Um filme de comédia intitulado
"Manteiga" exige desde o início um grande sentimento de
descrença por parte do espectador. Se tivermos ainda em linha de
conta que a premissa do filme se centra
numa mulher na casa dos trinta anos que quer a todo o custo vencer um
concurso de escultura de manteiga frente a uma rapariga de dez anos,
então a situação fica ainda mais caricata. O mais estranho de toda
esta situação assaz invulgar é a forma engenhosa como o realizador
Jim Field Smith consegue jogar com todas as situações caricaturais
e fora da realidade para desenvolver uma sátira à sociedade
norte-americana capaz de despertar alguns sorrisos por parte do
espectador, sobretudo a impagável personagem de Olivia Wilde, que
por si só vale o preço do bilhete.
Vamos
ao que interessa. "Manteiga" não é um filme artístico
como as esculturas de manteiga elaboradas pelos personagens
interpretados por Ty Burrell, Jennifer Garner e Yara Shaidi, mas sim
uma obra que procura pura e simplesmente divertir o espectador. Se
consegue esse objectivo? Surpreendentemente, a resposta (embora com
algumas reservas) é sim. Porquê? É delicioso ver todos estes
personagens caricaturais, quase cartoonescos, a expressarem de forma
exagerada algumas dos estereótipos dos "rednecks", numa
crítica bem-humorada aos hábitos, valores e figuras do interior dos
Estados Unidos da América, ao mesmo tempo que apresenta uma
irreverência e humor negro que ficam paradigmaticamente
representados na escultura do assassinato do Presidente John F.
Kennedy. Realizado por Jim Field Smith, o mesmo do sofrível "She's
Out of My League", "Butter" acompanha a história de
Destiny (Shaidi), uma jovem órfã de dez anos de idade, que pulula
de família em família até ficar a cargo de Julie (Alicia
Silverstone) e Ethan Emmet (Rob Corddry), um casal que não pode ter
filhos e decide acolher a jovem. O que estes certamente não
esperavam era ter acolhido um talento inato em escultura de manteiga
que promete conquistar tudo e todos no concurso
de escultura de manteiga de Iowa,
algo que irrita profundamente Laura, a mulher do anterior grande
campeão, denominado de “Elvis
da Manteiga”, que é convidado a retirar-se para dar lugar aos mais
novos.
Inconformada com a situação do marido, Laura, uma Sarah Palin em
potência, decide tomar as rédeas da família e disputar o concurso,
tendo que enfrentar a jovem Destiny, a pouco evoluída cerebralmente
Carol-Ann Stevenson (Kristen Schaal) e a sensual Brooke (uma stripper
a quem o marido deve 600 dólares devido aos serviços extra). Entre
situações caricatas proporcionadas pela personagem interpretada por
Jennifer Garner, momentos comoventes protagonizados por Destiny e um
universo recheado de personagens caricaturais, “Manteiga”
consegue a espaços esconder todo o ridículo da sua premissa e
proporcionar alguns momentos de entretenimento.
Quando
pensamos em manteiga, pensamos sempre no aroma saboroso que esta dá
ao pão, no tempero da comida, nas artérias que entope, mas uma das
últimas aplicações que esperamos é que esta seja utilizada como
um título de um filme. Com um título pouco apelativo para um filme,
seja este de comédia, de terror, ou pornográfico (ok, aqui talvez
tenha algum sentido), "Manteiga" não faz derreter o
espectador em elogios, mas certamente promete proporcionar alguns
sorrisos, alicerçados no desempenho quase caricatural do seu elenco,
onde não falta uma Jennifer Garner como uma frígida mulher que é
capaz de tudo para vencer o concurso de escultura de manteiga, Olivia
Wilde como uma prostituta que tem tanto de louca como de sensual, Ty
Burrell como um escultor de manteiga que é dominado pela esposa,
Ashley Greene como a filha revoltada do personagem deste último (que
protagoniza uma cena algo quente com Olivia Wilde). Esta caricatura,
que pode fazer sorrir ou afastar o espectador, serve não só o
propósito da sátira, do exagero elevado ao máximo do estereótipo
do cidadão norte-americano do centro-oeste, mais conservador, mas
também para manter o tom caricatural de "Manteiga", um tom
que cai em excessos e acaba em alguns momentos por tornar a narrativa
algo penosa.
Quem está algo afastado deste universo caricatural são os
personagens de Rob Corddry, Alicia Silvestorne e Yara Shaidi, um trio
que enche a história de momentos de ternura, que andam entre o
lamechas e o comovente, entre o tépido e o emotivo, mas sempre sem
grandes rasgos de genialidade. Esta variância de tom da obra
cinematográfica, ora espalhafatosa, garrida, boçal, contrasta com o
tom mais contido da história do casal interpretado por Corddry e
Silverston e da pequena Destiny, uma jovem afro-americana que tarda
em encontrar alguma estabilidade na sua vida. Esboçando uma
tentativa de procurar expor a problemática relacionada com estas
crianças e a dificuldade em encontrarem um casal que as adopte, o
filme logo descamba invariavelmente para o exagero, para a sátira,
para o humor histriónico.
Uma narrativa que gira em volta de um concurso de escultura de
manteiga, uma actividade que parece ter alguma aderência em certas
zonas dos Estados Unidos da América, exige desde o início um
sentimento de descrença por parte do espectador, ou não fosse uma
temática algo caricata, quase a roçar o ridículo. Apesar
de todos esses problemas, “Manteiga”consegue
surpreender pela caricatura mordaz que efectua a alguns grupos da
sociedade norte-americana, exagerando os seus estereótipo,
apresentando quase toda a população como se fosse oriunda de um
freak show, uma sátira alicerçada num bom desempenho do elenco, no
qual sobressai uma Olivia Wilde simplesmente hilariante, ao
interpretar uma personagem que é o paradigma deste filme: exagerado,
vulgar, mas com algum charme.
O mais provável é que não saia derretido da sala de cinema, com
esta comédia satírica que usa e abusa do tom excessivamente
caricatural para exacerbar as situações nas quais se envolvem os
personagens, uma comédia que conta com um argumento que escorrega
como se fosse manteiga, mas é capaz de surpreender nos momentos mais
inesperados e, pasme-se, fazer rir.
Classificação: 2.5 (em 5)
Ficha
técnica:
Título Original: “Butter”.
Título Original: “Butter”.
Título
em Portugal: “Manteiga”.
Título
no Brasil: “Butter.
Realizador: Jim Field Smith.Guião: Jason A. Micallef.
Realizador: Jim Field Smith.Guião: Jason A. Micallef.
Elenco: Jennifer Garner, Olivia
Wilde, Ashley Greene, Ty Burrell, Hugh Jackman, Alicia Silverstone,
Rob Corddry, Yara Shaidi, Kristen Schaal.

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