Em 1952 era inaugurado com
pompa e circunstância o “Kinostudio
Shqipëria e Re” em Tirana, a capital da Albânia. Quarenta anos
depois da construção do empreendimento, o regime comunista caiu e o
estúdio entrou em colapso. Em 1996, o “New Albania” (conhecido
por Albafilm a partir de 1992) fechou, e esse terreno passou a ser
utilizado por uma miríade de televisões, um marco que salienta um
desprezo pela cultura cinematográfica no território e serve para
dar o mote para “S'është Lavazh”, um documentário realizado
por Gentian Koçi, que apresenta quatro intensos dias na escola de
cinema de Narubi, em Tirana, onde um grupo de protestantes procura
evitar que um ecrã de cinema ao ar livre fosse destruído pela
polícia e pelos interesses empresariais.Vendido a um grande
conglomerado ligado aos media, o cinema está prestes a conhecer o
amargo sabor da destruição, enquanto um grupo de homens e mulheres
decide defender o seu local mágico.
Acompanhado por imagens em
movimento captadas no local, “S'është Lavazh” apresenta os
quatro intensos dias de um grupo heterogéneo, formado por
professores, estudantes universitários, cinéfilos, que procuram a
todo custo evitar a destruição deste cinema ao ar livre, num
território onde boas salas de cinema não abundam, enquanto este
acto é visto como mais uma facada na cultura efectuada pelo Governo.
Recheado de discursos inflamados, depoimentos corrosivos, críticas
ao governo, imagens em movimento que captam o sabor do momento,
“S'është Lavazh” revela-se um documentário de intervenção,
que procura despertar a atenção do espectador para este episódio
específico, no qual a destruição de um cinema é visto como um
episódio no meio de muitos outros que visam a destruição da
cultura. No entanto, esta chamada de atenção acaba por perder algum
fulgor devido a Koçi raramente apresentar um contexto
histórico, cultural e social que enquadre os acontecimentos, tendo
nos manifestantes um grupo incapaz de transmitir pelas
palavras aquilo que defendem, com a saudável excepção no professor
de filosofia Elvis Hoxha.
À medida que as tensões se
adensam, a acção da polícia torna-se mais dura e violenta, ao
mesmo tempo que o grupo de protestantes percebe que a sua acção
pouco está a resolver o problema e que o caos se aproxima para o
cinema ao ar livre que tanto estimam. Curiosamente, este exemplo de
desprezo pela cultura na Albânia pode servir paradigmaticamente para
outras realidades contemporâneas, em particular a portuguesa, na
qual a cultura tem sido tratada de forma pouco condizente em relação
ao papel de relevo que tem na sociedade, uma realidade onde os
grandes interesses económicos parecem estar sempre à frente do
interesse dos cidadãos e do seu bem estar.
“S'është
Lavazh” procura captar o espírito de um protesto em defesa da
arte, mas falha em exprimir ideias e apresentar um contexto que englobe as temáticas,
limitando-se praticamente a seguir os acontecimentos, num
documentário morno, que tinha tudo para poder despertar um intenso
debate sobre a defesa da arte, mas raramente consegue soltar-se das
amarras da mera representação de um protesto.
Classificação: 2.5 (em 5)
Ficha
Técnica:
Título
original: “S'është Lavazh”
Título
em inglês: “Not a Carwash”.
Realizador
e produtor: Gentian Koçi.

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