27 outubro 2012

Doclisboa 2012 - Homenagem a Fernando Lopes: "As Pedras e o Tempo"; "Cinema" e "Olhar/Ver - Gérard Fotógrafo"

 Festival de cinema de largo prestígio, o Doclisboa decidiu homenagear o saudoso cineasta Fernando Lopes, na edição de 2012 do certame. Esta merecida homenagem a um dos mais importantes cineastas da história do cinema português decorreu no dia efectuada com a exibição de três obras pouco mediáticas do cineastas, mas reveladoras da sua importância no documentarismo nacional.
Apresentada por Susana de Sousa Dias e Augusto Seabra, a homenagem contou com a exibição das curtas-metragens As Pedras e o Tempo (1961), Cinema (2011) e Olhar/Ver - Gérard Fotógrafo (1998).

Encomenda oficial do Secretariado Nacional de Informação, 'As Pedras e o Tempo' é a primeira obra-cinematográfica realizada por Fernando Lopes, após ter regressado da London Film School. Tendo como ponto de partida a divulgação da cidade de Évora, 'As Pedras e o Tempo' procura mesclar o passado e o presente do território, ao exibir os vários locais históricos do local, as suas ruas estreitas, acompanhados por elementos quotidianos contemporâneos, onde não falta a população a trabalhar, durante o lazer, numa representação da cidade e do povo paradigmático de uma obra cinematográfica desenvolvida durante o Estado Novo. Não falta a representação da cidade como um território “desurbanizado”, impregnado de elementos do campo, a representação dos brandos costumes portugueses, mas também toda uma exacerbação da história e cultura do território, ao mesmo tempo que apresenta de forma gratuita os postes de electricidade que reflectem a intensificação do processo de electrificação estado-novino. Não deixa de ser curioso que Fernando Lopes procure contrastar todo este conservadorismo que a temática do documentário deixar antever, com uma estética algo arrojada para o contexto, procurando incutir um valor artístico e questionador sublime, mas sempre eivado de elementos Estado-Novinos.
  'As Pedras e o Tempo' é um importante documento histórico, que expõe de forma belíssima a história, população, arquitectura da cidade de Évora, ao mesmo tempo que demonstra o engenho de Fernando Lopes ao conseguir atribuir algum valor de entretenimento a um documentário elaborado tendo em vista a propaganda do Regime.

  Seguidamente, os espectadores que estiveram na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, tiveram a oportunidade de visionar 'Cinema', uma encomenda do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, que se revela uma agradável homenagem a uma sala de cinema, que exibe essa bela arte que dá nome ao título da curta-metragem. Longe de destacar as grandes salas de cinema dos centros comerciais, 'Cinema' procura apresentar ao espectador uma sala do Teatro Sá da Bandeira, no Porto, uma sala cheia de tradições cinéfilas, um local quase sagrado, sacralizado, um templo, ao mesmo que destaca os “fiéis” que se deslocavam regularmente para assistir aos filmes, um local que chegou a exibir filmes pornográficos. Enquanto apresenta toda a arquitectura deste local de culto, 'Cinema' conta ainda com comentários relevantes de Jorge José da Silva, o projeccionista, ou melhor o guardião do templo, ao mesmo tempo que somos apresentados a um tempo onde ir ao cinema era quase um ritual, onde os cinéfilos e funcionários do cinema conheciam-se, onde a sala de grandes dimensões proporciona momentos únicos a quem compra o bilhete de cinema.
 Entre a homenagem à sala de cinema e a homenagem aos filmes, Fernando Lopes tem em 'Cinema' um documentário em curta-metragem de valor considerável, onde as imagens em movimento de 'Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança', de Aurélio Paz dos Reis remetem para uma nostalgia cinéfila de um tempo não vivido.

  A terceira obra em destaque é uma média-metragem interessantíssima sobre Gérard Castello Lopes, nomeadamente, 'Olhar/Ver - Gérard Fotógrafo', um documentário que procura reflectir sobre as imagens, sobre a sua importância, o seu símbolismo, ao mesmo tempo que apresenta belas fotografias e depoimentos delíciosos deste nome de grande importância para a história da fotografia nacional. Estes depoimentos, que exibem de forma paradigmática toda a paixão e conhecimento de Gérard Castello Lopes em relação à fotografia, exibem bem a importância da fotografia na sua vida e a forma como todas as suas vivências e a situação política e social do país contribuíram para que este muda-se de temáticas fotografadas, ao mesmo tempo que Fernando Lopes brinda-nos com algumas belíssimas imagens, quais fotografias em movimento, acompanhadas por excertos de 'Belarmino'. Estes excertos de 'Belarmino' não só servem para mostrar o Portugal eivado de aparências falsas retratado neste importante filme, mas também para mostrar uma importante ligação entre o cinema e a fotografia, entre a imagem em movimento e a imagem estática, ou não fosse o fotógrafo que dá título ao documentário, o herdeiro de uma empresa de distribuição cinematográfica em Portugal.
  Tendo como algumas referências Joshua Benoliel, Alexandre O'Neill e Mário Cesariny, não deixa de ser curioso que Gérard Castello Lopes se tenha tornado ele próprio uma referência para todos aqueles que amam fotografia, que amam a imagem, sendo um exemplo paradigmático de alguém que vive intensamente a sua actividade profissional, uma actividade onde era capaz de captar os mais belos momentos, tendo em Fernando Lopes o cineasta ideal para realizar um documentário sobre a sua pessoa. 'Olhar/Ver - Gérard Fotógrafo' não é apenas um documentário sobre Gérard Castello Lopes, mas sim uma obra relevante sobre a importância da imagem e as histórias que estas guardam.

 Ao longo destas duas curtas e média-metragem, a homenagem a Fernando Lopes desenvolvida no Doclisboa 2012 revela-se uma experiência gratificante para todos aqueles que vivem e amam o cinema. Fernando Lopes é um nome incontornável da história do cinema português, tendo nos seus trabalhos pequenos pedaços da nossa história, da nossa cultura, trabalhos que continuam a ser conhecidos, divulgados e redescobertos. No caso dos três documentários em questão, é visível a importância de Fernando Lopes para o documentário e toda a qualidade artística e informativa das suas obras, uma importância que o passar dos anos promete exacerbar, tornar mais notória e proporcionar muitas mais e merecidas homenagens. A homenagem foi a Fernando Lopes, mas os presenteados foram os espectadores na sala, com três pedaços belíssimos e importantes do nosso cinema. 

Artigo em colaboração com a Take Cinema Magazine: https://www.facebook.com/take.com.pt

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