Entre reviravoltas, situações
inusitadas, silêncios constrangedores e momentos de tensão, "A
Moral Conjugal", o novo filme de Artur Serra Araújo, procura
transportar o espectador para o interior de uma sátira sobre a
"moral", ou falta desta, que envolve uma relação
conjugal, através de uma mulher que tem a tendência para
envolver-se com homens muito peculiares.
Esta
mulher é Manuela (São José Correia), uma promotora de produtos
farmacêuticos que gosta de manter os seus casos extraconjugais,
embora saiba do perigo
em que esta situação lhe faz incorrer, devido à natureza violenta
de Abel (José Wallenstein), um médico que pertence a uma célula
terrorista espanhola. Um dos casos extraconjugais que Manuela decide
iniciar é com Octávio (Dinarte Branco), um médico pouco falador
que sofre de problemas de ansiedade e de claros distúrbios mentais.
Sensual, provocadora, irresistível, Manuela cedo provoca o desejo em
Octávio, mas o feitio claramente perturbado deste logo conduzem a
trágicos eventos que colocam a vida de Manuela, da sua bela irmã e
de todos os que a acompanham em perigo.
Composto
por um elenco de bom nível, "A Moral Conjugal" procura
efectuar uma sátira corrosiva a uma relação conjugal, ao
acompanhar uma mulher fatal que procura fazer de tudo para manter as
aparências da sua boa moral, em grande parte devido a ter
consciência de que o seu namorado é capaz de tudo para defender a
"moral conjugal". Sem emocionar particularmente o
espectador, "A Moral Conjugal" procura manter a fluidez
narrativa através das várias reviravoltas e situações caricatas,
destacando-se pela simplicidade do argumento e pela mordacidade
atribuída à narrativa pelos diálogos e pela banda sonora, enquanto
São José Correia, José Wallenstein e Catarina Wallenstein
apresentam desempenhos deliciosos que elevam a narrativa da mediania.
Salientar
o elenco de bom nível é também realçar o magnífico trabalho de
São José Correia. Esta é a alma para a narrativa funcionar.
Sensual, atrevida, irónica, a sua personagem é uma mulher fatal que
se sente atraída por
todos os perigos, acabando por se envolver numa situação inusitada,
onde arrasta a sua irmã (Catarina Wallenstein), a sua família e a
si própria para o abismo. Esta forma um par peculiar com José
Wallenstein, um actor capaz de dizer muito apenas com a sua expressão
corporal, conseguindo atribuir uma enorme credibilidade ao seu
personagem, mesmo quando este se encontra em cenas algo surreais e
descontextualizadas da restante narrativa. A juntar a este dueto
temos ainda a boa interpretação de Catarina Wallenstein como a irmã
de Manuela, uma jovem belíssima, que desenvolve uma certa tensão
sexual com Abel (uma situação que o argumento não explora, mas
fica subliminarmente entendido), uma personagem que atrai o namorado
da irmã e que é impossível deixar o espectador indiferente.
Se
o elenco apresenta um desempenho muito interessante (importa não
esquecer também Dinarte Branco), o mesmo não se pode dizer do
argumento e da fluidez narrativa, dependendo muito dos twists e de
situações algo caricatas para manter o interesse numa história
onde os silêncios constrangedores dos personagens tornam-se por
vezes igualmente duros de ver para o espectador, com a narrativa a
apresentar um tom demasiado seco para conseguir emocionar, gerando
esporadicamente a indiferença às situações apresentadas pelo
filme.
Depois de ter obtido algum sucesso com "Suicídio Encomendado",
Artur Serra Araújo regressa às salas de cinema com uma
longa-metragem bem construída, que se destaca pela simplicidade do
argumento, o magnífico desempenho dos actores, mas também um bom
trabalho com a câmara de filmar, nomeadamente, a forma exímia da
utilização dos ângulos e movimentos de câmara e pela criatividade
colocada em muitas das situações apresentadas ao longo da
narrativa, enquanto um
casal se debate com
problemas relacionados com a "moral conjugal" e com um
morto que promete trazer muitas complicações.
Manter uma relação conjugal pode ser algo complicado, sobretudo
quando os envolvidos são uma mulher fatal que gosta de seduzir e ser
seduzida e um elemento de uma célula terrorista espanhola. Através
deste casal muito peculiar, "A Moral Conjugal" efectua uma
sátira corrosiva às relações amorosas e à nossa sociedade, uma
defesa pela vida das lagostas, enquanto transporta o espectador para
uma comédia negra, onde não falta drama, muita tensão, e uma São
José Correia em grande nível.
Classificação: 3 (em 5)
Título
original: “A Moral Conjugal”
Realizador:
Artur Serra Araújo.
Argumentista:
Artur Serra Araújo.
Elenco:
São José Correia, José Wallenstein, Catarina Wallenstein, Maria
João Bastos, Dinarte Branco.

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