25 novembro 2012

Resenha Crítica: "Cloud Atlas"

Entre o passado, o presente e o futuro, "Cloud Atlas" revela-se uma obra visualmente sumptuosa que desafia o espectador ao longo das suas diferentes e intrincadas narrativas. Composto por um diverso conjunto de histórias aparentemente desarticuladas, ao longo de diversos tempos e espaços, com os mesmos actores a interpretarem diferentes personagens, "Cloud Atlas" demonstra ser um constante desafio no qual nada se pode perder e tudo parece ter algum significado mais lato, um filme que procura inicialmente confundir o espectador para posteriormente transporta-lo para um espectáculo verdadeiramente estonteante, que pede mais do que uma visualização e revela-se uma experiência única e inesquecível.
 Realizado por Andy e Lana Wachowski, a meias com Tom Tywker, "Cloud Atlas" tem como pano de fundo seis histórias diferentes que aos poucos começam a apresentar mais ligações do que esperávamos, ligações feitas de forma subtil, que gradativamente vão sendo reunidas, nas quais as almas vão conhecendo diferentes transformações ao longo do tempo e da história, consoante o contexto e a realidade onde se encontram, enquanto sobressai todo o cuidado colocado na caracterização e guarda-roupa dos personagens, bem como nos cenários que estes integram (o visual de Neo-Seul é simplesmente extasiante). Se não contarmos com o prólogo e a conclusão, "Cloud Atlas" conta com seis tempos narrativos diferentes, seis histórias nas quais sobressai a narrativa de Neo Seul, em 2144, na qual o filme assume uma posição mais provocadora e crítica da sociedade contemporânea.
 Com um visual futurista extasiante, no qual a cidade de Seul se transforma no palco de uma sociedade que leva o capitalismo selvagem a um nível completamente desumano, no qual os trabalhadores vivem para trabalhar, desde o acordar até ao adormecer, devendo fazer de tudo para agradar aos clientes, tendo como protagonista Sonmi-451 (Doona Bae), uma fabricante (clone) que é vista como dispensável pela sociedade que habita, uma sociedade onde o livre arbítrio é algo de impossível e toda a acção está coarctada pelas autoridades. Sem poder ter opinião, Sonmi-451 consegue fugir ao cruel destino a que parece destinada graças a Hae-Joo Chang (Jim Sturgess), um membro da resistência que aos poucos mostra à jovem uma nova realidade que esta desconhecia, ao mesmo tempo que a história futurista vai sendo entrelaçada com outras narrativas, que aos poucos revelam bem mais do que poderíamos esperar, onde tudo parece entrelaçado pelos elementos invisíveis, pelas temáticas abordadas e pelas almas que vão mudando e sendo moldadas em cada tempo narrativo. Veja-se que Sonmi-451 terá uma grande importância em alguns elementos que se desenrolam 106 Invernos depois da "Queda", no qual Zachry (Tom Hanks) um elemento de uma tribo que vive de forma primitiva, que procura a todo o custo sobreviver perante a terrível ameaça dos Kona (sem piadas), um grupo de canibais que arrasam famílias inteiras. Zachry recebe a visita de Meronym (Halle Berry), uma presciente, um dos poucos elementos da sociedade civilizada que sobreviveu ao Apocalipse. Os dois personagens acabam por formar uma relação mais forte do que seria de esperar, uma relação que encontra paralelos com as relações proibidas entre os diferentes casais que atravessam as diversas histórias, enquanto ao longo da narrativa são abordadas questões relacionadas como a tolerância sexual, racial e cultural, entre outras. Associada a esta temática dos amores proibidos que atravessam os tempos, os territórios e os corpos, amores moldados pelas almas, "Cloud Atlas" aborda ainda diversas temáticas relacionadas com os diferentes estatutos sociais dos seres humanos, as estruturas de poder no interior das sociedades que ainda continuam bastante imóveis, a intolerância sexual, étnica, cultural, opressão, abuso de poder (caso da escravatura, a relação entre o artista interpretado por Ben Whishaw e o seu superior, entre outros), tendo na narrativa de Neo-Seul um dos episódios mais provocadores e próximos de temáticas de obras como "The Matrix" e "V for Vendetta", numa narrativa que procura acima de tudo levantar questões junto dos espectadores, deixando vários elementos sujeitos à interpretação subjectiva de cada um e ao debate. 
 É impossível ficar indiferente a toda esta ambiciosa e confusa teia narrativa tecida por Andy e Lana Wachowski e Tom Tykwer, uma obra cinematográfica que claramente pede mais do que uma, duas, três visualizações, na qual três horas passam como se fosse meia hora, um filme ambicioso onde todo um núcleo de talentosos actores consegue exibir a sua versatilidade nos diferentes papéis e o trio de cineastas resolve deixar de lado toda a lógica narrativa certinha e proporcionar ao espectador momentos verdadeiramente únicos, intensos e extasiantes. Com um visual sumptuoso, no qual sobressaem todos os magníficos cenários, guarda-roupas dos personagens, o trabalho de fotografia (Neo-Seul transforma-se numa profusão de cores e sombras), o filme apresenta uma estrutura narrativa não linear na qual o espectador tira melhor partido se não tentar compreender tudo o que filme lhe dá e deixar-se levar pelas imagens em movimento que inebriam os sentidos e exacerbam os sentimentos.
 Enquanto as imagens em movimento mexem com os sentidos do espectador, extasiam-no, fascinam, confundem, criam amores e ódios, muitas dúvidas, fica visível toda a ambição colocada pelo trio de cineastas na narrativa e o porquê da obra cinematográfica não estar a ser bem-sucedida nas bilheteiras. Longe de seguir uma estrutura narrativa linear, de dar ao espectador a "papinha toda feita", "Cloud Atlas" exige que o espectador pense, que este interprete, que este se deixe inebriar pela narrativa e que esta mexa com os sentidos, ao mesmo tempo que nunca procura apresentar uma linearidade. Esta falta de linearidade, associado à decisão de utilizar actores como Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving (simplesmente fantástico nos papéis vilanescos), Jim Broadbent (um dos destaques do filme), em diferentes papéis, leva a que o desempenho e versatilidade dos actores sobressaia, tornando-se num importante elo com o espectador, sobretudo quando a história começa a criar algum sentido coeso (mas muito ténue) e podemos ver que existe toda uma estrutura ligada a um certo misticismo, no qual a alma aparece como algo transcendente que se molda e muda ao longo das diferentes décadas. Estas almas, que vagueiam perdidas ao longo do tempo e da história, por locais tão distintos como Califórnia, Edimburgo, Cambridge, Seul, entre outros locais, moldam-se ao longo de cada narrativa, vagueiam perdidas, enquanto o espectador por vezes se perde nesta ambiciosa teia narrativa de "Cloud Atlas", na qual, o trio de cineastas por vezes se perde-se e nos perde ao longo dos seus ideais de grandeza, num filme ambicioso que contraria a ideia da falta de originalidade e criatividade no cinema durante os dias de hoje.
  É inacreditável toda a ambição colocada pelos Wachowski e Tom Tykwer em "Cloud Atlas". Uma ambição que vai desde a estrutura narrativa, passando pela magnífica banda-sonora, pelo trabalho de fotografia e pelo hercúleo trabalho a nível de edição de Alexander Berner (capaz de incutir ritmo e reunir momentos dicotómicos de forma harmoniosa), algo que aliado aos talentosos elementos que compõem o elenco resulta num espectáculo cinematográfico que se revela uma experiência e tanto. "Cloud Atlas" pode dividir a opinião do público e da crítica, mas existe algo que é indesmentível, consegue proporcionar ao espectador um espectáculo singular na sala de cinema, no qual este é colocado em cheque e deixado abandonado perante o grande ecrã, enquanto a narrativa avança de forma inexorável e a única hipótese possível é deixarmos que esta nos hipnotize e inebrie os sentidos.


Classificação: 4 (em 5)
Título original: “Cloud Atlas”.
Realizador: Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski.
Argumento: David Mitchell, Lana Wachowski, Andy Wachowski, Tom Tykwer.
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, James D'Arcy, Jim Broadbent, Hugh Grant, Susan Sarandon, Doona Bae.

2 comentários:

Bruno Almeida disse...

Gostei bastante da sua crítica, e concordo com tudo praticamente.

Gostei do filme, todos estes filmes que nos conseguem tirar da rotina normal dum filme e fazem esquecer a sala de cinema é espectacular

Destaco a banda sonora, e a caracterização das personagens, um grande trabalho e o guarda roupas! Fantástico!!

muito bem conseguido,
Parabéns pela crítica
e continuação de bom trabalho.


Bruno

Anónimo disse...
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