07 outubro 2012

Resenha Crítica: "Zarafa"

 Sem grande rigor histórico mas com uma narrativa terna, comovente e bela, “Zarafa” é uma agradável surpresa que tende a crescer no coração do espectador à medida que se desenrola a narrativa. Inspirado livremente no célebre episódio histórico da girafa oferecida a Carlos X da França por Mehmet Ali do Egipto e nas obras de Júlio Verne, “Zarafa” surge apresentado ao espectador como uma fábula contada por um idoso a um grupo de jovens, nomeadamente, a história de Maki, um jovem escravo negro com dez anos de idade que vive no Sudão em conjunto com a sua amiga Soula e vários outros escravos, durante a década de 20, do Século XIX.
  Uma noite, Maki consegue fugir do esclavagista e cedo forma uma terna ligação com uma girafa, que promete proteger após a mãe desta ser ter sido baleada pelo indivíduo que ameaçava o rapaz. Perseguido pelo esclavagista, Maki acaba por ser salvo por Hassan, um beduíno que é enviado por Mehmet Ali em direcção a França para oferecer “Zarafa”, a girafa de Maki, a Carlos X, o Rei de França, na esperança que este ajudasse a nação contra os ataques turcos. Sem pretender deixar de lado Zarafa, que prometeu proteger, Maki decide viajar com Hassan e Malaterre até Paris. Nesta cidade, Maki conhece uma realidade totalmente nova, tendo de enfrentar o racismo e indiferença do Rei, a perda da sua girafa, reencontros emocionantes e vários episódios que vão marcar para sempre a sua vida.
 Entre o Sudão, as areias quentes do deserto do Sahara (areias que partilham a mágica história do Antigo Egipto), França e o regresso ao território africano, “Zarafa” apresenta a jornada de crescimento de um rapaz de cor negra que procura desafiar o destino e lutar por aquilo que defende, numa espécie de road movie mesclado com conto de fadas, um conto agridoce, recheado de alegrias e tristezas, ou seja, muito ligado ao real.
  Por alguns momentos vale a pena deixar de lado o rigor histórico, a realidade e todos os problemas quotidianos para embarcar neste belo pedaço de animação, que transporta o espectador para uma fábula dramática, terna, emocionante, sobre um rapaz decidido e incapaz de abandonar aqueles que ama. Na senda dos filmes de animação de cariz mais adulto como os trabalhos de Sylvain Chomet, embora mantenha sempre como destinatário o público mais jovem, “Zarafa” procura despertar à atenção para temáticas como o racismo, desigualdades sociais, o valor da amizade, a lealdade, através de um jovem rapaz que cria uma enorme empatia com o espectador, em grande parte graças ao argumento bem construído que consegue desenvolver todo um conjunto de personagens de forma muito interessante para uma obra cinematográfica do género.
  Com um ritmo narrativo cativante, o filme realizado por Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie, uma dupla vinda de quadrantes cinematográficos distintos, surpreende o espectador pelas temáticas complexas e controversas que aborda, entre os quais a escravatura sobre os negros, o racismo, o trabalho infantil, algo representado paradigmaticamente através da figura do esclavagista que trafica crianças negras e do Rei de França que trata o protagonista pela alcunha de “macaco”, numa forma de rebaixar a criança. Embora recheado de erros históricos e factuais tendo em vista o interesse da construção narrativa, nem por isso o filme deixa de abordar temas nefastos da história francesa e de praticamente todos os países de cariz colonial, nomeadamente, o esclavagismo e o racismo. Ao mesmo tempo que estas temáticas duras e algo controversas são abordadas, a narrativa aproveita ainda para expor a tocante e terna a história de amizade entre Maki e a sua zebra, bem como a ligação entre Maki e Soula, proporcionando à narrativa momentos de enorme candura, drama, algum humor e um enorme coração.
Com um belíssimo trabalho a nível de animação, longe da animação em 3D que estamos habituados a encontrar em grande parte dos filmes de animação norte-americanos actuais e próximo do traço de filmes como “The Ilusionist” de Sylvain Chomet, “Zarafa” apresenta um interessante contraste entre cores quentes dos cenários do deserto do Sahara e as cores frias em cenários como Paris, onde por vezes os tons menos coloridos dominavam esta cidade que se revela como um local de duras memórias para o protagonista. O facto de “Zarafa” apresentar características de road movie, conduz exactamente para essa possibilidade do filme poder apresentar e explorar um riquíssimo conjunto de cenários, entre os quais o Egipto que ganha características algo abstractas, tal como em Paris não falta a representação de vários locais conhecidos e até as célebres Gárgulas na Catedral de Notre-Dame, numa mescla de tentativa de reproduzir e o real e mescla-lo com fantasia.
 Sempre sem perder a sua vertente de fábula, de conto de fadas para um público de todas as idades, “Zarafa” apresenta ainda uma incrível ligação ao misticismo, muito ligado à cultura do povo do protagonista, mas também de outros povos, onde não falta um conjunto de vacas budistas, a utilização de pequenos duplos dos protagonistas enquanto o ancião conta a história (a fazerem lembrar o papel de Ka no Antigo Egipto, o duplo do falecido), a presença de espíritos, tudo acompanhado por uma banda sonora a evocar muitas das vezes os ritmos quentes do continente Africano.
Ao longo dos anos vários são os filmes de animação que estreiam nas salas de cinema. Uns atingem o sucesso do público e da crítica, outros o sucesso junto da crítica mas não do público, outros são devastados pela crítica e venerados pelo público, outros são completamente ignorados. “Zarafa” faz parte dos filmes de animação que acima de tudo não conseguem deixar ninguém indiferente. Terno, comovente, dramático, com algum humor, “Zarafa” é muito mais do que a história de amizade entre um rapaz e a sua girafa, é sobretudo uma parábola sobre o crescimento que todos somos obrigados a fazer de forma forçada, enquanto nos definimos como seres humanos. A certa altura do filme Hassan salienta a Malaterre que nem tudo pode ser feito pela razão, também tem de ser feito com o coração. O grande mérito de “Zarafa” passa exactamente pelo facto de chegar ao coração e conquistar o espectador para o interior deste terno e comovente pedaço de cinema.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Zarafa”.
Realizador: Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie.
Guião: Rémi Bezançon e Alexander Abela.
Elenco:Max Renaudin, Simon Abkarian, François-Xavier Demaison, Vernon Dobtcheff, Philippe Morier-Genoud.

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