25 outubro 2012

Resenha Crítica: "César Deve Morrer"

  Inspirada na célebre conspiração contra Júlio César, a obra "Julius Caesar", de William Shakespeare, teve direito a várias adaptações no teatro, grande ecrã e séries televisivas, mas poucas foram capazes de causar o mesmo impacto e apresentar o mesmo de vigor de "César Deve Morrer", o novo filme escrito e realizado pelos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. Longe do aparato de grandes cenários, este documentário apresenta a peça de Shakespeare representada por um grupo de presos da prisão de Rebibbia, um grupo de indivíduos à margem da sociedade, oriundos de diferentes países e de variadas localidades de Itália, que se encontram presos devido a crimes tão distintos como homicídio, tráfico de droga, crime organizado, um grupo cujas idiossincrasias são utilizadas para a organização de uma peça de teatro, onde o opulento cenário de Roma é substituído pelas húmidas e degradadas paredes da prisão.
 Estes homens, muitos deles criminosos da pior espécie, que se encontram a cumprir pena pelos seus crimes, são apresentados como seres humanos comuns que apenas pretendem dar o seu melhor nos papéis que lhes foram atribuídos, homens que mostram um vigor e empenho em atribuir uma dimensão dramática e emotiva à peça, que assumem os seus papéis no quotidiano, nas suas celas, no pátio, nas suas almas, proporcionando momentos de grande emotividade. Ao mesmo tempo que procuram não julgar estes homens pelos seus crimes (isso já foi feito pela justiça), a dupla de cineastas procura mostrar o lado mais humano destes homens, ao mesmo tempo que demonstra o momento libertador que este episódio significa para estes, uma liberdade que é adensada pelo magnífico trabalho de fotografia que povoa a narrativa maioritariamente a preto e branco com um conjunto de cores saturadas durante a peça e numa cena onde um preso olha para "a liberdade", com a cor a surgir como a representação da libertação destes homens que encontram no palco um local de evasão para o cenário a preto e branco onde habitam.
 "César Deve Morrer" não é o típico documentário que procura apresentar acontecimentos, factos, ou seja aproximar-se da realidade, tendo sempre em vista uma situação de representação de uma peça, onde existe um argumento e um conjunto de regras a seguir, mesclados com uma banda sonora evocativa (aqueles momentos sibilinos por momentos pareciam invocar "Inferno" de Dario Argento), uma fotografia exacerbadora da realidade e um trabalho de montagem a todos os níveis notáveis de Roberto Perpignani, que imbuem a peça de teatro representada pelos presos quase como um filme dentro do filme.
Não deixa de ser curioso todo o carisma e empenho colocado por estes presos nos seus papéis, um empenho que se traduz numa peça vigorosa e entusiasmante, onde o visual pouco associado ao estereótipo romano dos seus actores é substituído pelo inolvidável carisma, sobressaindo Salvatore Striano como um maquiavélico Brutus e Giovanni Arcuri como César, enquanto a dupla de realizadores cria um universo à parte nesta prisão, um universo onde os presos são tratados como seres humanos que são, onde a sua humanidade não é questionada mas exacerbada.
  Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2012, onde conquistou parte da crítica, "César Deve Morrer" promete também prender a atenção do espectador para o interior desta peça de teatro ensaiada por um grupo de presos, uma peça onde estes indivíduos encontram a liberdade artística, onde encontram alguma cor numa vida que parece estar destinada a ser a preto e branco.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: "Cesare deve morire"
Título em Portugal: “César deve morrer"
Realizador: Paolo Taviani e Vittorio Taviani.Elenco: Salvatore Striano, Cosimo Rega, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonnetti, Vincenzo Gallo, Rosario Majorana.

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