29 outubro 2012

Resenha Crítica: "In a Lonely Place"

Mel Lippmann (Art Smith): What does it matter what I think? I'm the guy who tried to talk Selznick out of doing "Gone with the Wind"!

 Mel Lippman pode ter sido o indivíduo que tentou convencer David O. Selznick a não produzir “Gone With the Wind”, mas felizmente que não houve ninguém a tentar impedir Nicholas Ray de realizar “In a Lonely Place”, um filme noir que passou o teste do tempo e continua a ser uma obra cinematográfica marcante e inesquecível.
  Cineasta de reconhecido valor, Ray tem em “In a Lonely Place” a sua segunda colaboração com Humphrey Bogart, após terem trabalhado juntos em “Knock on Any Door”. Bogart interpreta Dixon Steele, um argumentista soturno, violento, arrogante, um indivíduo que aparentemente tinha tudo para ser detestável mas partilha com o seu protagonista um carisma capaz de transforma-lo num personagem arrebatador, que é capaz de colocar o espectador do seu lado. Logo na primeira cena do filme encontramos Dixon a envolver-se numa acirrada discussão junto aos sinais de trânsito e a prometer alguma violência junto do seu interlocutor. Posteriormente, este logo se envolve numa acalorada discussão com um realizador sobre este último vender a sua arte ao reciclar os mesmos trabalhos para os seus projectos terem sucesso na bilheteira. No bar, acaba por conhecer Mildred Atkinson (Martha Stewart), uma jovem rapariga a quem pede que leia um livro que um produtor lhe pedira para adaptar, numa tentativa do argumentista voltar a ter um êxito, algo que já não acontece desde o período anterior à II Guerra Mundial.
  No entanto, a bela rapariga aparece assassinada e o principal acusado é Dixon, a última pessoa a ser vista com a jovem que levou para sua casa. Felizmente para o escritor, a sua vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame), viu na sua janela que este estava em casa e testemunha a seu valor, algo que vale temporariamente a sua libertação e o início de uma estranha relação com esta bela mulher. Violento, misterioso, contido na demonstração dos afectos, aos poucos Dixon começa a mostrar a sua inabilidade com os outros seres humanos, destruindo as relações de afectos que vai criando e embrenhando-se “in a lonely place”.
 A discussão que Dixon Steele tem com um realizador no início do filme, salientando que este é um “vendedor de pipocas”, evidencia bem a dicotomia da obra de Nicholas Ray com os filmes de muitos outros autores e a sua vontade em honrar a arte do cinema e o espectador, ao apresentar obras cinematográficas únicas e inesquecíveis. Claro que nem todas as obras de Ray são inesquecíveis, mas este teve o mérito de cunhar um estilo próprio, de conferir um estilo autoral e único que é transversal a muitas das suas obras, onde não faltam personagens complexos, profundamente humanos, uma capacidade para tirar o melhor dos elementos do elenco (veja-se os casos de Bogart, James Dean em “Rebel Without a Cause”, Joan Crawford em “Johnny Guitar”, entre muitos outros), a atenção ao detalhe, a cuidada mise-en-scène, entre muitas outras qualidades que transformaram as várias obras de Ray numa poesia visual que continua a ecoar ao longo do tempo.
  Em “In a Lonely Place”, Nicholas Ray transporta-nos para um intenso filme noir, onde um violento escritor é acusado de assassinato e aos pouco o espectador não sabe bem em quem confiar. Este escritor é interpretado de forma intensa por Humphrey Bogart, um actor marcante que tem em Dixon uma das melhores interpretações da sua carreira, um personagem complexo, violento e ao mesmo tempo frágil, inflexível na defesa da arte da sua profissão, um indivíduo que se perde no alcoolismo e na violência e deixa-se afundar na solidão, nas sombras, num local obscuro de onde poucos o conseguem tirar.
Este é um dos típicos personagens de Ray. Complexo, profundamente humano, algo problemático, capaz de fazer com que o espectador torça por si, embora saiba que muito provavelmente está condenado à perdição. Acusado de assassinato, este hediondo acto cujo autor apenas é revelado bem perto do final da obra, serve de mote para Nicholas Ray traçar uma crítica a Hollywood, à forma como a sétima arte está sujeita a ter que obedecer a um modelo para atrair público ao invés de procurar desafios. Curiosamente, Ray desafia esse sistema, embora esteja integrado no mesmo (veja-se que tal como o protagonista, também Ray está a trabalhar na adaptação de um livro em “In a Lonely Place”), embora traga uma vertente artística inolvidável às suas obras.
  “In a Lonely Place” integra-se nas obras-primas de Nicholas Ray. Uma obra profundamente dramática, crua, onde o protagonista é um indivíduo violento, uma bomba prestes a explodir ao menor sinal, um escritor que parece ter na bela Laurel Gray a última hipótese de salvação. A relação de Dixon com Gray é complexa, marcada por inseguranças, incertezas e um amor que nasce dessas mesmas incertezas. O medo provocado por Dixon, a sua criatividade e feitio deveras complicados que desviam o personagem de Bogart do mais comum dos humanos, conseguem simultaneamente atrair e afastar Laurel, uma mulher bela e misteriosa que flutua entre a paixão incondicional e o temor em relação a Steele. Embora Lauren Bacall (na época mulher de Bogart) e Ginger Rogers tenham na época sido cogitadas para o papel, hoje parece praticamente impossível imaginar outra pessoa no papel de Laurel Gray do que Gloria Grahame. Esta incute na sua personagem uma enorme força e fragilidade que transformam-na no par ideal para o personagem de Bogart, com a dupla de actores a surpreender pela dinâmica que apresentam no grande ecrã, formando um casal complicado que parece desde o início condenado a falhar. Nicholas Ray soube tirar o melhor destes dois actores, beneficiando não só do talento destes, mas também da sua habilidade para tirar o melhor que o elenco tem para dar.
  A felicidade das escolhas de “In a Lonely Place” não se fica apenas pelo cargo de realizador e dos actores, mas também da própria escolha do director de fotografia, Burnett Guffey, que utiliza de forma exímia o jogo de luzes e sombras, algo paradigmaticamente demonstrado nas cenas em que o personagem de Bogart apresenta claros sinais de fúria e a luz foca-se intensamente nos seus olhos, realçando todos os sentimentos dicotómicos apresentados pelo protagonista, enquanto Bogie dá uma das melhores interpretações da sua carreira e o argumento escrito por Andrew Solt surpreende pela sua complexidade, povoando a narrativa com frases tão memoráveis como: “I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me”, entre muitas outras frases que ecoam pelo tempo e a memória.
  Com um conjunto de diálogos geniais, crus, recheados de sentimentos, acompanhados pelas imagens em movimento, todo a estrutura do filme conduz-nos ao facto de que o personagem de Humphrey Bogart está destinado a terminar só, não tem a capacidade para lidar com os outros, tendo como única ligação de afectuosidade duradoira a amizade com Mel Lippman, o seu fiel amigo e agente, que procura acima de tudo estar ao lado do amigo. Não deixa de ser curioso que o assassinato do início do filme esteja quase sempre na memória dos personagens, embora não seja o mote principal do filme, esse é mesmo a destruição de um escritor egocêntrico que tem na sua casa o paradigma da sua personalidade, uma habitação muitas das vezes a fazer recordar uma prisão, onde os seus cortinados indicam as grades onde este contém fechados os seus demónios interiores prestes a explodir.
  Nome respeitado pelo seu trabalho, Nicholas Ray tem em “In a Lonely Place” uma obra cinematográfica ímpar, onde os seus raros defeitos são facilmente abafados pelas suas enormes qualidades, uma obra inesquecível para ver e rever vezes sem conta, onde todos os elementos se conjugam para proporcionar ao espectador momentos verdadeiramente memoráveis. Um filme inesquecível, uma obra memorável, um filme noir intenso, onde os sentimentos estão à flor da pele como dinamite prestes a explodir. A certa altura do filme, Dixon Steele comenta que “There's no sacrifice too great for a chance at immortality”. “In a Lonely Place” é uma das obras que conseguiu essa chance de conquistar a imortalidade e ter um lugar de relevo na história do cinema.

Classificação: 5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “In a Lonely Place”.
Título em Portugal: “Matar ou Não Matar”.
Título no Brasil: “No Silêncio da Noite”. Realizador: Nicholas Ray.
Guião: Edmund H. North e Andrew Solt.
Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Art Smith, Martha Stewart.

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