28 novembro 2012

Resenha Crítica: "Anna Karenina" (2012)

"Amor é fogo que arde sem se ver;
 É ferida que dói e não se sente;
 É um contentamento descontente;
 É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?" - Luís Vaz de Camões


O amor. Esse fogo que "arde sem se ver", essa ferida "que dói e não se sente", esse "contentamento descontente" contamina grande parte dos personagens de "Anna Karenina" e promete mudar para sempre os seus destinos. Um amor sentido de forma diferente por cada personagem, vivido de forma pessoal e intensa, que surge nos mais apropriados e nos menos esperados momentos, que o diga a protagonista do novo filme realizado por Joe Wright, a bela e frágil Anna Karenina (Keira Knightley). Entre o palco de uma peça de teatro para o qual Joe Wright nos remete e a história que transcende o palco e surge eivada de elementos do real, "Anna Karenina" transporta-nos para um conto barroco, onde a Rússia Imperial no final do século XIX transforma-se no palco de uma trágica história de amor, uma história de amor que parece fadada ao fracasso desde o primeiro momento, ou não fosse esta alimentada pela luxúria, paixão, traição e um fogo incontido que promete queimar a alma e o destino dos seus intervenientes.
 Desde o início que Anna Karenina deveria ter previsto os maus agoiros do destino em relação à sua relação com o Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). No momento em que se conhecem, um indivíduo desesperado atira-se para debaixo do comboio e suicida-se de forma brutal. Este foi o primeiro sinal encontrado por Anna Karenina quando se deslocou a Moscovo para salvar o casamento do irmão, mas acaba por começar a despedaçar o seu. Em Moscovo, Anna, uma mulher casada com o elogiado elemento do Governo, Karenin (Jude Law), logo trava conhecimento com o militar Conde Vronsky. Um beijo delicado deste na sua luva é o preliminar para mais tarde protagonizarem uma ardente dança no baile, enquanto Anna cede ao galanteador e Vronsky esquece por completo Kitty (Alicia Vikander), o seu anterior interesse amoroso, que logo é esquecida pela intensa e frágil Anna Karenina. A dança pelo salão de bailado, intensa em gestos e movimentos belissimamente coreografados, evidencia todo o ardor do casal, toda a paixão que irradia enquanto todos à sua volta parecem parar, incluindo as luzes, que passam a incidir sobre as suas pessoas. De regresso a São Petersburgo, Anna Karenina não consegue esquecer Vronsky, nem este a consegue esquecer, ou não tivesse seguido a amada para esta cidade encantada que promete ser a perdição dos dois. Sem contemplações, Karenin cedo procura evitar que Anna Karenina se exponha neste caso extra-conjugal, mas a mulher cedo cede às investidas de Vronsky, colocando em causa o casamento, a relação com o filho, tudo em prol do amor, um amor louco e ardente que nunca parece "contentar-se de contente".
 O amor é uma temática transversal a "Anna Karenina". Desde o amor de Joe Wright ao pormenor, pontuando a obra por belíssimos e faustosos cenários e guarda-roupa, eivados de elementos barrocos, onde as cores douradas e vermelhas de luxúria e paixão contrastam com os tons negros da infelicidade, ao mesmo tempo que toda a estética apurada da obra exacerba os cenários, os desempenhos dos actores e os sentimentos dos seus personagens. Este amor não surge apenas pelo amor de Wright ao pormenor, da sua capacidade de proporcionar belíssimos momentos cinematográficos, mas também dos personagens que povoam a narrativa, onde cada um parece sentir o amor de forma distinta, mas igualmente arrebatadora. Veja-se o caso de Anna Karenina. Embora seja casada, Anna Karenina procura descobrir pela primeira vez o amor arrebatador, louco, que tolda a mente e a razão, algo que não encontra em Karenin, mas em Vronsky, um galanteador que encara o amor às mulheres como um modo de vida. Se a paixão de Anna e Vronsky é recheada de luxúria, pecado, amor ardente e carnal, o amor de Karenin é contido, tal como todos os seus sentimentos, um amor que raramente é exteriorizado, sendo sempre focado na relação familiar e da sacralidade do casamento. Ao contrário destes, a relação entre Levin e Kitty revela-se uma relação de amor terna, mas longe do fulgor, mais próxima da amizade, menos capaz de causar essa "dor que desatina sem doer".
 À medida que as várias relações de amor desenrolam-se, a tragédia de uns e a felicidade de outros parece aproximar-se, enquanto Joe Wright desenvolve uma belíssima adaptação do clássico literário de Léo Tolstoy. Várias foram as adaptações deste livro ao grande ecrã, uma obra literária cuja história desperta paixões e teve direito a alguns filmes memoráveis, tais como "Anna Karenina" (1935), de Clarence Brown e protagonizado por Greta Garbo, bem como "Anna Karenina" (1948), de Julien Duvivier, protagonizado por Vivien Leigh. Sem a aura trágica e a presença própria das divindades de Garbo, Keira Knightley consegue mais uma vez surpreender ao interpretar esta personagem trágica, que seduz e é seduzida, que cede ao amor e à paixão, uma personagem pertencente à alta sociedade russa, que logo sucumbe a um dos sentimentos mais primários. Diga-se que Knightley surge bastante bem acompanhada por um Jude Law discreto e magnífico como Karenin, conferindo sempre uma pose austera e ao mesmo tempo vulnerável ao seu personagem, enquanto Aaron Taylor-Johnson aparece enérgico como o galanteador Conde Vronsky, embora nem sempre forme uma dupla convincente com Knightley.
 Estes personagens movimentam-se pelo palco de uma peça de teatro que cedo abre as suas portas à imaginação e extravasa o palco, enquanto os sumptuosos cenários pelos quais se deslocam os personagens sobressaem e tudo parece ganhar uma magia e encanto fora do comum, uma sumptuosidade barroca, na qual um se baile transforma num evento de rara beleza, com Joe Wright a confirmar a sua apetência para este tipo de cenas, tal como tinha feito de forma exímia em "Orgulho e Preconceito". Embora a história de "Anna Karenina" já seja sobejamente conhecida (ou pelo menos deveria ser), esta adaptação de Joe Wright tem o condão de manter o interesse do público ao longo da narrativa, captar a atenção para o meio destas histórias de amor tão teatrais e tão próximas do real, tão loucas e ao mesmo tempo tão racionais, beneficiando e muito do argumento de Tom Stoppard, que consegue não só desenvolver a história relacionada com o romance adúltero de Anna Karenina, mas também as histórias dos personagens secundários. Este desenvolvimento dos personagens secundários, em particular de Levin, permite a Domhnall Gleeson ter um dos papéis mais distintos e carismáticos do filme, permitindo à narrativa desenvolver uma dicotomia entre a superficial vida da corte de Anna Karenina e a genuína humanidade dos personagens que habitam o espaço rural, destacando-se o próprio Levin. Esta dicotomia, exacerbada pela procura em explorar a vida de corte da Rússia do Século XIX, não só revela toda esta superficialidade material, mas também a diferença nos amores, nos cenários (o campo sempre menos adornado e próximo do real, enquanto a corte parece saída dos sumptuosos e estilizados cenários de "Moulin Rouge", de Baz Luhrman), uma dicotomia reveladora da procura de preencher a narrativa de códigos e mensagens subliminares, onde não falta o comboio, aquele símbolo da tragédia que avança imparável à velocidade das emoções dos protagonistas. Se esta dicotomia entre campo e a cidade, entre o amor selvagem e o amor contido é sempre paradigmaticamente representado ao longo do filme, o mesmo não se pode dizer do pouco desenvolvimento dado à relação entre Anna Karenina e o filho, com o espectador a raramente sair convencido do facto de esta hesitar em abandonar o marido devido ao facto de este a proibir de ver o petiz.
 Entre o ardente amor adúltero de Anna Karenina e o Conde Vronsky e a relação de amor contida de Konstantin Levin e Kitty, entre a relação de amor maternal de Anna Karenina e o filho e a relação de amor de Joe Wright pelo pormenor, "Anna Karenina" revela-se um drama romântico ambicioso, no qual os faustosos e barrocos cenários coadunam-se com os faustosos sentimentos partilhados por Anna Karenina e o Conde Vronsky, uma obra onde o amor contamina os personagens como "um fogo que arde sem se ver" e proporciona uma espectáculo cinematográfico sumptuoso e de grande beleza.


Classificação: 4 (em 5)

Título original: “Anna Karenina”:
Realizador: Joe Wright.
Argumento: Tom Stoppard.
Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Kelly MacDonald, Theo Morrisey, Matthew Macfadyen, Alicia Vikander, Domhnall Gleeson.

3 comentários:

Sofia Santos disse...

É páaaaaa... Camões e Tolstoi é um mix e tanto :)

Engraçado. Vi o filme ao teu lado e discordo com o facto do campo ser menosprezado - não o acho. Acho que as cenas nele filmadas são dignas de um quadro de Monet ou Millet (quando penso em Levin)e não vejo o comboio como símbolo de tragédia, mas sim - símbolo de um progresso (ainda fruto de uma revolução industrial)

De resto estamos de acordo.

Aníbal Santiago disse...

Um mix lamechas hehe. Eu não disse que o campo é menosprezado, digo é que é menos adornado, ou seja, não tem todo aquele visual barroco recheado de adereços do salão do baile (isto dando um exemplo particular. Existe toda uma simplicidade a nível dos cenários, que nunca surge associado à imagem de luxúria da cidade. Claro que a estética dada ao filme confere sempre uma beleza inexpugnável às imagens em movimento, que permite apresentar uma cena de um grupo de personagens a ceifar com uma poesia semelhante à cena de bailado, mas a diferença entre campo e cidade surge sempre marcada (até nas vestes dos personagens).

Quando ao comboio associo à tragédia logo na cena inicial, bem como na cena final (que não vou exemplificar aqui para o caso de alguma das poucas pessoas que não sabe o final me querer espancar). O primeiro toque entre Anna Karenina e o Conde Vronsky surge em simultâneo ao suicídio, algo que já deixa antever que nada de bom vem a caminho. Mas claro que isto são interpretações e são sempre subjectivas.

Obrigado pelo comentário.

kell disse...

Knightley como Anna K. embora boa atriz, não teve espaço para mostrar uma Anna K. que descobriu-se mulher apaixonada ardente e feliz, frustada, ciumenta e deprimida por diversas lutas entre o sentimento e a razão e que por fim foi engolida pela sociedade que coloca na marginalidade aqueles que fazem da regra, exceção.
O casal Konstantin Levin e Kitty, não fazem o seu papel de apontar fatalmente os erros de Anna K. quando temos quase certeza de que tudo que ela faz se justifica, aliás no filme vc nem entende o porquê deste casal .
Aaron Taylor-Johnson em nada parece com o amante víril e sedutor, parece sim com um adolescente namoradinho desses filmes de sessãoo da tarde, péeesimaaaa atuação!!!
Jude Law, embora convença como marido de Anna K, não foi capaz de mostrar que debaixo de sua atitudes polidas, estavam mascaradas na verdade um sentimento de vingança frio e hostil em relação ao casal.
Enfim o filme não consegue te aproximar do sentimento de angústia, remorsos e amor a que Anna K. luta para no fim não vencer...
A versão de 1997 de Bernard Rose, traz uma Anna K. bem como marido e amante muito mais próximos da realidade do livro, e mais envolventes também ,bem como um filme que desperta maior interesse pela vida de Anna K