan's Trade", "Killing Them Softly” marca a reunião entre o realizador Andrew Dominik e Brad Pitt, após terem colaborado no excelente "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford". Sem estarem no Velho Oeste, nem contarem com a presença de Jesse James, os protagonistas de "Killing Them Softly" são pistoleiros do século XXI, criminosos que procuram enriquecer com facilidade, seja através de assaltos, assassinatos a soldo, enquanto Andrew Dominik desenvolve uma arreigada crítica ao sistema político, económico e social norte-americano (exibido excessivamente com os discursos políticos que permeiam a narrativa).
 Esses pistoleiros do século XXI, não apresentam o estatuto de Jesse James, sendo figuras pouco apresentáveis e decadentes, tais como Frankie (Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn), dois criminosos que se envolvem num assalto a um jogo de póquer organizado por Markie Trattman (Ray Liotta). O plano é simples. Como Markie é conhecido por ter forjado um assalto aos seus jogadores, durante um evento algo caricato, estes decidem assaltar o jogo e esperar que as culpas recaiam em Trattman, algo que efectivamente acontece, cabendo ao perigoso Jackie Cogan (Brad Pitt) eliminar Markie e aos poucos embrenhar-se por este perigoso mundo de disputas pelo poder, no mundo do crime de Boston, onde poder e dinheiro surgem associados ao sangue e à morte.
 Quando nas cenas iniciais de "Killing Them Softly" nos deparamos com um cartaz de Obama com a frase de campanha "change", acompanhada por um discurso do então candidato, nas eleições de 2008, enquanto o personagem de Scoot McNairy, um criminoso com aspecto algo duvidoso, deambula pelo cenário devastado de Nova Orleães, pós-Katrina, o espectador logo percebe toda a ironia presente na utilização do discurso político de Barak Obama. Esta ironia é paradigmática de toda a forte crítica efectuada aos políticos, sociedade, economia e valores norte-americanos durante grande parte da narrativa, uma crítica que a certa altura se torna demasiado explicita e gratuita, enquanto o filme apresenta um grupo de violentos desajustados da sociedade, no qual todos parecem procurar a violência e enriquecer facilmente, mesmo que isso implique matar, assaltar, mentir, agredir, uma atitude próxima dos foras da lei do Velho Oeste, com a sociedade norte-americana a parecer não ter mudado assim tanto entre "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford" e "Killing Me Softly", entre o final do século XIX e o início do Século XXI.
 Essa "mudança" apresentada nos cartazes de campanha tarda em surgir nos Estados Unidos da América, algo visível pelos cenários de Nova Orleães, ainda muito marcados pela destruição provocada pelo furacão Katrina, uma destruição que surge pela alma do território, visível nos edifícios degradados, nos detritos pelas ruas, algo adensada pela eficaz e belíssima fotografia do filme, eivada de tons escuros, que evidenciam todo o clima negro que perpassa ao longo da narrativa, desde a sua mensagem algo pessimista da sociedade, passando pelos cenários e pelos personagens que compõem o enredo.
 Composto por um conjunto de personagens violentos e pouco dados a subtilidades, "Killing Them Softly" povoa a narrativa de casos perdidos, que não esperam nem procuram redenção, cuja mudança de conduta parece ser tão improvável como as mudanças do seu território, enquanto vários elementos do elenco sobressaem, em particular Scoot McNairy e Ben Mendelsohn, como Frankie e Russell, dois criminosos "feios, porcos e maus" que debitam falas afiadas, ao mesmo tempo que Brad Pitt surge implacável como Jackie Cogan, um indivíduo que revela uma suavidade e talento incrível para a matança. Estes povoam uma narrativa recheada de pessimismo em relação à sociedade, na qual a crítica de pendor político e económico a um país no auge da crise da bolsa de 2008 está sempre muito presente, bem como as nítidas influências do estilo de Quentin Tarantino, embora de forma pouco conseguida, sendo notório que Andrew Dominik não consegue conferir à obra toda a importância e grandiosidade que pretende, falhando em expor subtilmente a mensagem política (é introduzida com a mesma violência que o disparo das balas) e em conseguir desenvolver um thriller que consiga manter uma intensidade capaz de prender o espectador.
 Se a banda sonora nem sempre resulta ao serviço da narrativa, não deixa de ser curioso que esta sirva para encher o enredo de estilo e alguma ironia, não faltando temas como "When the Man Comes Around" de Johnny Cash, "Heroin" dos Velvet Underground, entre outros temas que evidenciam um dos problemas do filme: tem estilo, mas nem sempre consegue utilizá-lo ao serviço dos conteúdos. Entre críticas ao capitalismo, à política, economia e sociedade norte-americana, cuja crise parece abrir espaço aos foras da lei, "Killing Them Softly" procura ser um thriller com um forte pendor interventivo, mas raramente consegue estar à altura dos desígnios a que se propõe. No final fica a noção que "Killing Them Softly" quis dar tanto ao espectador mas acabou por perder-se nas suas ambiciosas intenções, com Andrew Dominik a preencher o filme com engenhosos efeitos de câmara e diálogos cheios de estilo, boas interpretações dos actores e uma crítica social arreigada, num thriller que deambula entre o entusiasmante e o entediante, que se perde nos seus ideais de grandeza. “Killing Them Softly” revela-se um thriller violento e cheio de estilo, que não poupa nas críticas à sociedade, economia e aos políticos norte-americanos, revelando-se um filme com um forte pendor interventivo, cujas mensagens políticas são disparadas com a mesma violência das balas.


Classificação: 3 (em 5)

Título original: “Killing Them Softly”
Título em Portugal: “Mata-os Suavemente”.
Título no Brasil: “O Homem de Máfia”.
Realizador: Andrew Dominik.
Argumento: Andrew Dominik.
Elenco: Brad Pitt, Ray Liotta, Richard Jenkins, Scoot McNairy, Ben Mendehlson, James Gandolfini, Sam Shepard, Trevor Long.


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