Entre o passado, o presente e
o futuro, "Cloud Atlas" revela-se
uma obra visualmente sumptuosa que desafia o espectador ao longo das
suas diferentes e intrincadas narrativas. Composto por um diverso
conjunto de histórias aparentemente desarticuladas, ao longo de
diversos tempos e espaços, com os mesmos actores a interpretarem
diferentes personagens, "Cloud Atlas" demonstra
ser um constante desafio
no qual nada se pode perder e tudo parece ter algum significado mais
lato, um filme que procura inicialmente confundir o espectador para
posteriormente transporta-lo para um espectáculo verdadeiramente
estonteante, que pede mais do que uma visualização e revela-se
uma experiência única e inesquecível.
Realizado
por Andy e Lana Wachowski, a meias com Tom Tywker, "Cloud Atlas"
tem como pano de fundo seis histórias diferentes que aos poucos
começam a apresentar mais ligações do que esperávamos, ligações
feitas de forma subtil, que gradativamente vão sendo reunidas, nas
quais as almas vão conhecendo diferentes transformações ao longo
do tempo e da história, consoante o contexto e a realidade onde se
encontram, enquanto sobressai todo o cuidado colocado na
caracterização e guarda-roupa
dos personagens, bem
como nos cenários que estes integram (o visual de Neo-Seul é
simplesmente extasiante). Se não contarmos com o prólogo e a
conclusão, "Cloud Atlas" conta com seis tempos narrativos
diferentes, seis histórias nas quais sobressai a narrativa de Neo
Seul, em 2144, na qual o filme assume uma posição mais provocadora
e crítica da sociedade contemporânea.
Com
um visual futurista extasiante, no
qual a cidade de Seul se transforma no
palco de uma sociedade que leva o capitalismo selvagem a um nível
completamente desumano, no qual os trabalhadores vivem para
trabalhar, desde o acordar até ao adormecer, devendo fazer de tudo
para agradar aos clientes, tendo como protagonista Sonmi-451 (Doona
Bae), uma fabricante (clone) que é vista como dispensável pela
sociedade que habita, uma sociedade onde o livre arbítrio é algo de
impossível e toda a acção está coarctada pelas autoridades. Sem
poder ter opinião, Sonmi-451 consegue fugir ao cruel destino a que
parece destinada graças a Hae-Joo Chang (Jim Sturgess), um membro da
resistência que aos poucos mostra à jovem uma nova realidade que
esta desconhecia, ao mesmo tempo que a história futurista vai sendo
entrelaçada com outras narrativas, que aos poucos revelam bem mais
do que poderíamos esperar, onde tudo parece entrelaçado pelos
elementos invisíveis, pelas temáticas abordadas e pelas almas que
vão mudando e sendo moldadas em cada tempo narrativo. Veja-se que
Sonmi-451 terá uma grande importância em alguns elementos que se
desenrolam 106 Invernos depois da "Queda", no qual Zachry
(Tom Hanks) um elemento de uma tribo que vive de forma primitiva, que
procura a todo o custo sobreviver perante a terrível ameaça dos
Kona (sem piadas), um grupo de canibais que arrasam famílias
inteiras. Zachry recebe a visita de Meronym (Halle Berry), uma
presciente, um dos poucos elementos da sociedade civilizada que
sobreviveu ao Apocalipse. Os dois personagens acabam por formar uma
relação mais forte do que seria de esperar, uma relação que encontra paralelos com as
relações proibidas entre os diferentes casais que atravessam
as diversas histórias, enquanto ao longo da narrativa
são abordadas questões relacionadas como a tolerância sexual, racial e cultural,
entre outras. Associada a esta temática dos amores proibidos que atravessam
os tempos, os territórios e os corpos, amores moldados pelas almas,
"Cloud Atlas" aborda ainda diversas temáticas relacionadas
com os diferentes estatutos sociais dos seres humanos, as estruturas
de poder no interior das sociedades que ainda continuam bastante
imóveis, a intolerância sexual, étnica, cultural, opressão, abuso
de poder (caso da escravatura, a relação entre o artista
interpretado por Ben Whishaw e o seu superior, entre outros), tendo
na narrativa de Neo-Seul um dos episódios mais provocadores e
próximos de temáticas de obras como "The Matrix" e "V
for Vendetta", numa
narrativa que procura acima de tudo levantar questões junto dos espectadores,
deixando vários elementos sujeitos à interpretação subjectiva
de cada um e ao debate.
É impossível ficar indiferente a toda esta ambiciosa e
confusa teia narrativa tecida por Andy e Lana Wachowski e Tom Tykwer,
uma obra cinematográfica que claramente pede mais do que uma, duas,
três visualizações, na qual três horas passam como se fosse meia
hora, um filme ambicioso onde todo um núcleo de talentosos actores
consegue exibir a sua versatilidade nos diferentes papéis e o trio
de cineastas resolve deixar de lado toda a lógica narrativa certinha
e proporcionar ao espectador momentos verdadeiramente únicos,
intensos e extasiantes. Com um visual sumptuoso, no qual sobressaem
todos os magníficos cenários, guarda-roupas dos personagens, o
trabalho de fotografia (Neo-Seul transforma-se numa profusão de
cores e sombras), o filme apresenta uma estrutura narrativa não
linear na qual o espectador tira melhor partido se não tentar
compreender tudo o que filme lhe dá e deixar-se levar pelas imagens
em movimento que inebriam os sentidos e exacerbam os sentimentos.
Enquanto
as imagens em movimento mexem com os sentidos do espectador,
extasiam-no, fascinam, confundem, criam amores e ódios, muitas
dúvidas, fica visível toda a ambição colocada pelo trio de
cineastas na narrativa e o porquê da obra cinematográfica não
estar a ser bem-sucedida nas bilheteiras. Longe de seguir uma
estrutura narrativa linear, de dar ao espectador a "papinha toda
feita", "Cloud Atlas" exige que o espectador pense,
que este interprete, que este se deixe inebriar pela narrativa e que
esta mexa com os sentidos, ao mesmo tempo que nunca procura
apresentar uma linearidade. Esta falta de linearidade, associado à
decisão de utilizar actores como Tom Hanks, Halle Berry, Hugo
Weaving (simplesmente fantástico nos papéis vilanescos), Jim
Broadbent (um dos destaques do filme), em diferentes papéis, leva a que o desempenho e
versatilidade dos actores sobressaia, tornando-se num importante elo
com o espectador, sobretudo quando a história começa a criar algum
sentido coeso (mas muito ténue) e podemos ver que existe toda uma
estrutura ligada a um certo misticismo, no qual a alma aparece como
algo transcendente que se molda e muda ao longo das diferentes
décadas. Estas almas, que vagueiam perdidas ao longo do tempo e da
história, por locais tão distintos como Califórnia, Edimburgo,
Cambridge, Seul, entre outros locais, moldam-se ao longo de cada
narrativa, vagueiam perdidas, enquanto o espectador por vezes se
perde nesta ambiciosa teia narrativa de "Cloud Atlas", na
qual, o trio de cineastas por vezes se perde-se e nos perde ao longo
dos seus ideais de
grandeza, num filme ambicioso que contraria a ideia da falta de
originalidade e criatividade no cinema durante os dias de hoje.
É inacreditável toda a ambição colocada pelos Wachowski e Tom
Tykwer em "Cloud Atlas". Uma ambição que vai desde a estrutura narrativa, passando pela magnífica
banda-sonora, pelo trabalho de fotografia e pelo hercúleo trabalho a
nível de edição de Alexander Berner (capaz de incutir ritmo e
reunir momentos dicotómicos de forma harmoniosa), algo que aliado
aos talentosos elementos que compõem o elenco resulta num
espectáculo cinematográfico que se revela uma experiência e tanto.
"Cloud Atlas" pode dividir a opinião do público e da
crítica, mas existe algo que é indesmentível, consegue
proporcionar ao espectador um espectáculo singular na sala de
cinema, no qual este é colocado em cheque e deixado abandonado
perante o grande ecrã, enquanto a narrativa avança de forma
inexorável e a única hipótese possível é deixarmos que esta nos
hipnotize e inebrie os sentidos.
Classificação: 4 (em 5)
Título
original: “Cloud Atlas”.
Realizador:
Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski.
Argumento:
David Mitchell, Lana Wachowski, Andy Wachowski, Tom Tykwer.
Elenco:
Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw,
James D'Arcy, Jim Broadbent, Hugh Grant, Susan Sarandon, Doona Bae.
2 comentários:
Gostei bastante da sua crítica, e concordo com tudo praticamente.
Gostei do filme, todos estes filmes que nos conseguem tirar da rotina normal dum filme e fazem esquecer a sala de cinema é espectacular
Destaco a banda sonora, e a caracterização das personagens, um grande trabalho e o guarda roupas! Fantástico!!
muito bem conseguido,
Parabéns pela crítica
e continuação de bom trabalho.
Bruno
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