05 novembro 2012

Resenha Crítica: “Abraham Lincoln: Vampire Hunter”

 O título português de “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” (“Diário Secreto de um Caçador de Vampiros”) não remete para a especificidade do filme colocar o lendário e inspirador ex-Presidente dos Estados Unidos da América como um caçador de vampiros sedento de vingança, que procura erradicar esta maleita do seu País. Baseado no livro homónimo de Seth Grahame-Smith, um escritor e argumentista que conta no currículo com “Pride and Prejudice and Zombies” (que mistura o clássico livro de Jane Austen com Zombies) e se prepara para lançar “Unholy Night” (um livro que parodia a noite do nascimento de Jesus e a história dos três Reis Magos), “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” marca ainda o regresso do russo Timur Bekmambetov à realização cinematográfica, após ter realizado o elogiado “Wanted”.
Um filme que coloca Abraham Lincoln (Benjamin Walker) como caçador de vampiros e Henry Sturgess (Dominic Cooper) como o seu mentor nesta difícil demanda exige desde logo um enorme sentimento de descrença do espectador para se conseguir envolver nesta violenta jornada de Lincoln. O que terá levado esta emblemática figura a ter enveredado por uma vida de caça-vampiros? Tudo começa quando em 1818 Abraham Lincoln vê Nancy (Robin McLeavy), a sua mãe, ser atacada e “envenenada” por Jack Barts (Marton Csokas), o dono da plantação onde trabalhavam os pais do protagonista.
 Nove anos mais tarde, Lincoln decide vingar-se de Jack, mas logo percebe que este é uma entidade que não é humana, mas sim um vampiro, contando com a ajuda de Henry Sturgess (Dominic Cooper) para salvá-lo desta ameaça e para treiná-lo tendo em vista a caça aos vampiros. Uma das regras que Sturgess ensina ao jovem Lincoln é que o futuro Presidente dos Estados Unidos da América não pode criar laços de afeição com ninguém, pois pode colocar em perigo a vida destes. Escusado será dizer que esta regra é facilmente quebrada quando Lincoln conhece a bela Mary Todd (Mary Elizabeth Winstead), a sua futura mulher, enquanto terá de procurar libertar os Estados Unidos da terrível ameaça vampírica ao mesmo tempo que a narrativa procura mesclar esta improvável premissa com alguns factos e acontecimentos históricos, onde não faltam momentos como Lincoln a estudar direito e a interessar-se pela política.
Violência estilizada, momentos de acção frenética, uma premissa peculiar e um protagonista sem o mínimo carisma para o papel que interpreta. Assim se pode resumir “Diários Secretos de Um Caçador de Vampiros”, um filme que partilha vários elementos transversais aos anteriores trabalhos do cineasta russo Timur Bekmambetov, nomeadamente, a acção estilizada, a violência frenética, um bom trabalho de fotografia, a hiperrealidade, embora o especial motivo de interesse deste novo filme do cineasta seja mesmo a premissa, ou não colocasse uma das figuras mais populares e emblemáticas da História dos Estados Unidos da América como um caçador de vampiros.
 Se a premissa algo original desperta à atenção (nem que seja pelo seu carácter completamente non sense), o mesmo não se pode dizer em relação à obra cinematográfica propriamente dita, ao apresentar uma narrativa amorfa que raramente consegue prender o espectador, procurando concentrar todos os esforços nas cenas de acção, onde claramente sobressai a batalha de Gettysburg, onde vampiros e humanos estão frente a frente e prontos a combater por um rumo dicotómico a dar aos Estados Unidos da América. No entanto, o filme raramente consegue sobressair na vertente de épico histórico, algo que procura tentar ser durante várias fases do filme, ficando-se quase sempre pela apresentação de cenas de acção que pouco acrescentam à narrativa.
 Não espere encontrar ao longo do filme grandes lições de História sobre os Estados Unidos da América e em particular sobre a Guerra Civil, nem grande rigor histórico, mas sim doses generosas de acção (muitas das vezes gratuita), numa obra que consegue ser algo competente na alegoria que efectua entre os confederados racistas e esclavagistas, ligados ao lado dos vampiros, e o lado libertador da União, ligado a Abraham Lincoln, um contraste que exacerba o carácter heróico desta mítica e lendária figura da história norte-americana, realçando o carácter patriótico do filme. Não deixa de ser curioso que o filme tenha sido lançado precisamente em ano de eleições e no mesmo ano em que surge “Lincoln”, de Steven Spielberg, realçando a vertente patriótica do filme, algo que é bem evidente na forma como a bandeira dos Estados Unidos da América surge em todo o seu esplendor quando é representada, com toda a sua paleta de cores garridas, onde o vermelho e o azul sobressaem.
 A utilização inteligente das cores e da iluminação destacam o competente trabalho a nível de fotografia ao longo do filme, com as cores frias e as tonalidades escuras a destacarem-se, sobretudo nas cenas onde os efeitos especiais não abundam em qualidade. Esta utilização harmoniosa da fotografia contrasta com as cenas de acção nem sempre bem conseguidas e com um desempenho algo irregular por parte do elenco, onde Benjamin Walker sobressai pela sua inexpressividade e pela sua falta de carisma, dificultando a empatia entre o protagonista e o espectador, algo que advém não só devido ao fraco desempenho do actor, mas também do argumento pouco conseguido.
 O russo Timur Bekmambetov regressa ao grande ecrã com um épico de pendor histórico mesclado com filme de acção e terror, onde os sustos praticamente não surgem, mas a violência é exacerbada, enquanto o carácter patriótico e heróico de Abraham Lincoln é elevado a um nível bastante original. Entre o épico histórico e o filme de terror sobre vampiros, “Diário Secreto de um Caçador de Vampiros” nunca consegue conciliar com harmonia estas duas vertentes, sendo apenas mais um insípido filme de acção que estreia nas salas de cinema, que pouco ou nada acrescenta ao género. Um filme onde o visual se sobrepõe à qualidade da narrativa, onde a estética não chega para fazer esquecer a pobreza do argumento, onde as ideias resultam melhor na teoria do que na prática.

Classificação: 1 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Abraham Lincoln: Vampire Hunter”
Título em Portugal: “Diário Secreto de Um Caçador de Vampiros”
Título no Brasil: “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros”.
Realizador: Timur Bekmambetov.
Guião: Seth Grahame-Smith.
Elenco: Benjamin Walker, Dominic Cooper, Mary Elizabeth Winstead, Marton Csokas, Anthony Mackie, Rufus Sewell, Alan Tudyk, Jimmi Simpson.

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