28 outubro 2012

Resenha Crítica: “S'është Lavazh”

  Em 1952 era inaugurado com pompa e circunstância o “Kinostudio Shqipëria e Re” em Tirana, a capital da Albânia. Quarenta anos depois da construção do empreendimento, o regime comunista caiu e o estúdio entrou em colapso. Em 1996, o “New Albania” (conhecido por Albafilm a partir de 1992) fechou, e esse terreno passou a ser utilizado por uma miríade de televisões, um marco que salienta um desprezo pela cultura cinematográfica no território e serve para dar o mote para “S'është Lavazh”, um documentário realizado por Gentian Koçi, que apresenta quatro intensos dias na escola de cinema de Narubi, em Tirana, onde um grupo de protestantes procura evitar que um ecrã de cinema ao ar livre fosse destruído pela polícia e pelos interesses empresariais.Vendido a um grande conglomerado ligado aos media, o cinema está prestes a conhecer o amargo sabor da destruição, enquanto um grupo de homens e mulheres decide defender o seu local mágico.
  Acompanhado por imagens em movimento captadas no local, “S'është Lavazh” apresenta os quatro intensos dias de um grupo heterogéneo, formado por professores, estudantes universitários, cinéfilos, que procuram a todo custo evitar a destruição deste cinema ao ar livre, num território onde boas salas de cinema não abundam, enquanto este acto é visto como mais uma facada na cultura efectuada pelo Governo. Recheado de discursos inflamados, depoimentos corrosivos, críticas ao governo, imagens em movimento que captam o sabor do momento, “S'është Lavazh” revela-se um documentário de intervenção, que procura despertar a atenção do espectador para este episódio específico, no qual a destruição de um cinema é visto como um episódio no meio de muitos outros que visam a destruição da cultura. No entanto, esta chamada de atenção acaba por perder algum fulgor devido a Koçi raramente apresentar um contexto histórico, cultural e social que enquadre os acontecimentos, tendo nos manifestantes um grupo incapaz de transmitir pelas palavras aquilo que defendem, com a saudável excepção no professor de filosofia Elvis Hoxha.
  À medida que as tensões se adensam, a acção da polícia torna-se mais dura e violenta, ao mesmo tempo que o grupo de protestantes percebe que a sua acção pouco está a resolver o problema e que o caos se aproxima para o cinema ao ar livre que tanto estimam. Curiosamente, este exemplo de desprezo pela cultura na Albânia pode servir paradigmaticamente para outras realidades contemporâneas, em particular a portuguesa, na qual a cultura tem sido tratada de forma pouco condizente em relação ao papel de relevo que tem na sociedade, uma realidade onde os grandes interesses económicos parecem estar sempre à frente do interesse dos cidadãos e do seu bem estar.
 “S'është Lavazh” procura captar o espírito de um protesto em defesa da arte, mas falha em exprimir ideias e apresentar um contexto que englobe as temáticas, limitando-se praticamente a seguir os acontecimentos, num documentário morno, que tinha tudo para poder despertar um intenso debate sobre a defesa da arte, mas raramente consegue soltar-se das amarras da mera representação de um protesto.

Classificação: 2.5 (em 5)

Ficha Técnica:
Título original: “S'është Lavazh”
Título em inglês: “Not a Carwash”.
Realizador e produtor: Gentian Koçi.

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