31 outubro 2012

Resenha Crítica: "Manteiga" (Butter)

  Um filme de comédia intitulado "Manteiga" exige desde o início um grande sentimento de descrença por parte do espectador. Se tivermos ainda em linha de conta que a premissa do filme se centra numa mulher na casa dos trinta anos que quer a todo o custo vencer um concurso de escultura de manteiga frente a uma rapariga de dez anos, então a situação fica ainda mais caricata. O mais estranho de toda esta situação assaz invulgar é a forma engenhosa como o realizador Jim Field Smith consegue jogar com todas as situações caricaturais e fora da realidade para desenvolver uma sátira à sociedade norte-americana capaz de despertar alguns sorrisos por parte do espectador, sobretudo a impagável personagem de Olivia Wilde, que por si só vale o preço do bilhete.
 Vamos ao que interessa. "Manteiga" não é um filme artístico como as esculturas de manteiga elaboradas pelos personagens interpretados por Ty Burrell, Jennifer Garner e Yara Shaidi, mas sim uma obra que procura pura e simplesmente divertir o espectador. Se consegue esse objectivo? Surpreendentemente, a resposta (embora com algumas reservas) é sim. Porquê? É delicioso ver todos estes personagens caricaturais, quase cartoonescos, a expressarem de forma exagerada algumas dos estereótipos dos "rednecks", numa crítica bem-humorada aos hábitos, valores e figuras do interior dos Estados Unidos da América, ao mesmo tempo que apresenta uma irreverência e humor negro que ficam paradigmaticamente representados na escultura do assassinato do Presidente John F. Kennedy. Realizado por Jim Field Smith, o mesmo do sofrível "She's Out of My League", "Butter" acompanha a história de Destiny (Shaidi), uma jovem órfã de dez anos de idade, que pulula de família em família até ficar a cargo de Julie (Alicia Silverstone) e Ethan Emmet (Rob Corddry), um casal que não pode ter filhos e decide acolher a jovem. O que estes certamente não esperavam era ter acolhido um talento inato em escultura de manteiga que promete conquistar tudo e todos no concurso de escultura de manteiga de Iowa, algo que irrita profundamente Laura, a mulher do anterior grande campeão, denominado de “Elvis da Manteiga”, que é convidado a retirar-se para dar lugar aos mais novos.
  Inconformada com a situação do marido, Laura, uma Sarah Palin em potência, decide tomar as rédeas da família e disputar o concurso, tendo que enfrentar a jovem Destiny, a pouco evoluída cerebralmente Carol-Ann Stevenson (Kristen Schaal) e a sensual Brooke (uma stripper a quem o marido deve 600 dólares devido aos serviços extra). Entre situações caricatas proporcionadas pela personagem interpretada por Jennifer Garner, momentos comoventes protagonizados por Destiny e um universo recheado de personagens caricaturais, “Manteiga” consegue a espaços esconder todo o ridículo da sua premissa e proporcionar alguns momentos de entretenimento.
 Quando pensamos em manteiga, pensamos sempre no aroma saboroso que esta dá ao pão, no tempero da comida, nas artérias que entope, mas uma das últimas aplicações que esperamos é que esta seja utilizada como um título de um filme. Com um título pouco apelativo para um filme, seja este de comédia, de terror, ou pornográfico (ok, aqui talvez tenha algum sentido), "Manteiga" não faz derreter o espectador em elogios, mas certamente promete proporcionar alguns sorrisos, alicerçados no desempenho quase caricatural do seu elenco, onde não falta uma Jennifer Garner como uma frígida mulher que é capaz de tudo para vencer o concurso de escultura de manteiga, Olivia Wilde como uma prostituta que tem tanto de louca como de sensual, Ty Burrell como um escultor de manteiga que é dominado pela esposa, Ashley Greene como a filha revoltada do personagem deste último (que protagoniza uma cena algo quente com Olivia Wilde). Esta caricatura, que pode fazer sorrir ou afastar o espectador, serve não só o propósito da sátira, do exagero elevado ao máximo do estereótipo do cidadão norte-americano do centro-oeste, mais conservador, mas também para manter o tom caricatural de "Manteiga", um tom que cai em excessos e acaba em alguns momentos por tornar a narrativa algo penosa.
  Quem está algo afastado deste universo caricatural são os personagens de Rob Corddry, Alicia Silvestorne e Yara Shaidi, um trio que enche a história de momentos de ternura, que andam entre o lamechas e o comovente, entre o tépido e o emotivo, mas sempre sem grandes rasgos de genialidade. Esta variância de tom da obra cinematográfica, ora espalhafatosa, garrida, boçal, contrasta com o tom mais contido da história do casal interpretado por Corddry e Silverston e da pequena Destiny, uma jovem afro-americana que tarda em encontrar alguma estabilidade na sua vida. Esboçando uma tentativa de procurar expor a problemática relacionada com estas crianças e a dificuldade em encontrarem um casal que as adopte, o filme logo descamba invariavelmente para o exagero, para a sátira, para o humor histriónico.
 Uma narrativa que gira em volta de um concurso de escultura de manteiga, uma actividade que parece ter alguma aderência em certas zonas dos Estados Unidos da América, exige desde o início um sentimento de descrença por parte do espectador, ou não fosse uma temática algo caricata, quase a roçar o ridículo. Apesar de todos esses problemas, “Manteiga”consegue surpreender pela caricatura mordaz que efectua a alguns grupos da sociedade norte-americana, exagerando os seus estereótipo, apresentando quase toda a população como se fosse oriunda de um freak show, uma sátira alicerçada num bom desempenho do elenco, no qual sobressai uma Olivia Wilde simplesmente hilariante, ao interpretar uma personagem que é o paradigma deste filme: exagerado, vulgar, mas com algum charme.
  O mais provável é que não saia derretido da sala de cinema, com esta comédia satírica que usa e abusa do tom excessivamente caricatural para exacerbar as situações nas quais se envolvem os personagens, uma comédia que conta com um argumento que escorrega como se fosse manteiga, mas é capaz de surpreender nos momentos mais inesperados e, pasme-se, fazer rir.

Classificação: 2.5 (em 5)
Ficha técnica:
Título Original: “Butter”.
Título em Portugal: “Manteiga”.
Título no Brasil: “Butter.
Realizador: Jim Field Smith.
Guião: Jason A. Micallef.
Elenco: Jennifer Garner, Olivia Wilde, Ashley Greene, Ty Burrell, Hugh Jackman, Alicia Silverstone, Rob Corddry, Yara Shaidi, Kristen Schaal.

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