16 agosto 2012

Resenha Crítica: "Os Mercenários 2"

Numa cena de “Os Mercenários 2”, Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis irrompem a partir de três vidros e iniciam um tiroteio frenético contra os homens de Jean Vilain, o personagem interpretado por Jean-Claude Van Damme. A forma como a câmara de filmar enquadra este trio e cria a sensação de que algo épico se está a passar é paradigmático de tudo aquilo que vai acontecer no filme, onde a simples reunião de várias estrelas de acção parece estar sempre à frente da narrativa, com os vários actores a pretenderem dar aos fãs tudo aquilo que estes desejam, ou seja, grandes doses de pancadaria.
Do início ao final, os espectadores são convidados a entrar numa jornada de violência, músculos e pancada, protagonizada pelos personagens interpretados por Sylvester Stallone, Jason Statham, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis, Dolph Lundgren e companhia. Se no filme anterior o grupo de mercenários tinha de derrubar um ditador, em “Os Mercenários 2”, Barney Ross (Sylvester Stallone) é coagido por Church (Bruce Willis) a aceitar uma missão para recuperar um objecto electrónico que contém informações confidenciais que podem causar graves perigos se caírem nas mãos erradas. Em dívida para com Church, Barney convence o grupo de "mercenários" a partir em direcção à Albânia, onde é obrigado por Church a ter a companhia de Maggie (Yu Nan), uma perita em tecnologia que, juntamente com o ex-militar Billy The Kid (Liam Hemsworth), é um dos nos novos elementos do grupo. O problema é que a missão revela ser bem mais complicada do que inicialmente parecia, sobretudo quando surgem em cena Jean Vilain (Jean-Claude Van Damme) e os seus homens, prontos a matar tudo e todos para ficarem com o dispositivo electrónico, conseguindo ser bem sucedidos no seu objectivo, para além de provocarem a morte de forma brutal de um dos elementos dos “Mercenários”. Perante esta perda, Barney e companhia decidem vingar a morte do companheiro e fazer de tudo para travar Vilain.
Após o sucesso de “Os Mercenários” nas bilheteiras ao redor do Mundo, já seria de esperar o desenvolvimento de um novo capítulo da saga, e foi exactamente o que aconteceu, tendo “Os Mercenários 2” estreado em Portugal no dia 15 de Agosto de 2012. Com Simon West no lugar de Sylvester Stallone no cargo de realizador, o projecto conta com o regresso dos “mercenários” Sylvester Stallone, Jason Statham, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Terry Crews, Dolph Lundgren, Randy Couture e Jet Li, aos quais se juntam Chuck Norris, o novato Liam Hemsworth, a bela Nan Yu e Jean-Claude Van Damme como vilão, para protagonizarem um filme recheado de acção, violência, tensão e humor, onde a qualidade dos diálogos é muitas vezes dicotómica com o tamanho dos músculos de Terry Crews. Não há que esconder, o argumento de Richard Wenk e Sylvester Stallone deixa bastante a desejar, os diálogos por vezes apresentam uma qualidade sofrível e a realização de Simon West não passa de um nível regular, enquanto o elenco parece nunca levar muito a sério aquilo que está a fazer, preocupando-se mais em divertir-se do que em desenvolver os seus personagens. Apesar de todos estes handicaps, a verdade é que a equipa criativa consegue aproveitar com facilidade o valor de entretenimento da obra, claramente focada na reunião destas estrelas de acção, dispostos a fazer um filme não só para render muito dinheiro, mas também para se divertirem eles próprios e, ao mesmo tempo, divertirem os fãs, que acompanharam as suas carreiras ao longo dos anos, algo que é feito em grande estilo, ou seja, com muita pancadaria.
Com um argumento frágil, a estrutura que cimenta toda a narrativa assenta nas diversas cenas de acção que levam os “Mercenários” a deslocarem-se para diversos locais, enquanto procuram vingar a morte de um elemento do grupo. Até lá, qual jogo de computador, os personagens vão encarando diversas dificuldades, enfrentando tudo e todos, arrebentando com o que aparecer à frente, até ao culminar no confronto entre Barney Ross e Jean Villain, ou melhor, até os espectadores verem Sylvester Stallone e Jean-Claude Van Damme à pancada, onde não faltam os golpes de “Rocky” de Stallone e o célebre rotativo de Van Damme, capazes de entusiasmar o mais adulto dos fãs de acção. Grande parte do interesse da obra reside exactamente em momentos como o confronto entre Stallone e Van Damme, ou seja, em colocar as vedetas de acção em momentos frenéticos de luta, onde o espectador ficará mais do que entretido a ver Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis, Jason Statham e companhia a mostrarem os seus dotes para a arte de dar porrada a torto e a direito, por tudo e por nada, enquanto fazem algumas piadas sobre si próprios e sobre os personagens que interpretaram. É verdade, em vários momentos do filme os personagens chegam a fazer piadas sobre os papéis interpretados pelos respectivos actores na vida real, o que ganha contornos deliciosos se o espectador tiver a percepção do que se está a passar. Entre estes momentos não falta Arnold Schwarzenegger a comentar “yippie kay yay” para Bruce Willis, nem sequer uma entrada épica de Chuck Norris em cena, a demonstrar o tom leve como o filme foi encarado, onde a comédia está frequentemente ao lado da acção, com Stallone e companhia a darem aos espectadores caricaturas deles próprios, sendo Chuck Norris o caso mais paradigmático.
As presenças de Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme vieram claramente enriquecer esta reunião, nem que seja por conseguir despertar um sentimento de nostalgia por parte do espectador. Quebrando agora o tom mais sério que procuro incutir nas críticas desta casa, a presença destes dois astros, mais Stallone, Schwarzenegger e Willis, avivam-me as memórias das tardes que passava, durante a minha infância/adolescência, a vibrar com os filmes destes senhores, que, sozinhos, tinham a capacidade de enfrentar qualquer obstáculo, proporcionando, por diversos momentos, uma eficaz evasão da realidade. Hoje, sou bem mais cínico em relação a este tipo de filmes, mas não deixa de ser entusiasmante ver Chuck Norris sair da reforma e Van Damme do ostracismo do mercado home video para proporcionarem alguma diversão aos seus fãs, ao mesmo tempo que enchem as suas carteiras e proporcionam aquilo que quase sempre fizeram durante as suas vidas, ou seja, momentos de escapismo aos espectadores.
Passado o momento menos sério e mais pessoal da crítica, importa realçar que o desenvolvimento dos personagens é praticamente nulo, os momentos dramáticos nem sempre resultam da melhor maneira e um dos poucos personagens que aparenta estar a ser mais desenvolvido do que os outros é logo assassinado para que não haja ninguém com um passado relativamente elaborado na narrativa. Ao conter várias estrelas, ainda que na “fase museu”, “Os Mercenários 2” procura dar algum tempo a todos os seus elementos, mas nunca consegue desenvolver esse quesito na justa medida, embora desta vez tenhamos mais Schwarzenegger e mais Willis, ambos a formar uma dupla que consegue tirar alguns sorrisos do público, enquanto Stallone lidera mais uma vez o elenco e, claro está, tem o momento de catarse final do grupo ao ter o privilégio de combater um Jean-Claude Van Damme com uma destreza impressionante.
Se o trabalho dos vários elementos do elenco é fácil de avaliar, o mesmo não se pode dizer de Simon West, visto que o realizador tem a tarefa de obedecer a uma lógica muito própria de realçar as vedetas que integram o filme, em detrimento de poder brilhar no seu trabalho, tendo conseguido ser eficaz na generalidade do filme, mas parecendo sempre o tarefeiro de serviço.
Se é fã dos filmes de acção dos anos 80 e início da década de 90, onde nomes como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis, Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme brilhavam, certamente não irá querer perder “Os Mercenários 2”. Se, pelo contrário, não apreciava estas obras, protagonizados por verdadeiros “exércitos de um homem só”, o mais provável é querer fugir da sala de cinema. Todos os defeitos de filmes como “Cobra”, “Commando”, “Die Hard”, “Kickboxer”, entre outros parecem estar presentes nesta obra, onde não faltam os diálogos pouco elaborados, cenas de acção emotivas e bem coreografadas, uma fotografia nem sempre cuidada, mas muita testosterona, explosões, um ritmo frenético, personagens com uma força física sobre-humana e muito humor, num filme que procura apenas divertir o espectador, sem nunca apresentar pretensões de ser mais do que um momento de puro escapismo. “Mercenários 2” consegue ser um filme de acção leve e divertido, que entretém o espectador com a mesma facilidade com que Jean-Claude Van Damme aplica um rotativo.

Classificação: 3 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “The Expendables 2”
Título em Portugal: “Os Mercenários 2”
Título no Brasil: Os Mercenários 2.
Realizador: Simon West.
Guião: Richard Wenk e Sylvester Stallone.
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Chuck Norris, Terry Crews, Randy Couture, Liam Hemsworth, Jean-Claude Van Damme, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Yu Nan, Scott Adkins, Charisma Carpenter.

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