09 agosto 2012

Resenha Crítica: "Dark Tide - Águas Profundas"

Kate Mathieson: “You're told your whole life that sharks are dangerous. And then finally you're under water and you see the very thing you were taught to fear. And it's perfect. My father once told me to be careful of the things we love most in the world. Because if you're not careful, that very thing can also destroy you”.

O tubarão branco é uma espécie de tubarão lamniforme, que pode atingir 7,5 metros de comprimento e pesar até 2,5 toneladas. Escusado será dizer que este animal é carnívoro, temível e que se prepara para fazer a vida negra aos personagens de “Dark Tide”, o novo filme do realizador John Stockwell, após a realização de obras cinematográficas como “Blue Crush” (2002), “Into the Blue” (2005), entre outras. Tal como nos filmes citados, John Stockwell coloca os protagonistas a lidar com o mar e com os perigos que este pode representar, acrescentando, desta vez, um conjunto de imponentes tubarões brancos que prometem estragar os planos dos personagens.
Entre os referidos personagens encontra-se a protagonista do filme, Kate Mathieson (Hale Berry). Desde muito cedo que Kate aprendeu a temer e a admirar os tubarões, a ponto de, um dia, tornar-se numa nadadora de reconhecido valor pela sua habilidade em nadar junto dos tubarões brancos e ficar viva para contar as histórias. Este seu talento leva-a a desafiar os perigos e os seus medos, ao mesmo tempo que esta actividade se vai consolidando como uma das suas maiores paixões.Tudo muda, contudo, quando esta perde o seu mentor e grande amigo Zukie (Sizwe Msufu), enquanto gravava um documentário para Jeffrey (Olivier Martinez), o seu namorado. Zukie e Kate desafiaram os perigosos tubarões e acabaram, inesperadamente, por acarretar com as consequências, deixando a protagonista completamente devastada.
Um ano depois os eventos traumáticos continuam a repercutir-se, e Kate recusa terminantemente em voltar à companhia dos perigosos animais. Tudo parece mudar quando Jeff (Olivier Martinez) regressa e apresenta-lhe Brady (Ralph Brown), um milionário que está disposto a pagar uma fortuna para que Kate abandone a sua reclusão e volte ao activo, de modo a levá-lo em direcção ao alto mar com o seu filho para poder nadar, pela primeira vez, ao lado de um conjunto de tubarões brancos. O que parecia ser uma mera viagem recreativa, no entanto, logo se irá transformar num pesadelo, quando as tensões entre Jeff e Kate aumentarem, a relação entre Brady e o filho demonstrar ser muito pouco cordial e os tubarões se prepararem para colocar em risco a vida de todos os elementos que embarcam nesta perigosa aventura.
Se a nadadora Kate Mathieson tinha muito prestígio na sua função como nadadora, Halle Berry mostra, mais uma vez, que os tempos áureos em que recebeu o Óscar de Melhor Actriz por “Monster Ball” e foi escolhida como Bond Girl já são águas passadas, ao protagonizar mais uma obra desinspirada, que passou ao lado do público e da crítica aquando da sua estreia. Realizado por John Stockwell, “Dark Tide” até apresenta um conceito relativamente interessante - uma nadadora especialista em nadar com tubarões que terá de enfrentar os seus medos -, que poderia trazer alguns momentos arrepiantes e de grande tensão, mas fica-se pela mediania, tendo como um dos únicos pontos de interesse o facto de ser protagonizado por Halle Berry, que, inteligentemente, passa grande parte do tempo em bikini.
Halle Berry é um caso curioso. Com um talento relativamente acima da média, esta tem efectuado algumas escolhas muito negativas para a sua carreira profissional, que, ao longo do tempo, a levaram a perder um certo estatuto e a protagonizar filmes que pouco têm a ver com as suas capacidades. Em “Dark Tide”, Berry apresenta uma interpretação contida e segura, demonstrando que merecia um melhor argumento, uma melhor realização e um melhor filme, numa obra cinematográfica onde o grande destaque acaba por ser a própria actriz, que muitas das vezes pareça estar em “piloto automático”, embora seja o único elemento do filme a destacar-se.
“Dark Tide” confirma a dificuldade de serem desenvolvidos thrillers de qualidade que envolvam tubarões. Com excepção de “Jaws”, poucos foram os filmes centrados neste animal que ficaram recordados pela sua excelência, o que “Dark Tide” não consegue romper, parecendo, várias vezes, um telefilme do Syfy, mas com um orçamento mais elevado e uma actriz com algum prestígio. E se nos filmes do Syfy as histórias são conhecidas por serem pouco desenvolvidas e recheadas de acção e de momentos sangrentos, apesar dos efeitos especiais de qualidade duvidosa e do baixo orçamento, como por exemplo “Sharks in Venice” (2008), “Sharktopus” (2010), “Dinoshark” (2010), entre outros, já em “Dark Tide” os momentos de emoção são poucos, com as subtramas do problemático relacionamento entre Kate e Jeff e a relação conturbada entre pai e filho de Brady e Luke a destacarem-se em relação à acção. Os actores que interpretam os personagens, todavia, raramente têm grande oportunidade para sobressair, devido aos diálogos pouco emotivos e desprovidos de sentimento, que raramente conseguem gerar uma grande simpatia pelos personagens. O personagem interpretado por Ralph Brown é um exemplo do frequente recurso aos clichés, ao interpretar um indivíduo rico, arrogante, que não respeita nada nem ninguém e que procura apenas satisfazer os seus hábitos mais hedonistas, mesmo que, para isso, coloque a vida dos que estão à sua volta em perigo, independentemente de estar acompanhado pelo filho.
Pouco há para contar sobre o filme, que apresenta um argumento desinspirado e repleto de superficialidades, não conseguindo desenvolver os personagens, as narrativas que os envolvem, nem sequer criar um sentimento de perigo no espectador. Os raros momentos de tensão surgem no último terço do filme, e resultam quase sempre das cenas onde surgem os tubarões, que aparecem filmados de forma imponente e ameaçadora, embora a tensão provocada pelos perigos da sua presença nem sempre seja exteriorizada da melhor forma, em grande parte devido ao facto do espectador não criar uma ligação com os personagens, ou seja, muitas das vezes torna-se indiferente que estes estejam em perigo, sendo os tubarões o centro das atenções.
Embora o argumento apresente várias lacunas e a narrativa raramente consiga prender o espectador, importa salientar o razoável trabalho a nível de fotografia, com os cenários naturais da Cidade do Cabo, na África do Sul, a serem aproveitados de forma adequada, bem como as cenas filmadas debaixo de água, que apresentam algum interesse, culminando na já referida imagem imponente dos tubarões brancos. Ou seja, talvez se “Dark Tide" fosse um documentário sobre a natureza e vida animal, provavelmente até seria mais bem aproveitado, já que, como um thriller, nem por isso, visto que a história raramente apoia estes momentos mais inspirados do filme.
John Stockwell tem em “Dark Tide” uma obra com algum potencial, mas raramente consegue desenvolvê-la, apresentando um filme que flutua entre o thriller, o melodrama, o romance e o terror, acabando por não conseguir ser competente em nenhum dos géneros. “Dark Tide” é um caso paradigmático de um filme que poderia dar certo, mas que acaba por se perder num argumento fraco e numa realização desinspirada que raramente consegue prender o público. Entre dramas artificiais, personagens unidimensionais e perigosos tubarões, salva-se Halle Berry, num thriller que poderia e deveria ter dado mais ao espectador.

Classificação: 1 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Dark Tide”
Título em Portugal: “Dark Tide – Águas Profundas”
Título no Brasil: "Maré Negra”.
Realizador: John Stockwell.
Guião: Ronnie Christensen e Amy Sorlie.
Elenco: Halle Berry, Olivier Martinez, Ralph Brown, Luke Tyler, Mark Elderkin, Thoko Ntshinga, Sizwe Msutu.

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