27 setembro 2012

Resenha Crítica: "Dredd"

Violência estilizada, sangue, mortes e julgamentos sumários. A nova adaptação cinematográfica de Judge Dredd, o popular personagem de banda desenhada criado por John Wagner e Carlos Ezquerra, não poupa na violência e nas cenas de acção frenéticas, enquanto apresenta o espectador a Mega City One, uma cidade onde crime e a corrupção são a palavra de ordem. Realizado por Pete Travis, um cineasta conhecido por filmes como “Vantage Point” e “Endgame”, “Dredd” procura distanciar-se da adaptação realizada por Danny Cannon e proporcionar aos espectadores um espectáculo cinematográfico frenético e violento, que procura acima de tudo agradar aos fãs do personagem.
 Esta cidade futurista marcada pela violência tem nos Juízes como Dredd, figuras que possuem os poderes conjugados de juízes, júris, e carrascos, de forma a poderem controlar de imediato os focos de instabilidade. A nova missão de Dredd passa por travar Ma-Ma (Lena Headey), uma perigosa líder de um grupo criminoso que trafica uma droga altamente nociva chamada slo-mo. Para ajuda-lo nesta missão, Dredd conta com a companhia de Cassandra (Olivia Thirlby), uma aspirante a juíza, que reprovou nos testes para a função mas teve uma nova oportunidade devido à sua capacidade excepcional de ler mentes. Os dois envolvem-se numa perigosa missão de desmantelamento de uma célula perigosa, onde aos poucos terão não só de lidar com o gangue de Ma-Ma, mas também com um conjunto de juízes corruptos, numa cidade onde o crime parece ser contagiante.
 Sem personagens com uma grande profundidade, nem um argumento demasiado elaborado, Pete Travis surpreende pelo ritmo frenético e pela violência estilizada que incute em “Dredd”, ao conseguir transformar um edifício fechado no palco de uma batalha violenta e claustrofóbica. Quem já viu a obra cinematográfica “The Raid: Redemption” certamente irá encontrar alguns paralelos entre as cenas de acção do filme realizado por Gareth Evans com as cenas que se desenrolam no interior do edificio Peach Trees em “Dredd”, onde de andar para andar Dredd e Cassandra procuram desmantelar a célula criminosa liderada por Ma-Ma, lidando com diferentes perigos e ameaças.
 Se estas cenas de acção estilizadas, recheadas de grande violência (muitas das vezes excessiva e gratuita), incutem um ritmo frenético à narrativa, o mesmo não se pode dizer do desenvolvimento dos personagens e da história em si, que são efectivamente muito pouco explorados naquilo que pode ser considerado como um caso paradigmático onde o estilo sobrepõe-se ao conteúdo, proporcionando ao espectador um espectáculo violento e frenético, mas que falha em ter um argumento que sustente o interesse entre os raros momentos onde não existem cenas de acção.
 Essas cenas de acção beneficiam da habilidade do cineasta em conseguir utilizar os espaços fechados onde estas se desenrolam, criando um clima claustrofóbico que ganha uma maior dimensão com a banda sonora de Paul Leonard-Morgan e por toda a violência que rodeia este cenário composto por criminosos da pior espécie, onde protagonistas e antagonistas parecem partilhar a mesma sede de violência.
Quem surpreende durante todo este espectáculo violento é Karl Urban, que se revela um intérprete à altura do personagem, ao interpretar um anti-herói duro, violento e pronto a julgar sem apelo nem agravo os criminosos. Não espere do personagem de Karl Urban um herói complexo como Batman, Homem-Aranha, e afins, visto que Judge Dredd tem apenas um único objectivo no filme: garantir o cumprimento da lei. Urban complementa-se bastante bem com Olivia Thirlby, com a actriz a interpretar uma personagem com maior dimensão humana que o protagonista, uma mutante que pode ler mentes, algo que leva a jovem a não utilizar o capacete e assim permitir ao espectador ter um dos “heróis” a mostrar a sua face. Se Urban e Thirlby complementam-se bem, Lena Headey não prima pela expressividade embora imprima uma presença temível à sua personagem.
 Embora as cenas de acção estejam relativamente bem conseguidas e o elenco tenha um desempenho globalmente positivo, "Dredd" raramente procura desenvolver os personagens e algumas das temáticas que genericamente apresenta, entre as quais, o elevadíssimo número de desempregados, uma situação que propicia a violência e a criminalidade da cidade, que não é devidamente abordada ao longo do filme e surge como uma mera referência. Essa situação é paradigmático do pouco que é explorado desta sociedade distópica, onde os personagens pouco ou nada são explorados, tendo em vista a narrativa concentrar todas as atenções naquilo que "interessa": a violência em doses descomunais. Se as temáticas relacionadas com a sociedade de Mega City One pouco ou nada são desenvolvidas, o mesmo não se pode dizer da forma como a cidade é exibida ao espectador, com Pete Travis a procurar mostrar toda a dimensão do cenário e mostrar o devastador e devastado cenário onde se desenrola parte da narrativa.
 Fora do ambiente dos grandes estúdios, Pete Travis tem o mérito de conseguir dar nova vida a Judge Dredd no grande ecrã, após o desastre que foi a adaptação realizada por Danny Cannon e protagonizada por Sylvester Stallone que recolheu o desprezo do público e da crítica. Sem Stallone como protagonista mas com Karl Urban em grande forma, “Dredd” procura acima de tudo dar tudo aquilo que os fãs pretendem nesta nova adaptação cinematográfica do popular personagem. Violento, frenético, sangrento, “Dredd” é acima de tudo um filme feito para os fãs de Judge Dredd.

Classificação: 2.5 (em 5)

Título original: “Dredd 3D”
Título em Portugal: “Dredd”.
Título no Brasil: “Dredd".
Realizador: Pete Travis.
Argumentista: Alex Garland.
Elenco: Karl Urban, Olivia Thirlby, Lena Headey, Domhnall Gleeson, Langley Kirkwood, Jason Cope.

Crítica em colaboração com a Take Cinema Magazine (altamente recomendado seguir esta magnífica página): https://www.facebook.com/take.com.pt

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