19 novembro 2012

Resenha Crítica: "As Vantagens de Ser Invisível"

 As adaptações de obras literárias são sempre algo problemáticas. Os fãs dos livros têm medo das liberdades criativas para a narrativa ficar "mais cinematográfica", o(s) autor(es) veem as suas obras alteradas e nem sempre apreciam a adaptação. Em alguns casos, estas adaptações são bem sucedidas e conseguem igualar ou ultrapassar o sucesso dos livros (veja-se o caso de "O Senhor dos Anéis"), enquanto outras falham clamorosamente. Muito provavelmente a pensar nesta situação, Stephen Chbosky, o autor de "The Perks of Being a Wallflower", decidiu escrever e realizar a adaptação cinematográfica do seu livro, procurando ao máximo captar a essência da obra, garantindo que a mesma não é "brutalizada". O resultado final? Um filme que capta de forma apaixonante a adolescência no seu estado mais puro e delicado.
 Delicado é provavelmente o termo que melhor serve para descrever a forma como a história do grupo de adolescentes do filme é retratada. Longe do estilo das comédias de baixo orçamento sobre adolescentes, "Perks of Being a Wallflower" surpreende pela forma como consegue retratar e captar vários momentos da adolescência. Não falta o primeiro amor, as desilusões amorosas, os problemas de integração na escola, momentos inesquecíveis e música, muita música que se adequa a cada momento e sentimento dos personagens, em particular de Charlie, um rapaz tímido e solitário, que nutre uma grande paixão pela escrita e pela literatura, um jovem marcado por um passado trágico, que aos poucos vai sendo desvendado e evidencia as razões de alguns actos do protagonista ao longo da narrativa.
  Charlie é um jovem acabado de entrar para o décimo ano, que se procura integrar numa escola onde os caloiros são ignorados e o seu feitio e gosto pela literatura são alvos de chacota pelos seus colegas e de admiração por parte do professor de inglês (Paul Rudd). Tudo muda na vida de Charlie quando este conhece Patrick (Ezra Miller), um adolescente gozão que parece estar sempre bem disposto, um finalista que frequenta a mesma turma do protagonista numa disciplina. A importância de Patrick na vida de Charlie acresce ainda mais se pensarmos que a filha da mulher do seu pai, Sam (Emma Watson), é uma das finalistas e uma das suas melhores amigas e cedo se transforma na paixão do protagonista. Este trio cedo parece tornar-se inseparável, enquanto vivem momentos inesquecíveis, tão típicos das suas idades, enquanto amam, choram, riem, e Charlie procura escapar aos seus demónios interiores.
Ao terminar de ver "The Perks of Being a Wallflower" fica visível o porquê de Stephen Chobsky ter querido ficar com todo o controlo da adaptação cinematográfica do seu livro, ao desenvolver uma obra cinematográfica belíssima, que consegue captar como poucas a essência da adolescência, vários momentos e sentimentos vividos nestas idades, tudo apresentado de forma profundamente humana e com um grande coração.
 Paixão, drama, desilusões, ilusões, alegrias, momentos inesquecíveis, sentimentos vividos de forma intensa e muito própria da adolescência e muita música, assim se poderia resumir a vida deste grupo de amigos, interpretados de forma magnífica por Ezra Miller, Logan Lerman e Emma Watson. Miller é muito provavelmente o elemento que mais se destaca, ao interpretar Patrick, um homossexual com um espírito indomável, que vive a vida no limite, ao mesmo tempo que procura esconder de todos o caso que mantém com Brad (Johnny Simons). Patrick é o irmão de Sam, interpretada de forma sublime por Emma Watson, que consegue expor todas as inseguranças e fragilidades da sua personagem. Ezra Miller e Emma Watson surgem ainda acompanhados por um Logan Lerman em grande nível como Charlie, o "invisível", um rapaz que conheceu vários problemas até conhecer Sam e Patrick, os bálsamos para as dores da sua alma. É sobretudo neste trio que se concentra a narrativa, nas experiências que vivem e os ajudam a amadurecer, enquanto transitam da adolescência para a idade adulta e quase não dão por isso.
 De forma delicada, "The Perks of Being a Wallflower" capta com sucesso a essência da adolescência, dos sentimentos dos adolescentes e dos seus gestos e actos. Não faltam as paixões reprimidas, os erros cometidos nos relacionamentos, os namoros com as pessoas erradas, festas, lágrimas, muita música, seja esta dos The Smiths, David Bowie, The Samples, entre muitas outras que povoam a narrativa de ritmo, imaginação e cor. O facto da narrativa desenrolar-se no início dos anos 90 explica bem o porquê da troca de cassetes de música entre os personagens, pequenas compilações de músicas reveladoras dos seus sentimentos, enquanto se questionam sobre situações tão normais nesta idade como "Porque as pessoas boas se apaixonam pelas pessoas erradas?", uma pergunta que muito provavelmente já terá sido colocada por grande parte dos adolescentes.
  Nem só de sentimentos e músicas é feito o filme, ao longo da narrativa é visível toda uma preocupação em abordar temáticas ligadas aos jovens adolescentes, que vão desde temáticas mais leves como os romances, saídas, passando por temáticas mais sérias como o bullying, a intolerância em relação à diferença, intolerância aos diferentes gostos sexuais, entre outras. Ao longo dos anos, vários são os filmes sobre adolescentes que estreiam no grande ecrã, sobressaindo na memória as comédias de baixo orçamento. "The Perks of Being a Wallflower" está longe de ser uma comédia, embora tenha momentos de bom humor, destancando-se sobretudo o drama destes personagens em procurarem descobrir a sua personalidade, o seu papel na sociedade e o drama de Charlie, um rapaz que parece invisível aos olhares de todos, mas especial ao olhar de alguns.
  A certa altura de "The Perks of Being a Wallflower", Charlie, Sam e Patrick encontram-se a atravessar um túnel de carro. Toca a música "Heroes" e estes não sabem que música está a tocar. Sem acesso ao google e ao youtube, estes passam parte da narrativa sem saber qual é o tema da música em questão, dando-lhe carinhosamente o nome da "música do túnel". Este é o momento em que Charlie percebe definitivamente que está apaixonado por Sam, o momento em que o espectador percebe a enorme sensibilidade deste filme composto por personagens profundamente humanos e cativantes, que vivem situações que qualquer um de nós já terá vivido durante a adolescência, convidando o espectador regressar a este tempo onde o Mundo parecia um lugar a conquistar e os sonhos um objectivo impossível de não concretizar. "As Vantagens de Ser Invisível" capta o espírito da adolescência no seu estado mais puro, os momentos e sentimentos invisíveis vividos pelos adolescentes, tudo acompanhado por magníficas interpretações de Ezra Miller, Emma Watson e Logan Lerman, numa obra cinematográfica delicada e emotiva, que conta com uma enorme alma e coração.


Classificação: 4 (em 5)

Título original: “The Perks of Being a Wallflower”.
Título em Portugal: “As Vantagens de Ser Invisível”.
Título no Brasil: “As Vantagens de Ser Invisível”.
Realizador: Stephen Chbosky.
Argumento: Stephen Chbosky.
Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Nina Dobrev, Paul Rudd, Nicholas Braun, Mae Whitman, Joan Cusack, Melanie Lynskey.

2 comentários:

inês janeiro disse...

mais uma vez muito obrigada por todas as noticias e updates de forma tão rápida e competente. ao ler esta critica até me vieram as lágrimas aos olhos. sou uma grande fã do livro, e desde que começaram a haver rumores de que o iam adaptar ao cinema, fui sempre acompanhando todo o seu desenvolvimento durante estes ultimos dois anos. faltam apenas 3 dias para a estreia em portugal, e esta crítica foi mesmo tudo o que eu precisava.
muito obrigada, eu sei que pode paracer estranho, mas isto significa mesmo muito para mim
continuação de um bom trabalho

Aníbal Santiago disse...

Olá Inês. Eu é que agradeço o comentário, sobretudo numa crítica a um filme que tanto prazer tive a ver. Tive a oportunidade de ver o filme na semana passada e foi uma agradável surpresa. A história do Charlie e dos amigos é contada de forma extremamente delicada e promete fazer recordar muitos momentos que se vivem na adolescência.

Aliado aos bons desempenhos dos actores, o filme dá ainda uma especial importância à música e aqueles pequenos sentimentos invisíveis que os personagens evidenciam.

Fiquei com muita curiosidade em relação ao livro, vai certamente ser uma das minhas próximas leituras.

Cumprimentos