Festival de cinema de
largo prestígio, o Doclisboa decidiu homenagear o saudoso cineasta
Fernando Lopes, na edição de 2012 do certame. Esta merecida
homenagem a um dos mais importantes cineastas da história do cinema
português decorreu no dia efectuada com a exibição de três obras
pouco mediáticas do cineastas, mas reveladoras da sua importância
no documentarismo nacional.
Apresentada por Susana
de Sousa Dias e Augusto Seabra, a homenagem contou com a exibição
das curtas-metragens As Pedras e o Tempo (1961),
Cinema (2011) e Olhar/Ver - Gérard Fotógrafo
(1998).
Encomenda
oficial do Secretariado Nacional de Informação, 'As Pedras e o
Tempo' é a primeira obra-cinematográfica realizada por Fernando
Lopes, após ter regressado da London Film School. Tendo como ponto
de partida a divulgação da cidade de Évora, 'As Pedras e o Tempo'
procura mesclar o passado e o presente do território, ao exibir os
vários locais históricos do local, as suas ruas estreitas,
acompanhados por elementos quotidianos contemporâneos, onde não
falta a população a trabalhar, durante o lazer, numa representação
da cidade e do povo paradigmático de uma obra cinematográfica
desenvolvida durante o Estado Novo. Não falta a representação da
cidade como um território “desurbanizado”, impregnado de
elementos do campo, a representação dos brandos costumes
portugueses, mas também toda uma exacerbação da história e
cultura do território, ao mesmo tempo que apresenta de forma
gratuita os postes de electricidade que reflectem a intensificação
do processo de electrificação estado-novino. Não deixa de
ser curioso que Fernando Lopes procure contrastar todo este
conservadorismo que a temática do documentário deixar antever, com
uma estética algo arrojada para o contexto, procurando incutir um
valor artístico e questionador sublime, mas sempre eivado de
elementos Estado-Novinos.
'As
Pedras e o Tempo' é um importante documento histórico, que expõe
de forma belíssima a história, população, arquitectura da cidade
de Évora, ao mesmo tempo que demonstra o engenho de Fernando Lopes
ao conseguir atribuir algum valor de entretenimento a um documentário
elaborado tendo em vista a propaganda do Regime.
Seguidamente, os
espectadores que estiveram na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São
Jorge, tiveram a oportunidade de visionar 'Cinema', uma encomenda do
Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, que se revela uma agradável
homenagem a uma sala de cinema, que exibe essa bela arte que dá nome
ao título da curta-metragem. Longe de destacar as grandes salas de
cinema dos centros comerciais, 'Cinema' procura apresentar ao
espectador uma sala do Teatro Sá da Bandeira, no Porto, uma sala
cheia de tradições cinéfilas, um local quase sagrado, sacralizado,
um templo, ao mesmo que destaca os “fiéis” que se deslocavam
regularmente para assistir aos filmes, um local que chegou a exibir
filmes pornográficos. Enquanto apresenta toda a arquitectura deste
local de culto, 'Cinema' conta ainda com comentários relevantes de
Jorge José da Silva, o projeccionista, ou melhor o guardião do
templo, ao mesmo tempo que somos apresentados a um tempo onde ir ao
cinema era quase um ritual, onde os cinéfilos e funcionários do
cinema conheciam-se, onde a sala de grandes dimensões proporciona
momentos únicos a quem compra o bilhete de cinema.Entre a homenagem à sala de cinema e a homenagem aos filmes, Fernando Lopes tem em 'Cinema' um documentário em curta-metragem de valor considerável, onde as imagens em movimento de 'Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança', de Aurélio Paz dos Reis remetem para uma nostalgia cinéfila de um tempo não vivido.
A
terceira obra em destaque é uma média-metragem interessantíssima
sobre Gérard Castello Lopes, nomeadamente, 'Olhar/Ver
- Gérard Fotógrafo', um documentário que procura reflectir sobre
as imagens, sobre a sua importância, o seu símbolismo, ao mesmo
tempo que apresenta belas fotografias e depoimentos delíciosos deste
nome de grande importância para a história da fotografia nacional.
Estes depoimentos, que exibem de forma paradigmática toda a paixão
e conhecimento de Gérard Castello Lopes em relação à fotografia,
exibem bem a importância da fotografia na sua vida e a forma como
todas as suas vivências e a situação política e social do país contribuíram para que este muda-se de temáticas fotografadas, ao
mesmo tempo que Fernando Lopes brinda-nos com algumas belíssimas
imagens, quais fotografias em movimento, acompanhadas por excertos de
'Belarmino'. Estes excertos de 'Belarmino' não só servem para
mostrar o Portugal eivado de aparências falsas retratado neste
importante filme, mas também para mostrar uma importante ligação
entre o cinema e a fotografia, entre a imagem em movimento e a imagem
estática, ou não fosse o fotógrafo que dá título ao
documentário, o herdeiro de uma empresa de distribuição
cinematográfica em Portugal.
Tendo
como algumas referências Joshua Benoliel, Alexandre O'Neill e Mário
Cesariny, não deixa de ser curioso que Gérard Castello Lopes se
tenha tornado ele próprio uma referência para todos aqueles que
amam fotografia, que amam a imagem, sendo um exemplo paradigmático
de alguém que vive intensamente a sua actividade profissional, uma
actividade onde era capaz de captar os mais belos momentos, tendo em
Fernando Lopes o cineasta ideal para realizar um documentário sobre
a sua pessoa. 'Olhar/Ver - Gérard Fotógrafo' não é apenas um
documentário sobre Gérard Castello Lopes, mas sim uma obra
relevante sobre a importância da imagem e as histórias que estas
guardam.
Ao
longo destas duas curtas e média-metragem, a homenagem a Fernando
Lopes desenvolvida no Doclisboa 2012 revela-se uma experiência
gratificante para todos aqueles que vivem e amam o cinema. Fernando
Lopes é um nome incontornável da história do cinema português,
tendo nos seus trabalhos pequenos pedaços da nossa história, da
nossa cultura, trabalhos que continuam a ser conhecidos, divulgados e
redescobertos. No caso dos três documentários em questão, é
visível a importância de Fernando Lopes para o
documentário e toda a qualidade artística e informativa das suas
obras, uma importância que o passar dos anos promete exacerbar,
tornar mais notória e proporcionar muitas mais e merecidas
homenagens. A homenagem foi a Fernando Lopes, mas os presenteados
foram os espectadores na sala, com três pedaços belíssimos e
importantes do nosso cinema.
Artigo em colaboração com a Take Cinema Magazine: https://www.facebook.com/take.com.pt
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