20 novembro 2012

Resenha Crítica: "Blancanieves"

  O ano de 2012 tem sido bastante profícuo em termos de adaptações cinematográficas do clássico conto da "Branca de Neve". Desde o desastroso "Mirror Mirror", passando pelo enérgico "Snow White and the Huntsman", o clássico conto dos Irmãos Grimm tem conhecido várias releituras mas poucas conseguem alcançar a beleza estética de "Blancanieves", uma obra cinematográfica que mescla a história da Branca de Neve com touradas e elementos da cultura sevilhana. Escrito e realizado pelo espanhol Pablo Berger (o mesmo de "Torremolinos 73"), o filme comprova a tenacidade que o cinema mudo tem vindo a conhecer, com filmes como "The Artist", "Tabu" e agora  "Blancanieves" a encantarem grande parte da crítica e do público, conseguindo provar que o regresso do cinema mudo pode e deve ser mais do que uma moda sustentada por um conjunto esporádico de obras cinematográficas. 
 Mudo, a preto e branco, com uma estética belíssima, "Blancanieves" desenrola-se em Espanha, durante os anos 20, e acompanha a história de Carmen (Sofía Oria durante a juventude e Macarena García durante a idade adulta), a filha do famoso toureiro António Villalobos, um indivíduo que ficou paraplégico devido a um acidente durante uma tourada, que rejeita a rapariga devido à sua esposa ter falecido durante o parto. Longe do pai, que vive na sua mansão com Encarna (uma divinal Maribel Verdú), a enfermeira de má índole que cuidou deste no hospital após o acidente, Carmen vive com a avó (Angela Molina), enquanto aprende a dançar flamenco, a arte que a sua mãe dominava. No entanto, tudo muda quando a avó falece e Carmen vai viver com o pai e com a madrasta, uma mulher disposta a tudo para que a rapariga não se intrometa na sua vida, ao mesmo tempo que se aproveita da fraca condição física do marido para sujeitá-lo a várias humilhações, até decidir assassiná-lo. Com António Villalobos assassinado, o próximo alvo é a jovem Carmen, que é perseguida pelo caçador, mas erroneamente deixada viva, sendo salva por um caricato grupo de excêntricos anões toureiros, no qual não falta a presença de um travesti. 
 Costuma-se dizer que o melhor vem para o fim e parece que é mesmo verdade. A terceira adaptação do conto da Branca de Neve a estrear em 2012 revela-se a mais original, enérgica, esteticamente elaborada, criando toda uma poesia gótica nas imagens em movimento que ganham maior dimensão com o elaborado trabalho de fotografia de Kico de la Rica. Entres os close-ups, que exteriorizam os sentimentos dos personagens e adensam a emotividade de alguns momentos, e os planos gerais, que exacerbam os cenários como a arena de touros, nos quais os personagens se deslocam, o filme compensa com a expressividade do desempenho dos seus protagonistas a falta dos diálogos falados, com nomes como Maribel Verdú e Macarena Garcia a sobressaírem. Actriz de prestígio e reconhecido valor, a belíssima Maribel Verdú tem em "Blancanieves" um papel à sua altura, transformando a malévola Encarna numa personagem deliciosamente má, que promete despertar ódios e sorrisos do público, como a personagem que procura enriquecer a todo o custo, ao mesmo tempo que se prepara para fazer a vida negra a Carmen, uma personagem que ganha uma maior dimensão com a candura de Macarena Garcia. 
  Se o som não surge pelas bocas dos personagens, este aparece através da enérgica e exótica banda sonora desenvolvida por Alfonso de Vilallonga, que enche de ritmo a narrativa, enquanto Pablo Berger apresenta uma realização inspirada, numa obra capaz de mesclar fantasia, drama, humor em doses generosas, conquistando o espectador para um espectáculo raro de encontrar nos dias de hoje, no qual o cinema torna-se o palco de todos os sonhos e permite ao espectador abstrair-se da realidade para o interior de um conto de fadas no qual a cultura sevilhana está sempre muito presente. 
 A cultura sevilhana é um dos elementos chaves para a narrativa funcionar. A tourada como um espectáculo de massas, que atrai milhares de habitantes da cidade de Sevilha em dia de exibição, durante a década de 20, o culto ao toureiro, as danças e músicas próprias da época, as suas gentes (filmadas com bastante atenção durante a tourada), sendo visível toda uma procura em inculcar os elementos da cultura espanhola ao longo desta arriscada obra, que surpreende pela sua originalidade. Embora o sucesso de "The Artist" tenha ajudado a haver uma maior abertura à elaboração de novos filmes mudos, é de elogiar o risco corrido por Pablo Berger em desenvolver um filme mudo sobre um clássico conto de fadas, introduzindo pelo meio as touradas e dança flamenca, numa obra que mescla na perfeição a estética das imagens em movimento, com uma banda sonora exótica e um argumento original, que contribuem para transformar "Blancanieves" numa bela adição aos filmes mudos, introduzindo mais um belo capítulo à história do mesmo. 
 A certa altura do filme, Carmen fica conhecida como Branca de Neve e vê-se no meio da arena perante um perigoso touro. A câmara de filmar vira a atenção para o rosto de Carmen e posteriormente para a face do touro. Pouco depois, a câmara afasta-se. A pequenez de Cármen perante a grandiosidade da arena preenchida de público é exacerbada até voltar a concentrar-se na jovem e o touro, até o confronto começar e parecer que estamos num espectáculo de bailado, momentos de pura arte, nos quais as imagens em movimento, a expressão corporal dos actores e a emotiva música proporcionam algo de único. Este é um dos vários momentos de "Blancanieves" que despertam a atenção do espectador e evidenciam paradigmaticamente toda a beleza da obra, independentemente de ser contra ou a favor das touradas. Esteticamente soberbo, "Blancanieves" revela-se um conto de fadas recheado de arte e poesia, um filme mudo onde a exótica banda-sonora e as poéticas imagens em movimento reúnem-se e proporcionam ao espectador um espectáculo cinematográfico de rara beleza, onde o drama, humor, fantasia surgem harmoniosamente unidos neste belíssimo e apaixonante pedaço de arte em movimento. 

Classificação: 4.5 (em 5)

Título: "Blancanieves"
Realizador: Pablo Berger.
Argumento: Pablo Berger.
Elenco: Macarena García, Maribel Verdú, Sofía Oria, Daniel Giménez Cacho, Ángela Molina, Pere Ponce, Josep María Pou, Inma Cuesta, Ramón Barea, Emilio Gavira, Sergio Donado, Oriol Vila.

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