05 outubro 2012

Resenha Crítica: "Couleur de peau: Miel" (Cor da Pele: Mel)

Terno. Este é muito provavelmente o melhor adjectivo para descrever “Couleur de peau: Miel”, um filme de animação, semi-documental que dramatiza parte da vida de Jung Henin, um coreano de nascença, que é adoptado por uma família belga em 1971. Nascido em Seul, na Coreia do Sul em 1965, Jung é uma das muitas crianças coreanas que foram adoptadas após o final da Guerra da Coreia e encontraram uma nova família em terras estrangeiras. Descritos como tendo a cor de pele “miel”, a adopção destas crianças era vista na época como uma “moda”, um tendência que várias famílias queriam seguir, um pouco como hoje em dia se assiste entre as várias celebridades que “adquirem” os seus filhos adoptivos em localidades exóticos em nome da “solidariedade” e do status social.
 Entre imagens de arquivo mescladas com animação, o espectador é transportado para a jornada de Jung, um coreano que se considera considera um turista em todos os locais para onde vai. Na Bélgica, este sente-se sempre como alguém de fora, seja um sul-coreano, seja um japonês, seja um amarelo, acima de tudo este sente a incerteza de não ter nascido no país que o acolheu, ou melhor, numa família que o recebeu, mas não naquela que o viu nascer.
 Em idade adulta, este regressa pela primeira vez à Coreia e sente-se igualmente um estranho. Os desenhos que na infância elabora sobre uma realidade imaginada transportam-no para uma realidade confortante, mas inexistente, enquanto aos poucos procura integrar-se junto dos quatro irmãos adoptivos, mais a jovem Valérie, que é adoptada depois deste.
 Com um cariz semi-biográfico e semi-documental, “Couleur de peau: Miel” revela-se um belo pedaço de poesia animada, onde os desenhos transportam-nos para a jornada de crescimento de Jung Henin, enquanto este procura descobrir a sua identidade, a sua nacionalidade, a sua personalidade e até a sua própria família, num filme terno, belo e apelativo, incapaz de deixar alguém indiferente. Realizado por Laurent Boileau e Jung, “Couleur de Peau: Miel” foi inspirado na vida de Jung e nos livros de banda desenhada homónimos sobre a mesma temática que este elaborou, uma história sobre a identidade de um indivíduo que desde muito cedo aprendeu a absorver uma cultura que não é a sua, ao mesmo tempo que a sua família adoptiva procura ao máximo integra-lo junto de si, embora essa situação nem sempre seja fácil e traga muitos dissabores, problemas e dificuldades pelo caminho.
“Couleur de peau: Miel” não é um filme de grandes emoções ou sensações, mas sim uma obra que desperta a reflexão sobre temas como a adopção, sexualidade, crescimento, nacionalidade, o amor de uma família, identidade de uma criança adoptada. Acima de tudo, “Couleur de Peau: Miel” é um filme sobre a jornada de crescimento de um jovem rapaz numa terra distante da sua, que é arrancado da sua nação e da sua família e inserido a um mundo estranho, uma inserção complicada, que não é feita de um dia para o outro”.
 Entre racismo, dificuldades de integração numa nova sociedade, numa nova família, os problemas com a sua mãe e a relação de amor/ódio que inicialmente pareciam manter, a descoberta da sua sexualidade, o fantasma da sua mãe biológica, acima de tudo o seu crescimento como homem, tudo é apresentado de forma incrivelmente bela, num híbrido entre imagens de animação e imagens de arquivo de Jung, num híbrido a fazer lembrar a própria mistura cultural que é visível em Jung.
 Com uma belíssima animação, muitas das vezes a evocar um espaço onírico (sobretudo nas cenas do passado), mesclando desenhos em 2D com 3D, “Coleur de Peau: Miel” é um belo pedaço de poesia animada, um filme de animação terno e ao mesmo tempo duro, que apresenta ao espectador a história de uma criança adoptada e o seu processo de crescimento numa nova cultura. Mais na senda de filmes de animação que procuram embrenhar-se em temáticas adultas, que procuram gerar reflexão junto do público, chegar a uma tarja etária adulta, ao mesmo tempo que não perde a candura do filme de animação efectuada para as crianças, “Coleur de Peau: Miel” procura fazer o espectador pensar, reflectir, e desfrutar de uma história simples e poética. A certa altura do filme Jung não só descobre que faz parte da família adoptiva, mas também que entrou no seu coração. Com “Couleur de peau: Miel”, Jung entrou também no coração dos espectadores.

Classificação: 4 (em 5)

Título original: “Couleur de peau: Miel”
Título no Brasil: "Cor da Pele: Mel"
Realizador: Laurent Boileau e Jung.
Argumento: Jung Boileau.
Elenco: Jung, Maxym Anciaux, Cathy Boquet, Mahé Collet, Christelle Cornil, William Coryn, Jean-Luc Couchard, Aaricia Dubois.

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