27 setembro 2012

Resenha Crítica: "Até Que o Fim do Mundo nos Separe"

O fim do Mundo continua a ser uma temática muito querida na indústria cinematográfica. Depois de recentemente termos visto nas salas de cinema filmes como “Melancolia” de Lars Von Trier, “4:44 Last” de Abel Ferrara, é a vez de chegar às salas de cinema o terno e arrebatador “Até que o Fim do Mundo nos Separe”, a primeira longa-metragem realizada por Lorene Scafaria. Conhecida por ter escrito o argumento do agradável “Nick and Norah´s Infinite Playlist”, Scafaria tem nesta obra de estreia como realizadora um filme terno e comovente, que transporta o espectador para o interior de um romance que nasce num dos mais improváveis períodos de tempo, ou seja, no fim do Mundo.
  Os protagonistas deste romance são Dodge (Steve Carell) e Penny (Keira Knightley), duas almas perdidas e sem grande rumo, que parecem complementar-se na perfeição. Dodge foi abandonado pela mulher que fugiu com o amante assim que foi anunciado que um asteróide se aproximava da Terra e iria destruir o planeta. Sem grandes esperanças do que fazer na vida, este ganha uma nova esperança quando pela primeira vez fala com a sua vizinha Penny (Keira Knightley), uma rapariga frágil como os vinílicos que colecciona, que mantém uma relação pouco séria com Owen (Adam Brody).
Dodge descobre que a vizinha guarda o correio deste que foi erroneamente parar a casa dela durante três anos. Entre a correspondência perdida, encontra-se a carta da grande paixão de Dodge durante grande parte da sua vida. Perante o motim que se encontra na rua, Dodge decide fugir ao lado de Penny para tentarem manter-se em segurança e este finalmente reencontrar a amada. Com algum sentimento de culpa por não ter entregue a carta, Penny decide acompanhar Dodge e o cão abandonado (nome do cão) que este último acolheu. Aos poucos estes envolvem-se numa perigosa e terna jornada de conhecimento e revelações, onde começam a desenvolver uma afeição inesperada e lutam para viver ao máximo os últimos segundos das suas vidas.
 Já imaginou o que faria se soubesse que o Mundo iria acabar em três semanas? Iria entrar em pânico ou tentar gozar todos os dias que lhe restavam? Iria procurar pelos entes queridos? Se fosse solteiro, será que ainda iria a tempo de encontrar o amor? Se tivesse de fugir de casa, quais os objectos que levaria consigo? Certamente muitas seriam as dúvidas e poucas as certezas. Penny e Dodge certamente não esperariam um dia chegar a falar um com o outro. Tal como muitos de nós em relação aos nossos vizinhos, estes dois partilharam durante anos o mesmo prédio, mas nunca partilharam uma única palavra de circunstância, algo que acontece precisamente na pior das alturas: quando o Mundo está prestes a terminar.
Os filmes sobre o fim do Mundo são cada vez mais comuns nas salas de cinema, mas poucos conseguem incutir o romantismo, leveza e o charme de “Seeking a Friend for the End of the World”. Sem a estética de “4:44 Last Day on Earth” nem a tensão dramática de “Melancolia”, a primeira longa-metragem da realizadora Lorene Scafaria revela-se uma agradável surpresa ao procurar mesclar elementos de romance e comédia aos elementos típicos dos filmes sobre o fim do Mundo, onde não falta o pânico colectivo, os discursos de despedida, a histeria, onde a humanidade revela o que de melhor e pior pode ter. O que o difere em relação aos filmes do género, é o toque de Scafaria, um toque profundamente humano, sobre uma dupla de personagens algo à margem da sociedade, uma dupla solitária que se complementa na perfeição, enquanto lidam com a trágica certeza que terão poucas horas para viver.
Não espere de “Seeking a Friend for the World” uma obra-prima. Este é um filme que procura acima de tudo emocionar o espectador, transportá-lo para uma terna história protagonizada por dois personagens frágeis, quase perdidos no Mundo, que se complementam com uma naturalidade notável, enquanto Keira Knightley e Steve Carell apresentam uma química surpreendente como a dupla de protagonistas. Frágil como os discos de vinil que carrega, a personagem interpretada por Keira Knightley tem na música e na sua colecção de vinis um refúgio para o quotidiano, para uma vida formada por más decisões, entre as quais, não dar atenção a aqueles que realmente importam, enquanto a actriz concede uma enorme candura e emotividade à sua personagem. Steve Carell está mais uma vez impressionante num papel mais sério do que nas comédias que protagoniza, um personagem melancólico, que procura reencontrar o grande amor da sua juventude mas acaba por descobrir que o amor pode surgir quando menos se espera. Estes dois personagens são o grande motor e alma deste filme. Lorene Scafaria lutou bastante para poder realizar o filme a partir do argumento que escreveu e percebe-se as razões dessa decisão. Existe toda uma enorme sensibilidade na forma como os protagonistas se começam a relacionar, em mostrar como seres humanos comuns poderiam reagir perante o anúncio da destruição do planeta, em focar-se nos personagens e não no asteróide que vai embater na Terra.
Se a relação entre Penny e Dodge é o motor da narrativa, importa salientar que outras temáticas relevantes são abordadas ainda que levemente ao longo da narrativa. Não faltam as célebres dificuldades de comunicação entre os seres humanos (paradigmaticamente representado pelo facto de Dodge e Penny nunca terem falado anteriormente), os problemas familiares (entre Dodge e o seu pai), a solidão (representado através da empregada latina de Dodge cuja vida resume-se a trabalhar) e claro está os problemas amorosos e o facto de o amor poder nascer nos lugares e alturas mais improváveis, enquanto os protagonistas deparam-se com um conjunto de estranhos personagens.
Com um trabalho de fotografia bem conseguido, uma história terna leve e cativante, “Seeking a Friend for the End of the World” conta ainda com uma banda sonora notável, partilhando com a protagonista a importância da música para dar uma maior dimensão ao conteúdo do seu ser. A banda sonora consegue exacerbar os momentos fulcrais da narrativa, raramente parecendo intrusiva, mesclando-se de forma natural numa narrativa que conquista pela simplicidade, embora não esteja livre de defeitos. Um dos problemas de “Seeking a Friend for the End of the World” passa exactamente por tentar encaixar demasiadas temáticas e não conseguir abordar todas estas ao longo da narrativa, para além de um primeiro terço que demora até engrenar, enquanto o personagem de Steve Carell lida com o fim do Mundo e a fuga da Mulher.
Aos poucos, o fim do Mundo aproxima-se, os dias, as horas, os minutos avançam e o espectador deseja que o inevitável não aconteça, mas ao mesmo tempo espera que Lorene Scafaria não traia a narrativa apresentada nesta comédia dramática terna e comovente. Com um argumento bem escrito, um conjunto de boas interpretações, uma banda sonora sublime, todas as peças da narrativa parecem juntar-se para criar uma comédia dramática surpreendente, onde dois personagens solitários procuram encontrar a felicidade antes que o Mundo conheça o seu ocaso. “Até Que o Fim do Mundo nos Separe” é uma agradável surpresa, um filme terno e romântico que emociona, cativa, comove e prende o espectador.

Classificação: 4 (em 5)

Título original: “Seeking a Friend for the End of the World”
Título em Portugal: "Até Que o Fim do Mundo nos Separe"
Título no Brasil: “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo”.
Realizador: Lorene Scafaria.
Argumentista: Lorene Scafaria.
Elenco: Steve Carell, Keira Knightley, Connie Britton, Adam Brody, Roger Aaron Brown, Tonita Castro, Rob Corddry, Melinda Dillon, Rob Huebel, Gillian Jacobs, Derek Luke, Melanie Lynskey, T.J. Miller, Mark Moses, Patton Oswalt, William Petersen.

Crítica em colaboração com a Take Cinema Magazine: https://www.facebook.com/take.com.pt

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