30 outubro 2012

Resenha Crítica: "Chinatown"

Jake Gittes: Mulvihill! What are you doing here?
Mulvihill: They shut my water off. What's it to you?
Jake Gittes:
How'd you find out about it? You don't drink it; you don't take a bath in it... They wrote you a letter. But then you have to be able to read.

 Corrosivo e sempre pronto a resolver o caso mais intrincado, Jake Gittes é o protagonista de “Chinatown”, um filme neo-noir realizado por Roman Polanski e protagonizado por Jack Nicholson. Jake Gittes é tudo menos o que se pode chamar uma pessoa de boa índole, este é um detective disposto a tudo para ganhar dinheiro, não tem problemas em apresentar piadas de gosto duvidoso, é machista, tem um sarcasmo afiado, mulherengo, e como se pode verificar na citação acima colocada, tem uma grande facilidade em envolver-se em problemas.
 E os problemas vão mesmo ter com Jake Gittes, sobretudo quando Evelyn Mulwray irrompe pelo seu escritório e contrata-o para seguir o marido, Hollis Mulwray, o engenheiro chefe do Departamento de Água e Energia de Los Angeles. Hollis tem os holofotes da imprensa expostos sobre si, não só devido a ter um cargo de elevada importância, mas também por ser um dos opositores à construção de uma nova barragem, durante o período das chamadas Guerras da Água na Califórnia. O problema é quando Gittes percebe que a Srª Mulroney que se desloca ao seu escritório é uma impostora, e não a verdadeira Evelyn (Faye Dunaway), que acaba por contratá-lo para saber o que realmente se passa.
 No entanto, tudo muda quando Hollis Mulwray aparece assassinado no meio do nada, e Jake vê-se envolvido numa teia de crimes, corrupção, escândalos e mentiras difíceis de descortinar, enquanto o seu envolvimento no caso leva-o a ser atacado por um grupo de gangsters, até chegar a Noah Cross (John Huston), um dos homens mais poderosos da cidade, que esconde terríveis segredos.
 Em segundo lugar na lista de Melhores Filmes de Mistério de todos os tempos do American Film Institute, “Chinatown” é uma das obras mais marcantes de Roman Polanski, um filme neo-noir notável, onde ninguém é completamente inocente, todos parecem culpados e a corrupção domina as ruas de Los Angeles no final da década de 30. A começar pelo protagonista, Jake Gittes, interpretado de forma portentosa por Jack Nicholson, na época em plena ascensão na carreira (estávamos em 1974 quando o filme estreou originalmente), como um detective duro, sarcástico, mordaz, machista, que reúne vários defeitos do ser humano, mas tem uma capacidade inacreditável para desvendar os mais intrincados casos, algo que vai colocá-lo perante os mais perigosos problemas. Mais duro e cínico que os detectives dos filmes noir da década de 40, Gittes é um personagem marcante, que conta não só com uma interpretação notável de Nicholson, mas também com um argumento bem escrito e uma realização notável por parte de Polanski, que nos transportam para uma Los Angeles inspirada no período das célebres Guerras de Água da Califórnia, para uma teia assustadora de intrigas, mortes, dissimulação, onde a corrupção parece fazer parte do quotidiano e ninguém a parece querer travar.
 Esta concepção da cidade como um local ligado à corrupção, crime, intriga, foi uma temática comum a vários filmes noir, que têm em “Chinatown” um novo capítulo, um neo-noir intenso, com uma atmosfera ameaçadora, inspirado nas Guerras de Água da Califórnia, uma série de conflitos entre a cidade de Los Angeles e os agricultores e pecuaristas do Owens Valley no Leste do estado americano da Califórnia, proporcionado devido a Los Angeles ter crescido muito no final do século XIX, e o abastecimento de água ter-se tornado insuficiente. Essa situação levou a que Fred Eaton, o prefeito da cidade, tenha encarregue William Mulholland de construir um aqueduto que transportasse água de Owens Valley para Los Angeles, algo que vai resultar numa imensa teia de corrupção e desvios do recurso natural. Polanski representa assim uma cidade em pé de guerra, em disputa por um dos bens essenciais da humanidade, enquanto alguns indivíduos procuravam lucrar com toda esta situação, gerando uma intensa teia de corrupção, intrigas e escândalos, nos quais Gitts se vai envolver não apenas devido a uma mulher que se faz passar por Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), mas também graças a esta última
 Dunaway tem em Evelyn Mulrawy a típica femme fatale, uma mulher bela e sensual que esconde muito mais do que aquilo que evidencia, que promete desconcentrar o protagonista, mas nem por isso o trava na busca pelo seu objectivo, enquanto o argumento de Robert Towne tece um intrincado enredo em volta destes personagens, que acaba por desembocar no perturbador antagonista interpretado por John Huston, um indivíduo frio, cruel, que dificilmente sai da memória do espectador e mostra o talento deste lendário realizador, mesmo quando está em frente às câmaras. Se a química entre Nicholson e Dunaway é bem conseguida, a entrada em cena de Houston muda o tabuleiro do jogo, com o realizador de “The Maltese Falcon” a incutir um tom sombrio e perturbador ao seu personagem e à narrativa.
 Estes personagens acabam por envolver-se num conjunto de teias e intrigas tecidas pelo argumento de Robert Towne, que exacerba o lado negro da natureza humana, apresentando um grupo de personagens cínicos, com uma agenda muito própria, numa cidade de Los Angeles que parece contaminada pelo crime, corrupção e escândalos, que são traduzidos de forma segura pela câmara de filmar de Roman Polanski. O cineasta polaco tem em “Chinatown” um filme que poderia muito bem ter sido filmado durante a década de 40, seguindo um estilo muito próximo dos filmes noir, com os diálogos a parecerem saídos dos livros de Dashiel Hammet e Raymond Chandler, os cenários a respeitarem o visual da época, o guarda-roupa, as mensagens subliminares que as palavras deixam entender e as imagens em movimento não mostram, a mordacidade e ironia do protagonista, embora com alguma maior violência do que na maioria deste tipo de filmes. Polanski tem aqui um trabalho de fino recorte, uma obra que raramente apresenta grandes mudanças de ritmo, mas consegue manter sempre a história fluída, que culmina num trágico final. Tudo isto é acompanhado pela sublime banda sonora de Jerry Goldsmith, contribuindo não só para o tom negro do filme, criando uma atmosfera algo mística, por vezes etérea, mas também para dar um certo sabor da época ao mesmo, num trabalho muito bem conseguido por parte do compositor.
 Importa ainda salientar o meritório trabalho do director de fotografia John A. Alonzo, ao conseguir quebrar uma das convenções do filme noir, ou seja, ser filmado a preto e branco, substituindo a utilização do chiaroscuro com um tom de luz difuso, uma paleta monocromática de cores, que atribui ao filme uma grande sobriedade, resultando de forma positiva.
 Ao longo da década de 40 e em parte da década de 50, vários foram os filmes noir que cativaram o público. Em 1974, Roman Polanski proporcionou ao espectador um filme noir inesquecível, que conquistou grande parte do público e da crítica, tendo sido nomeado para onze Oscars (venceu apenas o de Melhor Argumento), nomeado para sete Globos de Ouro (quatro arrecadados), entre outras distinções que traduzem bem a aceitação gerada por este filme. Ao terminarmos de ver “Chinatown” é perceptível o porquê de toda esta aderência ao filme. Alicerçado numa hipnotizadora interpretação de Jack Nicholson, Roman Polanski apresenta-nos um filme noir que nada fica a dever aos clássicos dos anos 40, uma obra cinematográfica onde ninguém parece realmente inocente e todos parecem culpados, onde a atmosfera negra do filme conquista o espectador e embala-o para uma obra cinematográfica que ecoa pelo tempo e pela memória.

Classificação: 5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Chinatown”
Realizador: Roman Polanski.
Guião: Robert Towne.
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, John Hillerman, Diane Ladd, Roman Polanski.

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