Em 1984 estreava nas salas de
cinema "Red Dawn", um filme norte-americano
ultra-patriótico que colocava um grupo de jovens numa guerra de
guerrilha contra os invasores russos que atacavam o território dos
Estados Unidos da América. Estávamos ainda durante a Guerra Fria,
num período particularmente delicado, muitas das vezes denominado de
"Segunda Guerra Fria", no
qual se assistia a uma
"paz armada" entre os Estados Unidos da América e a União
Soviética, um conflito no qual Hollywood teve uma participação
importante, nomeadamente, através das suas obras cinematográficas
ao serviço da diplomacia cultural yankee.
Em
2012, estreou nas salas de cinema nacionais o remake de "Red
Dawn". Estamos longe de uma Guerra Fria, os Estados Unidos da
América estão longe do apogeu de outrora, a União Soviética
desmantelou-se e faz parte do passado, pelo que a escolha dos
antagonistas não recaiu na Rússia, mas sim na Coreia do Norte.
Porquê a escolha deste país? Porque pouco tempo depois das
filmagens, o estúdio percebeu que a China, o antagonista original,
teria de ser substituído, pois esta situação iria afectar a
produção a nível de patrocínios e financiamentos, mas também
tornar improvável o visionamento do filme na China (um mercado
fulcral para os filmes norte-americanos). Falas
dobradas (palavras como “chineses” foram dobradas por
“norte-coreanos”), bandeiras alteradas em CGI e voilá, temos um
novo vilão principal, sem ser necessário refazer as cenas que,
originalmente, foram desenvolvidas a pensar numa invasão chinesa,
numa atitude notoriamente racista, parecendo que "todos os
asiáticos são iguais", algo que é simplesmente ofensivo e
evidencia bem a falta de profundidade dos personagens.
Essa falta de profundidade é visível não só por todos os
norte-coreanos serem representados como seres vis, sem sentimentos,
que procuram apenas invadir os Estados Unidos da América, sem que
sejamos realmente convencidos em relação às razões para a invasão
e à facilidade com que estes se movem pelo território, numa representação puramente maniqueísta dos eventos.
Segundo
os dados do Banco Mundial, a Coreia do Norte tem cerca de 24 milhões
de habitantes, enquanto os Estados Unidos da América tem cerca de
311 milhões de habitantes (dados de 2011). O poderio militar
norte-americano é sobejamente conhecido, bem como a sua intrincada
política de segurança, sobretudo no período pós-11 de Setembro,
no qual pela primeira vez os Estados Unidos da América foram lesados
no interior do seu território metropolitano (em Pearl Harbor não
estávamos no "coração" dos EUA), algo que levou a um
adensar da segurança e tornar ainda mais inverosímil toda esta
narrativa. A narrativa resume-se do seguinte modo: um grupo de jovens
adultos bonitos(as) e atléticos(as) é forçado a combater o
exército de norte-coreanos que invade os Estados Unidos da América,
após conseguir desactivar os sistemas de segurança do território.
Neste grupo encontra-se Jed Eckhert (Chris Hemsworth), um marine que
regressa a casa após ter cumprido serviço no Iraque, o seu irmão
Matt Eckhert (Josh Peck), a namorada deste último (Isabel Lucas, que
inicialmente é raptada mas logo se junta ao grupo), bem como Robert
Morris (Josh Hutcherson), Daryl Jenkins (Connor Cruise) e Pete (Steve
Lenz). Sem praticamente apresentar antagonistas e protagonistas, o
filme logo parte para a acção, pouco tempo depois de um jogo de
rugby na cidade de Spokane, no qual participa a equipa dos
Wolverines, liderada por Matt, um ataque que promete ser rápido e
eficaz, no qual nunca percebemos muito bem a escala nem as suas
razões de ser, enquanto a narrativa se desenrola e não poupa nos
maus diálogos, patriotismo barato, efeitos especiais pouco
convincentes e muita acção.
Comparar
o remake de "Red Dawn" ao filme original é não ter em
conta os diferentes contextos em que as duas obras cinematográficas
foram produzidas. O filme realizado por John Milius fez parte de um
contexto cultural e social muito próprio e fruto do seu tempo, na
qual as obras anti-comunistas faziam parte de um esforço, nem sempre
oficial, de Hollywood em sensibilizar a população para o perigo
soviético, ao mesmo tempo que se aproveitavam para tirar dividendos
financeiros e passar uma mensagem de propaganda. Neste sentido,
assistimos a paródias como "The Russians Are Coming", mas
também a filmes mais sérios como "The Spy Who Came From the
Cold", "Communism", entre muitos outros (é altamente
recomendada a leitura de "Hollywood's Cold War" de Tony
Shaw, um magnífico livro que aborda o papel de Hollywood durante a
Guerra Fria). Se no filme original havia todo um contexto para uma
história de propaganda e completamente maniqueísta, que colocava um
grupo de jovens contra os russos, no caso do remake a razão passa
pura e simplesmente por razões comerciais que não se entendem
porquê. Se a manutenção da China como adversário fosse mantida,
talvez pudesse realmente criar-se uma sensação de medo e de
acreditarmos que os norte-americanos estão em maus lençóis, visto
que estamos perante uma potência. No caso da Coreia do Norte, a
escolha revela-se simplesmente ridícula. Os vilões são
unidimensionais, as suas razões nunca são desenvolvidas e é
impossível crer que nos dias de hoje, com um simples aparelho,
conseguem desligar todo o sistema de segurança norte-americano e
invadir impassivelmente o território, tendo como único adversários
um grupo de jovens que parece saído das passagens de modelos.
Com
um argumento fraquíssimo que sustenta a narrativa com maus diálogos,
patriotismo barato (frases como "Marines don't die, they go to
hell and regroup" são de partir o coração pelo tempo que
perdemos a assistir a estes momentos), sendo acompanhados por interpretações pouco
convincentes (nem Chris Hemsworth escapa, Josh Peck é uma nulidade),
uma banda sonora intrusiva que procura explicar ao espectador como
este se deve sentir e muita acção. Entre a acção desenfreada e a
acção mais contida, o filme tem curtos momentos de diálogos, nos
quais o espectador pode parar para respirar um pouco, para logo de
seguida voltar a mais cenas de acção e não dar tempo para pensar
que nada do que está a ver faz grande sentido, e, pior do que isso,
não entretém e revela-se simplesmente entediante.
"Amanhecer
Violento" marca a estreia de Dan Bradley, um conhecido
coordenador de duplos, na realização cinematográfica, uma estreia
na qual este se revela hábil a coordenar algumas cenas de acção,
mas desastroso em tudo o resto, desenvolvendo um filme sofrível, que
falha em praticamente tudo aquilo a que se propõe. Se o filme
original não era conhecido pela sua qualidade, o remake de "Red
Dawn" revela-se ainda mais ineficiente, não tendo sequer por
detrás de si um contexto político, social e ideológico que
sustente a elaboração de uma obra que coloca como
adversário a Coreia do Norte, um adversário fácil de atacar, não
só devido a ser um Governo Comunista, mas também por não ser um
mercado relevante para as bilheteiras.
Com um argumento fraco, personagens unidimensionais, uma narrativa
atabalhoada, uma banda sonora intrusiva, uma estética pouco
elaborada, pouco mais pode ser dito sobre "Amanhecer Violento",
a não ser que se tiver um sono leve não se preocupe, pois enquanto
estiver a ver este filme não vai ter um "Amanhecer
Violento", mas sim um "adormecer tranquilo".
Classificação: 0 (em 5)
Título
original: “Red Dawn”.
Título
em Portugal: “Amanhecer Violento”.
Título
no Brasil:
Realizador:
Dan Bradley.
Argumento:
Call Ellsworth e Jeremy Passmore.
Elenco:
Chris Hemsworth, Josh Hutcherson, Isabel Lucas, Josh Peck, Connor
Cruise, Adrianne Palicki, Brett Cullen, Will Yun Lee, Jeffrey Dean
Morgan.

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