27 outubro 2012

Resenha Crítica: “Mrtvá trat”

 Em 1947, Josef Stalin, então líder da União Soviética ordenou a construção de uma linha de caminho de ferro a ligar Salekhard e Igarka (cerca de 1,297 km de distância), uma linha que considerava de grande importância estratégica a nível comercial e de comunicação entre os territórios. A construção desta linha foi desenvolvida entre 1947 até 1953, tendo apenas sido travada devido à morte do ditador, algo que comprova paradigmaticamente a pouca utilidade estratégica da mesma. “Mrtvá trat”, o novo documentário escrito, realizado, editado por Šimon Špidla procura expor as condições desumanas nas quais este caminho de ferro foi construído, ou não tivesse sido desenvolvido graças ao trabalho escravo de milhares de prisioneiros.
  Entre mapas, fotografias de época, desenhos, algumas imagens do local, “Mrtvá trat” apresenta de forma pouco dinâmica e por vezes demasiado minimalista, alguns pormenores sobre esta construção, uma obra que albergou cerca de oitenta mil pessoas, quase todas oriundas dos gulag, um grupo escravo que vivia em condições desumanas numa construção que ocupa um território imenso e cedo foi transformada em ruínas.  Entre viagens pela imensidão do rio Yenisei e pelas imediações territoriais da construção, entre mapas marcados a lápis de carvão ou a caneta de filtro, “Mrtvá Trat” apresenta a uma série de situações relacionadas com toda esta construção, que vão desde a construção e os seus materiais, o território hostil onde a construção está desenvolvida, centrando-se sobretudo no grupo de homens e mulheres que trabalhavam de forma escrava nesta construção.
  Na maior parte dos casos, esta mão de obra operária escrava era oriunda dos Gulag, conjuntos de homens e mulheres que foram acusados de diferentes crimes (os Gulag encontram-se divididos consoante a especificidade do crime, algo relativamente bem exposto pelo filme), sendo forçados a abandonar a família, a dignidade e a humanidade para abraçar uma obra que era um capricho do seu líder. A crueldade cometida sobre estes homens e mulheres que trabalhavam na construção desta obra é uma das principais temáticas expostas ao longo deste informativo documentário, uma dura realidade que é adensada pelos discursos de alguns dos sobreviventes, enquanto estes expõem de forma exímia o lado mais desumano do sistema soviético. Este lado mais desumano é visível não só devido ao tratamento dado aos presos, mas também pelas próprias condições do território e até da precariedade dos materiais utilizados na construção, que colocavam em perigo a vida destes homens e mulheres que eram vistos como meros números para a construção de um capricho do líder soviético, um líder conhecido pela sua acção pouco condizente com os direitos humanos.
  Não espere grandes emoções ou sensações de “Mrtvá Trat”, mas sim um documentário informativo, sobre uma obra megalómana fadada ao fracasso, uma obra onde o lado mais desumano da política de Estaline vem ao de cima, enquanto Šimon Špidla procura de forma muito própria apresentar um conjunto de episódios cujo interesse surge algo abafado pela estrutura pouco interessante do documentário.

Classificação: 2 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “
Mrtvá Trať”.
Título em inglês: “Into Oblivion”
Realizador, editor, produtor: Šimon Špidla

Crítica em colaboração com a Take Cinema Magazine: https://www.facebook.com/take.com.pt

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