08 novembro 2012

Resenha Crítica: "Argo"

 Após surpreender o público e a crítica com “Gone Baby Gone” e confirmar o talento como realizador em “The Town”, Ben Affleck tem em "Argo" a obra que marca a sua consolidação como realizador, num filme que muito provavelmente vai estar entre os nomeados para os Oscars, não só devido à sua qualidade, mas também às temáticas que aborda (arreigadamente patrióticas).
  Inspirado na história verídica do resgate efectuado pela CIA a um grupo de seis homens e mulheres que conseguem fugir da embaixada norte-americana no Irão e refugiam-se na embaixada do Canadá, durante o célebre caso da chamada “crise de reféns no Irão”, em 1979, “Argo” partilha o título com o argumento do filme falso, que serviu de pretexto para a operação de resgate retratada no filme. Líderada por Tony Menendez (Ben Affleck), esta missão contém no seu interior uma grande dose de non-sense, ou não tivesse como premissa forjar uma falsa produção cinematográfica de ficção-científica (uma espécie de “Star Wars”), que supostamente desenrola-se no Irão, contando com a ajuda do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e do especialista em efeitos especiais John Chambers (John Goodman), para conseguirem forjar uma falsa produção, de forma a que Menendez conseguisse infiltrar-se no território e resgatar as vítimas. Embora esta solução seja vista com muitas reticências por parte da CIA, a verdade é que esta acaba por ser vista como a menos má da más soluções, uma solução que promete colocar a vida de tudo e todos em risco, enquanto Ben Affleck desenvolve uma das melhores obras cinematográficas do ano.
  Actor limitado em termos de talento, Ben Affleck conseguiu reinventar a sua carreira no ramo cinematográfico ao tornar-se num realizador de grande valor, que aos poucos tem conseguido convencer o público e a crítica, ao mesmo tempo que tem feito esquecer o lado “demolidor” pelo qual passou a sua carreira, tendo em “Argo” a obra que mais paradigmaticamente representa todo esse amadurecimento como realizador e um contador de histórias nato. Deixemos de lado o arreigado patriotismo apresentado pelo filme e concentremo-nos na realização inspirada de Affleck, nos bons desempenhos do elenco, na fotografia bem conseguida, em toda a coesão narrativa capaz de mesclar os momentos de tensão com algum humor, uma história que consegue prender o interesse do espectador em cada segundo, onde não falta momentos de tensão inerentes à intrincada operação de resgate, mas também uma forte sátira a Hollywood.
  Inspirado numa caso verídico que ocorreu durante a “crise de reféns do Irão” e tendo como base o artigo "How the CIA Used a Fake Sci-Fi Flick to Rescue Americans from Tehran" de Joshuah Bearman, bem como no livro “The Master of Disguise” de Antonio J. Mendez, a narrativa consegue expor de forma paradigmática toda a intrincada problemática que envolveu esta operação, tendo no personagem interpretado por Affleck o cerne de toda a operação, um indivíduo aparentemente calmo, que procura a todo o custo libertar os reféns, algo que o leva a ter de lidar com a ira dos seus superiores e com os carismáticos personagens interpretados por Alan Arkin e John Goodman, que por si só valem o preço do bilhete de cinema.
 “Argo” consegue ainda efectuar uma crítica contundente a Hollywood, em grande parte graças aos personagens de Arkin e Goodman, uma dupla que olha com alguma desdém para o meio no qual trabalham, lançando farpas contundentes a Hollywood em doses generosas, hilariantes e capazes de desanuviar o clima tenso do filme. Um dos méritos do filme passa exactamente por Affleck conseguir mesclar com sucesso esta sátira a Hollywood, ao mesmo tempo que incute uma densidade dramática fortíssima na obra, que surge exacerbada no último terço, quando os sentimentos estão ao rubro e assiste-se a uma montanha-russa de emoções, ou não estivessem os personagens a correr grave perigo de vida.
 Apesar de todos os elogios que a obra merece, vale a pena realçar que a obra não está completamente imaculada. O patriotismo norte-americana surge exacerbado ao máximo (embora isso não seja um aspecto propriamente negativo, visto que estamos a analisar a obra cinematográfica e não os ideais políticos), algo que se reflecte no facto do contexto político, histórico e social não desenvolver a questão dos Estados Unidos da América estarem a prestar apoio ao Xá da Pérsia (uma figura nebulosa da história contemporânea), devido a este último ser um aliado de “Terras do Tio Sam” durante a Guerra Fria. Essa intrincado jogo político da Guerra Fria raramente é paradigmaticamente representado, ao contrário do clima anti-americano no Irão e das problemáticas relacionadas com os eventos do filme, ou seja, existe uma selecção dos acontecimentos históricos de forma algo maniqueísta, tendo em vista elevar ao máximo os protagonistas do feito apresentado ao longo da narrativa em heróis. Se o foram? Sem dúvida alguma. A operação foi extremamente perigosa, envolveu grandes riscos, uma dose generosa de loucura, que resultou acima de tudo por nessa época as comunicações dependerem praticamente do telefone, algo que explica toda a situação surreal ter sido bem sucedida.
  Se os elogios para o Ben Affleck como realizador são mais do que muitos, não deixa de ser curioso que este tenha surgido no seu melhor (algo que não é muito complicado) como actor no papel de Menendez, um personagem que parece feito à medida do actor, capaz de extrair o melhor que este tem para dar, ao mesmo tempo que Affleck surge rodeado de um elenco competente, no qual sobressaem Alan Arkin (numa interpretação a piscar o olho ao Óscar de Melhor Actor Secundário), John Goodman no seu estilo sempre bonacheirão, Bryan Cranston como um superior da CIA, entre muitos outros personagens que acrescentam uma dimensão mais elevada à narrativa. Curiosamente, Affleck não soube rodear-se de um elenco de respeito, mas também de uma equipa criativa competente, sobressaindo o bom argumento de Chris Terrio, o competente trabalho de fotografia Rodrigo Prieto, a música sempre adequada de Alexandre Desplat, ou seja, Affleck soube rodear-se de gente competente que foi capaz de elevar e muito o nível de “Argo” e maquilhar vários dos seus defeitos.
  Entre a tensão da perigosa missão de resgate e o humor da crítica a Hollywood, Ben Affleck consegue unir de forma harmoniosa algo que inicialmente parece ser nitidamente dicotómico, numa obra surpreendente que se revela como um dos melhores filmes do ano.

Classificação: 4 (em 5)

Título original: “Argo”
Realizador: Ben Affleck
Argumentista: Chris Terrio.
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Rory Cochrane, Christopher Denham, Tate Donovan, Clea DuVall, Victor Garber, Zeljko Ivanek, Richard Kind, Scoot McNairy, Chris Messina, Michael Parks, e Taylor Schilling.

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