Mel Lippmann (Art Smith): What
does it matter what I think? I'm the guy who tried to talk Selznick
out of doing "Gone with the Wind"!
Mel
Lippman pode ter sido o indivíduo que tentou convencer David O.
Selznick a não produzir “Gone With the Wind”, mas felizmente que
não houve ninguém a
tentar impedir Nicholas Ray de realizar “In a Lonely Place”, um
filme noir que passou o teste do tempo e continua a ser uma obra
cinematográfica marcante e inesquecível.
Cineasta de reconhecido valor, Ray tem em “In a Lonely Place” a
sua segunda colaboração com Humphrey Bogart, após terem trabalhado
juntos em “Knock on Any Door”. Bogart interpreta Dixon Steele, um
argumentista soturno, violento, arrogante, um indivíduo que
aparentemente tinha tudo para ser detestável mas partilha
com o seu protagonista um carisma capaz de transforma-lo num
personagem arrebatador, que é capaz de colocar o espectador do seu
lado. Logo na primeira
cena do filme encontramos Dixon a envolver-se numa acirrada discussão
junto aos sinais de trânsito e a prometer alguma violência junto do
seu interlocutor. Posteriormente, este logo se envolve numa acalorada
discussão com um realizador sobre este último vender a sua arte ao
reciclar os mesmos trabalhos para os seus projectos terem sucesso na
bilheteira. No bar,
acaba por conhecer Mildred Atkinson (Martha Stewart), uma jovem
rapariga a quem pede que leia um livro que um produtor
lhe pedira para adaptar,
numa tentativa do argumentista voltar a ter um êxito, algo que já
não acontece desde o período anterior à II Guerra Mundial.
No entanto, a bela rapariga aparece assassinada e o principal
acusado é Dixon, a última pessoa a ser vista com a jovem que levou
para sua casa. Felizmente para o escritor, a sua vizinha, Laurel Gray
(Gloria Grahame), viu na sua janela que este estava em casa e
testemunha a seu valor, algo que vale temporariamente a sua
libertação e o início de uma estranha relação com esta bela
mulher. Violento, misterioso, contido na demonstração dos afectos,
aos poucos Dixon começa a mostrar a sua inabilidade com os outros
seres humanos, destruindo as relações de afectos que vai criando e
embrenhando-se “in a lonely place”.
A
discussão que Dixon Steele tem com um realizador no início do
filme, salientando que este é um “vendedor de pipocas”,
evidencia bem a dicotomia da obra de Nicholas Ray com os filmes de
muitos outros autores e a sua vontade em honrar a arte do cinema e o
espectador, ao apresentar obras cinematográficas únicas e
inesquecíveis. Claro que nem todas as obras de Ray são
inesquecíveis, mas este teve o mérito de cunhar um estilo próprio,
de conferir um estilo autoral e único que é transversal a muitas
das suas obras, onde não faltam personagens complexos, profundamente
humanos, uma capacidade para tirar o melhor dos elementos do elenco
(veja-se os casos de Bogart, James Dean em “Rebel Without a Cause”,
Joan Crawford em “Johnny Guitar”, entre muitos outros), a atenção
ao detalhe, a cuidada mise-en-scène, entre muitas
outras qualidades que
transformaram as várias obras de Ray numa poesia visual que continua
a ecoar ao longo do tempo.
Em “In a Lonely Place”, Nicholas Ray transporta-nos para um
intenso filme noir, onde um violento escritor é acusado de
assassinato e aos pouco o espectador não sabe bem em quem confiar.
Este escritor é interpretado de forma intensa por Humphrey Bogart,
um actor marcante que tem em Dixon uma das melhores interpretações
da sua carreira, um personagem complexo, violento e ao mesmo tempo
frágil, inflexível na defesa da arte da sua profissão, um
indivíduo que se perde no alcoolismo e na violência e deixa-se
afundar na solidão, nas sombras, num local obscuro
de onde poucos o
conseguem tirar.
Este é um dos típicos personagens de Ray. Complexo, profundamente
humano, algo problemático, capaz de fazer com que o espectador torça
por si, embora saiba que muito provavelmente está condenado à
perdição. Acusado de assassinato, este hediondo acto cujo autor
apenas é revelado bem perto do final da obra, serve de mote para
Nicholas Ray traçar uma crítica a Hollywood, à forma como a sétima
arte está sujeita a ter que obedecer a um modelo para atrair público
ao invés de procurar desafios. Curiosamente, Ray desafia esse
sistema, embora esteja integrado no mesmo (veja-se que tal como o
protagonista, também Ray está a trabalhar na adaptação de um
livro em “In a Lonely Place”), embora traga uma vertente
artística inolvidável às suas obras.
“In a Lonely Place” integra-se nas obras-primas de Nicholas Ray.
Uma obra profundamente dramática, crua, onde o protagonista é um
indivíduo violento, uma bomba prestes a explodir ao menor sinal, um
escritor que parece ter na bela Laurel Gray a última hipótese de
salvação. A relação de Dixon com Gray é complexa, marcada por
inseguranças, incertezas
e um amor que nasce dessas mesmas incertezas.
O medo provocado por Dixon, a sua criatividade e feitio deveras
complicados que desviam o personagem de Bogart do mais comum dos
humanos, conseguem simultaneamente atrair e afastar Laurel, uma
mulher bela e misteriosa que flutua entre a paixão incondicional e o
temor em relação a Steele. Embora Lauren Bacall (na época mulher
de Bogart) e Ginger Rogers tenham na época sido cogitadas para o
papel, hoje parece praticamente impossível imaginar outra pessoa no
papel de Laurel Gray do que Gloria Grahame. Esta incute na sua
personagem uma enorme força e fragilidade que transformam-na no par
ideal para o personagem de Bogart, com a dupla de actores a
surpreender pela dinâmica que apresentam no grande ecrã, formando
um casal complicado que parece desde o início condenado a falhar.
Nicholas Ray soube tirar o melhor destes dois actores, beneficiando
não só do talento destes, mas também da sua habilidade para tirar
o melhor que o elenco tem para dar.
A felicidade das escolhas de “In a Lonely Place” não se fica
apenas pelo cargo de realizador e dos actores, mas também da própria
escolha do director de fotografia, Burnett Guffey, que utiliza de
forma exímia o jogo de luzes e sombras, algo paradigmaticamente
demonstrado nas cenas em que o personagem de Bogart apresenta claros
sinais de fúria e a luz foca-se intensamente nos seus olhos,
realçando todos os sentimentos dicotómicos apresentados pelo
protagonista, enquanto Bogie dá uma das melhores interpretações da
sua carreira e o argumento escrito por Andrew Solt surpreende pela
sua complexidade, povoando a narrativa com frases tão memoráveis
como: “I was born when she kissed me. I
died when she left me. I lived a few weeks while she loved me”,
entre muitas outras frases que ecoam pelo tempo e a memória.
Com um conjunto de
diálogos geniais, crus, recheados de sentimentos, acompanhados pelas
imagens em movimento, todo a estrutura do filme conduz-nos ao facto
de que o personagem de Humphrey Bogart está destinado a terminar só,
não tem a capacidade para lidar com os outros, tendo como única
ligação de afectuosidade duradoira a amizade com Mel Lippman, o seu
fiel amigo e agente, que procura acima de tudo estar ao lado do
amigo. Não deixa de ser curioso que o assassinato do início do
filme esteja quase sempre na memória dos personagens, embora não
seja o mote principal do filme, esse é mesmo a destruição de um
escritor egocêntrico que tem na sua casa o paradigma da sua
personalidade, uma habitação muitas das vezes a fazer recordar uma
prisão, onde os seus cortinados indicam as grades onde este contém
fechados os seus demónios interiores prestes a explodir.
Nome respeitado pelo seu trabalho, Nicholas Ray tem em “In a Lonely
Place” uma obra cinematográfica ímpar, onde os seus raros
defeitos são facilmente abafados pelas suas enormes qualidades, uma
obra inesquecível para ver e rever vezes sem conta, onde todos os
elementos se conjugam para proporcionar ao espectador momentos
verdadeiramente memoráveis. Um filme inesquecível, uma obra
memorável, um filme noir intenso, onde os sentimentos estão à flor
da pele como dinamite prestes a explodir. A certa altura do filme,
Dixon Steele comenta que “There's no sacrifice too great for a
chance at immortality”. “In a Lonely Place” é uma das obras
que conseguiu essa chance de conquistar a imortalidade e ter um lugar
de relevo na história do cinema.
Classificação: 5 (em 5)
Ficha
técnica:
Título Original: “In a Lonely Place”.
Título em Portugal: “Matar ou Não Matar”.
Título Original: “In a Lonely Place”.
Título em Portugal: “Matar ou Não Matar”.
Título
no Brasil: “No Silêncio da Noite”. Realizador:
Nicholas Ray.
Guião: Edmund H. North e Andrew Solt.
Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Art Smith, Martha Stewart.
Guião: Edmund H. North e Andrew Solt.
Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Art Smith, Martha Stewart.

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