31 outubro 2012

Resenha Crítica: "A Moral Conjugal"

  Entre reviravoltas, situações inusitadas, silêncios constrangedores e momentos de tensão, "A Moral Conjugal", o novo filme de Artur Serra Araújo, procura transportar o espectador para o interior de uma sátira sobre a "moral", ou falta desta, que envolve uma relação conjugal, através de uma mulher que tem a tendência para envolver-se com homens muito peculiares.
 Esta mulher é Manuela (São José Correia), uma promotora de produtos farmacêuticos que gosta de manter os seus casos extraconjugais, embora saiba do perigo em que esta situação lhe faz incorrer, devido à natureza violenta de Abel (José Wallenstein), um médico que pertence a uma célula terrorista espanhola. Um dos casos extraconjugais que Manuela decide iniciar é com Octávio (Dinarte Branco), um médico pouco falador que sofre de problemas de ansiedade e de claros distúrbios mentais. Sensual, provocadora, irresistível, Manuela cedo provoca o desejo em Octávio, mas o feitio claramente perturbado deste logo conduzem a trágicos eventos que colocam a vida de Manuela, da sua bela irmã e de todos os que a acompanham em perigo.
 Composto por um elenco de bom nível, "A Moral Conjugal" procura efectuar uma sátira corrosiva a uma relação conjugal, ao acompanhar uma mulher fatal que procura fazer de tudo para manter as aparências da sua boa moral, em grande parte devido a ter consciência de que o seu namorado é capaz de tudo para defender a "moral conjugal". Sem emocionar particularmente o espectador, "A Moral Conjugal" procura manter a fluidez narrativa através das várias reviravoltas e situações caricatas, destacando-se pela simplicidade do argumento e pela mordacidade atribuída à narrativa pelos diálogos e pela banda sonora, enquanto São José Correia, José Wallenstein e Catarina Wallenstein apresentam desempenhos deliciosos que elevam a narrativa da mediania.
 Salientar o elenco de bom nível é também realçar o magnífico trabalho de São José Correia. Esta é a alma para a narrativa funcionar. Sensual, atrevida, irónica, a sua personagem é uma mulher fatal que se sente atraída por todos os perigos, acabando por se envolver numa situação inusitada, onde arrasta a sua irmã (Catarina Wallenstein), a sua família e a si própria para o abismo. Esta forma um par peculiar com José Wallenstein, um actor capaz de dizer muito apenas com a sua expressão corporal, conseguindo atribuir uma enorme credibilidade ao seu personagem, mesmo quando este se encontra em cenas algo surreais e descontextualizadas da restante narrativa. A juntar a este dueto temos ainda a boa interpretação de Catarina Wallenstein como a irmã de Manuela, uma jovem belíssima, que desenvolve uma certa tensão sexual com Abel (uma situação que o argumento não explora, mas fica subliminarmente entendido), uma personagem que atrai o namorado da irmã e que é impossível deixar o espectador indiferente.
 Se o elenco apresenta um desempenho muito interessante (importa não esquecer também Dinarte Branco), o mesmo não se pode dizer do argumento e da fluidez narrativa, dependendo muito dos twists e de situações algo caricatas para manter o interesse numa história onde os silêncios constrangedores dos personagens tornam-se por vezes igualmente duros de ver para o espectador, com a narrativa a apresentar um tom demasiado seco para conseguir emocionar, gerando esporadicamente a indiferença às situações apresentadas pelo filme.
  Depois de ter obtido algum sucesso com "Suicídio Encomendado", Artur Serra Araújo regressa às salas de cinema com uma longa-metragem bem construída, que se destaca pela simplicidade do argumento, o magnífico desempenho dos actores, mas também um bom trabalho com a câmara de filmar, nomeadamente, a forma exímia da utilização dos ângulos e movimentos de câmara e pela criatividade colocada em muitas das situações apresentadas ao longo da narrativa, enquanto um casal se debate com problemas relacionados com a "moral conjugal" e com um morto que promete trazer muitas complicações.
Manter uma relação conjugal pode ser algo complicado, sobretudo quando os envolvidos são uma mulher fatal que gosta de seduzir e ser seduzida e um elemento de uma célula terrorista espanhola. Através deste casal muito peculiar, "A Moral Conjugal" efectua uma sátira corrosiva às relações amorosas e à nossa sociedade, uma defesa pela vida das lagostas, enquanto transporta o espectador para uma comédia negra, onde não falta drama, muita tensão, e uma São José Correia em grande nível.


Classificação: 3 (em 5)

Título original: “A Moral Conjugal”
Realizador: Artur Serra Araújo.
Argumentista: Artur Serra Araújo.
Elenco: São José Correia, José Wallenstein, Catarina Wallenstein, Maria João Bastos, Dinarte Branco.

Sem comentários: