30 agosto 2012

Resenha Crítica: "Bonsai"

Citando Emilia, uma das personagens principais de “Bonsai”, deixemo-nos de “blah blah blah” e passemos ao essencial. “Bonsai”, o novo filme do realizador e argumentista chileno Cristián Giménez, é um romance terno e arrebatador sobre livros, plantas e sobretudo sobre: Amor. Um amor frágil como um bonsai, que necessita de ser cuidado todos os dias, embora esses cuidados nem sempre sejam suficientes para manter viva a relação amorosa entre o casal, e um amor também interminável, mesmo quando a relação parece uma recordação perdida no passado.
Esta é a história de Júlio (Diego Noguera) e de Emilia (Nathalia Galgani), um casal que se amou no passado e que vive afastado no presente. As memórias desta relação ressurgem quando Júlio não consegue ser o escolhido para dactilografar a última obra literária do conhecido escritor chileno Gazmuri (Hugo Medina), por pedir um ordenado demasiado elevado. Para não desiludir Blanca (Trinidad González), a sua companheira ocasional, e ao procurar um rumo para a sua vida, cada vez mais perdida, Julio decide, ele próprio, escrever um romance, enquanto finge, para a sua amiga, estar a trabalhar para Gazmuri. Esta, sem perceber o fingimento de Julio, ajuda-o a transcrever o livro todas as noites. O livro centra-se nas memórias de Julio, nomeadamente na relação amorosa inesquecível e arrebatadora com Emilia, e apresenta uma história muito simples: um casal apaixona-se e separa-se.
Oito anos mais tarde, o protagonista descobre pela rádio que a ex-namorada faleceu. Entre o passado e o presente, entre a realidade e a ficção, num movimento pendular unido pelo amor sentido pelos protagonistas, o espectador é apresentado à história de Julio e Emilia. Duas almas perdidas, que se uniram à partida através de uma mentira: gostarem de ler Proust. Julio e Emilia são dois jovens estudantes de literatura sem rumo, que aos poucos constroem uma relação de grande cumplicidade, marcada pela paixão de ambos pela música, pelas plantas, pela literatura e pelo sexo. Entre a paixão tórrida e terna que viviam, estes iam lendo e conhecendo os grandes clássicos da literatura, ao mesmo tempo que se conheciam a eles próprios; cada desfolhar de página de um livro parecia um desfolhar de página nas suas vidas. Ambos viviam em casa de Bárbara, uma jovem também ela deslocada da sociedade, que se integrava na perfeição neste universo criado por Julio e Emilia. Frágil como uma planta, a relação entre os dois é apresentada ao espectador como capítulos de um livro cujo final já é conhecido.
“Bónsai” é uma ode ao amor, à literatura e às plantas, um filme que transporta o espectador para um universo aparte, que é tão parecido com a nossa realidade, onde o amor nem sempre vence o destino, mas deixa uma marca profunda em quem o viveu. Esta é a história de Júlio, um indivíduo sem rumo que viveu um grande amor no passado e recorda-o no presente. Quando tudo parece falhar na sua vida, este amor profundo, louco, arrebatador, é a mais grata recordação que este guarda na memória, o que leva o jovem a transformá-la em texto, criando um livro falso e, ao mesmo tempo, tão verdadeiro, onde relata vários episódios da sua relação com Emilia. A ficção une-se com a realidade e vai-nos transportando entre o presente e o passado, entre a alegria de uma paixão que nasce e a melancolia de uma paixão recordada, numa obra cinematográfica arrebatadora que contagia o espectador com a candura na relação entre Júlio e Emilia, pela ternura existente em muitos dos diálogos e pela humanidade existente nestes dois personagens. Como diria o próprio realizador, “Bonsái” é uma obra que capta a essência do primeiro amor.
Cristián Jiménez conquista-nos logo no início do filme, quando revela que, no final, Julio vive e Emilia morre. O resto é ficção, é “bla bla bla”. Esta decisão arrojada não só desconstrói uma estrutura narrativa à qual estamos habituados, mas também coloca todo o enfoque, não no desenlace do filme, mas sim na vida dos seus personagens, centrando a atenção do espectador nas relações humanas, nos vários capítulos da vida de Júlio. Estes capítulos, por sua vez, foram muito marcados por Emilia, uma figura bela, estranha, desajustada da sociedade, mas que o completava como ninguém.
Julio é um indivíduo meio alienado da sociedade. Este não sabe bem o que quer fazer da vida e sabe ainda menos o que quer ser no futuro. Emilia, do mesmo modo, é uma jovem desajustada, que tem em Julio a sua cara-metade. A relação entre os dois é o ponto forte do filme, algo que não seria possível sem a grande química entre a dupla de actores que deu vida aos personagens, Nathalia Galgani e Diego Noguera. Galgani fez recordar, várias vezes o estilo de Ellen Page, um estilo irreverente e, ao mesmo tempo, muito cândido. Diego Noguera confere ao seu personagem um estilo desprendido e atrapalhado, que apenas parece ganhar algum sentido quando está ao pé da amada, a ler, escrever ou a cuidar das plantas, ou seja, em actividades muito ligadas à sua primeira paixão.
Estas duas figuras, meio alienadas da sociedade, que se apaixonam de forma terna e encantadora, parecem formar um único ser, embora a relação entre os dois pareça estar sempre no limbo, levando frequentemente o espectador a esperar o pior, ao contemplar estas duas almas, tão distantes e tão próximas, que parecem querer encontrar sempre um motivo para boicotar a felicidade, mesmo que esse motivo nasça no interior de uma planta. O Bonsai do título é, aliás, muito mais do que uma planta: é uma metáfora para a paixão dos protagonistas. Representa uma paixão que precisa de cuidados especiais, de paciência, amor, carinho, de todo o empenho para manter-se viva e crescer de forma bela e saudável. Sem os cuidados especiais, o bonsai morre ou começa a deteriorar-se, tal como a relação entre Julio e Emilia.
A juntar ao casal de protagonistas, o filme consegue ter ainda um conjunto de interessantes personagens secundários, entre os quais Bárbara e Blanca. Bárbara é a melhor amiga de Emilia, uma jovem irreverente e persistente, que nunca desiste de nada, seja o seu objectivo conquistar uma boa nota nas aulas ou tentar que a amiga vá correr consigo. É culta, amante da literatura, e não tem problemas em praguejar as vezes que for preciso para comprovar um argumento. Blanca é a amante ocasional de Julio. Esta nunca parece compreender bem o homem que está ao seu lado, e ele também não parece fazer grandes esforços para ser compreendido. A relação entre ambos é distinta da relação entre Julio e Emilia, mas tem em comum o facto de, oito anos depois, Julio ainda não ter conseguido dar um rumo à sua vida.
“Bonsai” é uma co-produção entre a Jirafa Films (Chile), Rouge-International (França), Rizoma Films (Argentina) e Ukbar Filmes (Portugal), que permitiu a Cristián Jiménez tirar o seu trabalho do papel e brindar-nos com um romance enternecedor. O cineasta apresenta-nos um mundo recheado de livros, de plantas e de música, filmado de forma cuidadosa, recheado de personagens profundamente humanos, que vivem, choram, amam e mentem. Mais do que transportar um livro ao grande ecrã, Jimenez fez uma obra muito sua, repleta de camadas da sua vida, começando pelos cenários escolhidos para as cenas da juventude de Júlio e Emilia, o belo território de Valdivia, no Chile. Valdivia, cenário escolhido também para a curta “El Tesoro de los Caracoles” e para “Ilusiones Ópticas”, é o local onde nasceu o realizador, onde este experienciou várias das sensações dos personagens de “Bonsai”. Para o cenário passado no presente, o autor escolheu a cidade de Santiago, um cenário bem mais cosmopolita e que acaba por abafar os sonhos da juventude e trazer uma diferente perspectiva de vida aos personagens.
A música é outra componente importante do filme, como se percepciona pelo destaque dado à banda de rock alternativo chilena “Panico” na banda sonora do filme. A própria banda apresenta um percurso próximo do de Julio e Emilia. Começou como uma banda de rock mais pesado e enérgico e, ao longo dos anos, as suas músicas foram ganhando um tom melancólico, ajustando-se aos protagonistas que, na juventude eram irreverentes, cheios de vida, e com o devir do tempo acabaram por transformar-se em pessoas mais melancólicas, desiludidas com os capítulos das respectivas vidas. Refira-se que esta transformação, não só a nível dos personagens, mas também dos próprios Panico, reflecte de forma subtil uma geração chilena pós-Pinochet, mais individualizada e sem um rumo definido, que procura encontrar o seu rumo na sua vida, na sociedade e no Mundo. A banda sonora, no entanto, não se fica pelos Panico, tendo sido ainda escolhidas músicas de vários géneros e para vários gostos, que reflectem a individualidade dos seus personagens.
A atenção do autor ao pormenor é ainda visível na paleta de cores escolhidas para representar as cenas do presente e do passado. As cenas do presente apresentam sempre tons mais pálidos, menos coloridos e mais frios, que demonstram a melancolia presente nas suas vidas. No passado, os tons são mais quentes, recheados de vida, que demonstram duas almas apaixonadas em efervescência.
No início do filme é-nos revelado: Julio vive e Emilia morre. Não precisamos, por isso, de esconder que o que nos arrebata em “Bonsái” não é o desfecho, mas sim os vários capítulos do romance escrito pelo protagonista, nos quais a realidade invade a ficção, e que no seu conjunto formam um diário de memórias inesquecíveis, que captura a essência do primeiro amor de Julio, a bela Emilia. O amor entre os dois resistiu ao tempo e à separação, aos silêncios e aos diálogos, e ganhou forma num livro, como uma das obras que ambos, no início, tanto gostavam de ler todas as noites, antes de dar largas aos seus desejos sexuais.
Cristián Jiménez transporta-nos para a relação entre estes dois personagens. No passado, Júlio e Emilia conheceram-se, amaram-se e separaram-se. No presente, Júlio continua a recordar-se de Emilia e decide recordar a história do seu passado, ao mesmo tempo que procura conquistar Blanca. O destino tirou Emilia de Júlio, mas não tirou o amor que este sentia por ela. Um infeliz acaso no presente, leva a que Júlio recorde uma paixão do passado. Enquanto a caneta se aproxima do papel, vão ressurgindo várias memórias do passado, recheadas de melancolia e de incertezas. No final, Júlio fica vive e Emilia morre, mas o amor entre os dois permanece vivo, pois este é um sentimento tão imortal como uma obra de Proust, um sentimento que ultrapassa as barreiras da realidade e da ficção, um sentimento que quebra as barreiras do tempo. Cristian Jiménez transporta-nos para o interior de uma obra terna, arrebatadora e tocante sobre um casal que viveu uma relação tão frágil e especial como um “Bonsái”, e o resto é “blah blah blah”.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: "Bonsai”
Título em Portugal: “Bonsai”
Realizador: Cristián Jiménez.
Guião: Cristián Jiménez.
Elenco: Diego Noguera, Nathalia Galgani, Gabriela Arancibia, Trinidad González, Hugo Medina, Andrés Waas.

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