27 setembro 2012

Resenha Crítica: "A Dupla Pele do Diabo"

Munem: Please be clear about this, Latif. Uday has chosen you. You belong to him. You have about five minutes to think about this. Before a car pulls up outside your house in Al-Adhamiya and your family, everyone one of them - your father, your mother, your sisters and brothers; is thrown into Abu Ghraib. God willing, they will die quickly. I've said too much. You have about two minutes left.

É da forma acima mencionada que Latif Yahia (Dominic Cooper), um soldado iraquiano, é persuadido a fazer de duplo de Uday Hussein (Dominic Cooper), um antigo colega no liceu e o filho mais velho do ditador Saddam Hussein em “A Dupla Pele do Diabo”, o novo filme do realizador neo-zelandês Lee Tamahori. Inspirado no célebre livro “The Devil's Double”, escrito por Karl Wendl e Latif Yahia, “A Dupla Pele do Diabo” convida o espectador a entrar na perigosa rotina de Latif Yahia, um indivíduo que foi forçado a ser duplo de Uday Hussein devido às grandes semelhanças entre ambos e pela necessidade deste último proteger-se de várias ameaças, entre as quais, tentativas de assassinato. Como podem notar na citação, Latif tem a escolha de poder ser o duplo do filho de Saddam, ou então será morto em conjunto com os seus familiares e amigos, enquanto Uday pouco ou nenhum remorso irá sentir desta situação.
  Preso na identidade do herdeiro de Saddam, Latif não pode contactar com a sua família e amigos, não pode revelar a sua verdadeira identidade, não pode ter casos com as várias mulheres escolhidas pelo filho de Saddam e (acima de tudo) não pode contrariar o homem com quem partilha a identidade. Conhecido pelas atrocidades que cometeu e pela vida luxuosa, rodeado de bons carros, palácios, mulheres, Uday é representado de forma brutal e negra no novo filme de Lee Tamahori. Não faltam assassinatos, a sua obsessão por mulheres (quer estas queiram quer não), ficando na memória a cena em que este assassina Kamel Hana Gegeo (Mehmet Ferda), o provador de comida (e um dos guarda costas) de Saddam Hussein com uma faca electrica. Inspirado em factos históricos e sem poupar na violência, Lee Tamahori convida o espectador a entrar neste violento espectáculo cinematográfico protagonizado pelo homem que vestiu “a dupla pele do Diabo”.
  Conhecido pela violência cometida e pela sua conduta reprovável, Uday Hussein é uma das figuras nebulosas da história recente do Iraque. Filho mais velho de Saddam Hussein, Uday aproveitou-se durante anos desse estatuto para perpretar vários crimes que acabavam por ser esquecidos devido ao perdão do pai. Essa sua conduta e o clima explosivo no interior do Iraque, levaram a que Uday tenha sentido a necessidade de contratar um duplo, nomeadamente, Latif Yahia para se fazer passar pelo filho do ditador nos eventos onde a vida deste último pode ser colocada em causa.
  Quem brilha a interpretar Latif e Uday é Dominic Cooper, um actor que tem um desempenho notável em “A Dupla Pele do Diabo”, um filme que aborda uma temática algo polémica, nomeadamente, as atrocidades de Uday Hussein e vários episódios relacionados com o seu comportamento violento, despesista, nihilista, cujas barreiras morais parecem não existir. Estas atrocidades são abordadas tendo como ponto de partida Latif Yahia, um indivíduo que é forçado a fazer de duplo do filho mais velho do ditador Saddam Hussein. Enquanto Dominic Cooper deslumbra no duplo papel, ao conseguir dar a entender ao espectador as diferenças dos personagens apesar das suas semelhanças físicas, já Lee Tamahori falha em conseguir focar a narrativa no personagem do título, apresentando acima de tudo uma obra sobre Uday, um indivíduo com um comportamento nihilista, deixando muitas vezes de lado o ponto de vista de Latif, focando-se em demasia no filho mais velho de Saddam Hussein e na forma obsessiva como este lida com o seu duplo e com todos os que o rodeiam.
Este foco em Uday, permite a Tamahori exacerbar a violência e as atrocidades cometidas contra os direitos humanos por parte do herdeiro de Saddam Hussein e a forma como esta era consentida por parte do povo iraquiano, ao mesmo tempo que aborda a primeira Guerra do Golfo, um cenário instável para a governação de Saddam Hussein, que é exibido sobretudo através de um conjunto de vídeos pertencentes a noticiários da época que permitem conceder algum verismo à narrativa.
Lee Tamahori tem em “A Dupla Pele do Diabo” uma obra que é paradigmática da sua carreira: irregular. Com uma carreira onde constam obras como“Along Came a Spider” (2001) e “Die Another Day” (2002), mas também “xXx: State of the Union” e “Next”, Lee Tamahori tem em “A Dupla Pele do Diabo” uma obra que desperta desde logo o interesse pela sua temática, mas deixa de lado muitos aspectos políticos e sociais que poderiam e deveriam ter sido abordados ao longo de uma obra que preocupa-se mais em exacerbar as ignóbeis atrocidades de Uday Hussein do que em procurar explorar as convulsões internas do homem que fez de seu duplo, bem como de Sarrab, uma mulher que acaba por envolver-se com o duplo de Uday, entre outros assuntos que poderiam e deveriam ter sido abordados, mas nem por isso conseguem tirar totalmente o valor de uma obra polémica e revoltante, que coloca a nu algumas das atrocidades cometidas pela família Hussein. Claro que poderíamos aqui divagar que a visão apresentada pelo filme sobre todo este assunto é a abordagem do lado ocidental e que apresenta largas limitações, no entanto, parte dos episódios representados pecam por escassos, visto que a figura representada no filme, Uday Hussein foi um ser abominável que teve no seu estatuto o palco ideal para dar largas ao seu lado nihilista e tem em Dominic Cooper um intérprete à altura.
Dominic Cooper surpreende pelas diferentes dinâmicas que consegue incutir nos seus personagens. Feroz, violento, selvagem como Uday Hussen, Cooper consegue contrastar essa figura nebulosa de Uday com um desempenho mais contido, revoltado, inquietante como Latif, num duplo papel que é claramente o ponto mais alto de uma obra cinematográfica muito irregular. Com um bom trabalho a nível de fotografia, de guarda-roupa, decoração dos cenários e um soberbo desempenho de Dominic Cooper como Latif e Uday, “A Dupla Pele do Diabo” revela-se como uma boa e violenta dose de entretenimento sobre a vida de um homem que vestiu a “dupla pele do Diabo”. Um filme violento e revoltante que tem Dominic Cooper num dos melhores desempenhos da sua carreira.

Classificação: 3 (em 5)

Título original: “The Devil's Double”.
Título em Portugal: “A Dupla Pele do Diabo”.
Título no Brasil: “O Dublê do Diabo".
Realizador: Lee Tamahori.
Argumentista: Michael Thomas.
Elenco: Dominic Cooper, Philip Quast, Ludivine Sagnier, Raad Rawi, Mimoun Oaïssa, Khalid Laith, Mem Ferda.

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