21 novembro 2012

Resenha Crítica: "Grupo 7"

 Será que os fins justificam os meios? Esta é uma das perguntas que vai assolar a mente do espectador ao ver “Grupo 7”, um filme onde a linha entre o bem e o mal aparece mais esbatida do que nunca, no qual uma unidade da polícia parece ser tão ou mais violenta que os criminosos que captura. Inspirado em factos reais, o novo filme realizado pelo espanhol Alberto Rodríguez acompanha uma unidade de polícia conhecida pela sua atitude agressiva e pouco ética, que tinham como missão limpar as ruas de Sevilha do tráfico de droga, antes do início da Expo 92.
 Com um ritmo frenético, sem poupar na violência, o filme segue esta divisão da polícia na qual se destacam Ángel (Mario Casas), um jovem aspirante a inspector que ao início é bastante calmo mas logo assume a postura violenta dos elementos do grupo, Rafael (Antonio de la Torre) um polícia violento e arrogante, que aos poucos mostra ter mais em comum com Rafael do que poderia parecer; Miguel (José Manuel Poga), o engatatão, e Mateo (Joaquín Núñez), o bonacheirão do grupo. Sem tréguas, estes cedo mostram que estão dispostos a tudo para erradicar o tráfico de drogas das ruas, não tendo problemas em ultrapassar por completo as leis e desrespeitar os direitos humanos para atingirem o seu desiderato, enquanto a narrativa procura conjugar harmoniosamente a vida profissional e privada do grupo. Destes elementos, destaca-se Ángel, um polícia novato que procura conjugar a escalada de violência na sua vida profissional com o casamento e a educação do seu filho, e Rafael, um indivíduo violento que se revela bem mais frágil do que inicialmente parecia, sobretudo quando a questão é Lucía (Lucía Guerrero), uma jovem toxicodependente capaz de fazer reaparecer os fantasmas perdidos do polícia.
 Entre as rusgas efectuadas, droga apreendida, momentos pessoais emotivos, “Grupo 7” vai apresentando uma violência gradativamente crescente, a ponto dos polícias conseguirem fazer de Capitão Nascimento de “Tropa de Elite” um menino do coro e Alberto Rodríguez surpreender o espectador com um thriller frenético onde a ética e a moral parecem não constar no código de conduta dos protagonistas. Com uma boa construção dos personagens, onde é possível ver as idiossincrasias de cada elemento do grupo e as mudanças que cada elemento vai sofrendo ao longo da narrativa, algo paradigmaticamente representado por Ángel, que aos poucos se deixa consumir pela violência e passa do elemento mais introspectivo para o mais violento, o filme não poupa no exacerbamento da falta de ética destes personagens, um grupo que beneficia bastante das adequadas interpretações de vários elementos do elenco.
 O bom desempenho dos elementos do elenco é algo que chama particularmente à atenção neste filme, sobretudo Mario Casas como Ángel, um dos personagens que mais evolui na narrativa, a par de Rafael, com Antonio de la Torre a ter um desempenho deveras interessante como um agente veterano que tem nos punhos o seu melhor meio negocial e revela-se um personagem bastante complexo na vida particular, sobretudo quando o caso é Lucía, uma toxicodependente com quem este mantém uma relação algo conturbada. Entre a vida particular e a vida profissional dos personagens, "Grupo 7" dramatiza um conjunto de eventos ocorridos antes da Expo 92, em Sevilha, um território que é utilizado paradigmaticamente ao serviço da narrativa, com os personagens a deslocarem-se pelos diferentes locais, entre os quais os bairros sociais, os bares, os cafés, as ruas, os territórios isolados, territórios onde o grupo socializa e parte para a acção.
 Se a facilidade com que "Grupo 7" consegue mesclar a vida profissional e pessoal dos protagonistas impressiona pela positiva, o mesmo se pode dizer das cenas de acção, com Alberto Rodríguez a revelar-se inspirado ao criar uma dinâmica frenética que surge adensada pela banda sonora, pela montagem e pelo trabalho de fotografia de Alex Catalán, com a câmara a surgir frenética nas cenas de acção no exterior, algo que contrasta por completo com os momentos da vida particular dos personagens, onde a câmara praticamente mantém-se estática, com a casa a quase sempre simbolizar a segurança que a rua não oferece (algo que a meio caminho do filme deixa de ser verdade), ao mesmo tempo que o argumento levanta várias questões ao espectador (embora não responda a todas). Será que esta teia de violência, mentiras e dissimulação é mesmo necessária para resolver estes crimes? Merecem os traficantes sofrer a brutalidade infligida por estes homens? Qual a linha que distancia o bem do mal? Se muitas são as questões colocadas ao longo de "Grupo 7", uma das poucas certezas é que ninguém está completamente inocente ao longo da narrativa e todos estão dispostos a tudo para vencer. Veja-se que a polícia quase sempre parece assobiar para o lado em relação à acção do "Grupo 7" (excepção feita quando surge a acção da imprensa), desde que este apresente resultados, enquanto os traficantes estão desejosos de o eliminar.
 Embora não consiga escapar aos habituais clichés do género, "Grupo 7" surpreende pela dinâmica narrativa e pela capacidade de integrar o território de Sevilha, nas vésperas da Expo 92, na narrativa, ao mesmo tempo que apresenta um grupo de polícias violento pronto a eliminar o tráfico de droga no território, mesmo que para isso tenha de agir de maneira tão ou mais violenta que os criminosos. "Grupo 7" revela-se uma agradável surpresa, um thriller violento, onde a capacidade negocial dos polícias está nos punhos, os argumentos dos criminosos nas balas, um filme frenético e sangrento, no qual o território de Sevilha transforma-se num palco onde a morte parece pairar a cada momento, ao mesmo tempo que Alberto Rodríguez transforma a sala de cinema num palco de emoções fortes, onde a fronteira entre o bem e o mal surge mais esbatida do que nunca.

Classificação: 4 (em 5)

Título: "Grupo 7".
Realizador: Alberto Rodríguez.
Argumento: Rafael Cobos e Alberto Rodríguez.
Elenco: Mario Casas, Antonio de la Torre, Joaquín Núñez, José Manuel Poga, Inma Cuesta, Julián Villagrán, Estefanía de los Santos, Lucía Guerrero, Diana Lázaro. 

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