28 agosto 2012

Entrevista a Cristián Jiménez sobre "Bonsai"

É já no próximo dia 30 de Agosto que o público português terá a oportunidade de assistir em circuito comercial a "Bonsai", o novo filme do realizador chileno Cristián Jiménez ("Ilusiones ópticas"). A obra-cinematográfica foi exibida pela primeira vez no nosso país na secção "Cinema Emergente", do Festival Indie Lisboa 2012 e logo despertou a atenção destes bloggers.

Realizado por Cristián Jiménez, através de argumento do próprio, inspirado na obra literária homónima de Alejandro Zambra. "Bonsai" é uma co-produção entre Jirafa Films (Chile), Rouge-International (França), Rizoma Films (Argentina) e Ukbar Filmes (Portugal). O filme conta no elenco com Diego Noguera como Júlio, Nathalia Galgani como Emilia, Gabriela Arancibia como Barbara, Trinidad González como Blanca, Hugo Medina como Gazmuri, Andrés Waas como Claudio, entre outros.

Durante o IndieLisboa 2012, o Rick´s Cinema teve a oportunidade de entrevistar o cineasta chileno Cristián Jiménez sobre o seu mais recente trabalho, uma entrevista que aproveitamos para divulgar, tendo em conta a estreia do filme nos cinemas portugueses.

Rick´s Cinema: “Bonsai” é o segundo trabalho de Cristian Jimenez a ser produzido pela Ukbar Films. Como começou esta relação profissional?

Cristián Jiménez: Começou quando eu conheci a Pandora há sete, talvez há oito anos atrás, quando estava na Alemanha, à procura de financiamento. Ela gostou da minha visão e houve um clique.

Rick´s Cinema: Quando começou a carreira como realizador pensou alguma vez trabalhar numa co-produção portuguesa?

Cristián Jiménez: Não, havia alguns países com os quais era mais evidente fazer uma colaboração. Mas eu acho que há uma ligação entre o Portugal e o Chile. Já o Raul Ruiz dizia, Portugal é um país onde ele podia viver. Há uma melancolia parecida entre os dois lugares, entre o sul do Chile e Portugal, que acaba por nos unir.

Rick´s Cinema: Bonsai é inspirado no livro homónimo da autoria de Alejandro Zambra que nem sempre mostrou-se muito receptivo quanto à adaptação da obra ao grande ecrã. Como conseguiu convencer o escritor a deixar que adaptasse o filme?

Cristián Jiménez: Nunca. Ele disse que não, que não queria que eu adaptasse. Depois disse-lhe que não queria fazer uma novela, que queria fazer uma obra muito pessoal . Ele acabou por ver o meu filme anterior, o "Ilusiones Opticas" e ficou convencido. Percebeu que eu queria fazer uma coisa minha.

Rick´s Cinema: O que o atraiu na obra literária para adaptá-la ao grande ecrã?

Cristián Jiménez: Achei que o "Bonsai" é uma obra muito especial, gostei muito do romance. Mas não é muito visual, muito cinematográfico. Tem uma linguagem muito poética com um narrador muito forte. Também houve, além disso, dois pormenores nele que gostei. Em primeiro lugar, é um livro geracional. Tanto eu como o Alejandro Zambra nascemos no mesmo ano e partilhámos os vinte anos ao mesmo tempo, como o Júlio. Para mim, comecei a pensar que, se alguém fizesse o filme, teria que ser eu. Em segundo, gostei de o Bonsai ser um elemento da história, um conceito incluído no design do livro como um objecto.

Rick´s Cinema: Para além de realizar o filme, o Cristian ainda escreve o argumento. Como foi adaptar ao grande ecrã uma obra literária e transformá-la sua?

Cristián Jiménez: A primeira coisa importante que tive que ver foi, ao fazer a estrutura do filme, quis fazer uma estrutura com dois tempos. A novela é linear. Assim, quis fazer o filme em dois lugares, a Universidade e o sul do Chile, em Valdívia. E quando comecei a fazer isso, começaram a aparecer outras capas, como a música. O conteúdo mais pessoal foi a minha voz. A voz da personagem é a minha voz. Não é a voz de um actor.

Rick´s Cinema: O que o público pode esperar de “Bonsai”?

Cristián Jiménez: É a história de um amor, fala de dois amores perdidos, que não se podem esquecer. É uma história literária, que conta uma história, sobre contar uma história. Centra-se nas pequenas ficções quotidianas, e é uma história que tem muitos anos. Um crítico norte-americano disse, numa crítica, que o filme tem a essência do primeiro amor.

Rick´s Cinema: “Bonsai” conta com Diego Noguera como Júlio e Nathalia Galgani como Emilia. Porquê a escolha desta dupla para interpretar o par romântico?

Cristián Jiménez: Quando comecei a preparar o filme, eu sabia que a decisão mais determinante era quem ia fazer de Júlio, então fiz um casting muito cedo, mesmo antes de fazer o roteiro. Foi um casting muito lento, muitos actores jovens foram fazer audições. O Diego e a Nathalia fizeram pelo menos 10 audições, foram momentos loucos. Às tantas o director de casting já me estava a dizer que tinha que tomar uma decisão.
A Nathalia era muito nova, era totalmente a sua primeira vez a aparecer num filme. O Diego já tinha alguma experiência. E mentiu-me sobre a sua idade, disse-me que tinha 25 anos. Descobri depois que era uma mentira que ele disse para me convencer, ele na realidade tinha 28 anos.

Rick´s Cinema: Porque decidiu contar no início do filme como termina a história de Júlio e Emilia?

Cristián Jiménez: Já está nos livros, mas de uma maneira diferente. Fiz isto porque, de certa maneira, quis reconhecer a fonte literária, mas sem fazer algo muito fiel, queria liberdade e variação. É a maneira de dizer que foi a minha leitura. Ao mesmo tempo, pelo que é uma maneira forte de dizer que o filme fala de contar uma história. Todo o mecanismo da película torna-se imprevisível.

Rick´s Cinema: A etapa da juventude dos protagonistas de “Bonsái” é filmada em Valdivia, a sua terra natal. O que este local tem de especial para filmar? Inspirou-se em algum episódio particular da sua vida?

Cristián Jiménez: Como é a minha cidade natal, conheço muito bem os lugares com significados especiais que queria transmitir. Quando estava a fazer a adaptação, quis fazer na Universidade pela qual estava sempre a passar quando era mais novo, porque morava lá perto. Penso que, assim, há uma carga especial. Finalmente, filmar naquele lugar também dá uma nova dimensão de produção. Há muito apoio por parte da população, mais eficácia. Mas também podia usar outras cidades, como Santiago.

Rick´s Cinema: Teve de deixar de fora algumas cenas que sentia serem importantes para o filme?

Cristián Jiménez: Não, não houve nenhuma cena que tivesse ficado de fora. Quanto à lógica da montagem, em primeiro lugar, queríamos deixar o filme muito curto. O nosso primeiro corte tinha 83 minutos, era muito compacto. O filme precisava de ar. Podámos tudo o mais que podíamos e depois demos-lhe um bocado de ar.

Rick´s Cinema: No decorrer do filme, deu alguma importância ao elemento da música indie / rock, que foi escrita pela influente banda chilena Panico. Por que razão escolheu a musica desta banda para fazer a banda sonora do filme?"

Cristián Jiménez: Quando começámos a trabalhar sobre a juventude, o presente contrastava com o passado, passado na segunda metade dos anos 90. Foram as camadas que introduzi. Para mim, a música transporta-nos aos anos 90. O contexto da Universidade, a literatura, a música. E os Panico tinham essa capacidade. Ao mesmo tempo, quando estava a viver em França, conheci pessoalmente os Panico, quando estes estavam a apresentar o último CD deles, o Kick, que era um CD mais melancólico. Reparei que a evolução musical da banda acompanhou a evolução das personagens. Mas, nos anos 90, também havia outras bandas indie/alternativas, não eram só os Panico. A Emília está associada à musica que gosta, a música classifica uma pessoa. Foi uma das “capas” das diferentes personagens, a maneira de as caracterizar.

Rick´s Cinema: Sempre pensou ser realizador de cinema? O que o motiva nesta profissão?

Cristián Jiménez: Nunca tinha pensado em fazer filmes. Quando era muito jovem, na adolescência, escrevia histórias e poemas e depois contos, pequenas histórias. Mais tarde, lá para os vinte anos, comecei a sentir-me interessado nos filmes, mas fazia-os de uma forma muito amadora, muito simples. Profissionalmente, só aos 28 anos, depois de ter trabalhado em Londres e de me ter formado em sociologia.
Penso que a minha formação de Sociologia foi muito importante. São temas que me interessam, e tem uma maneira de tratar os temas com uma linguagem diferente, mais cinematográfica.

Rick´s Cinema: Com “Bonsai” prestes a estrear nas salas de cinema. Já conta com projectos cinematográficos para o futuro?

Cristián Jiménez: Sim, estou a trabalhar no roteiro de dois filmes. O primeiro passa-se no Chile, é um filme familiar sobre três irmãos, com mais de trinta anos. Os seus pais acabam por divorciar-se, depois de um matrimónio de 40 anos. O segundo é um filme inglês, em Londres, que conta um romance entre uma latino-americana e um inglês, em que ele é um burguês e ela é do proletariado. Mas antes disso começo a trabalhar na televisão em maio, quando voltar agora ao Chile.

Rick´s Cinema: Uma última pergunta. Já leu Marcel Proust?

Cristián Jiménez: Já tentei, mas não consegui acabar os 7 livros. Na universidade só cheguei ao terceiro! Em França, diz-se que só é necessário ler o primeiro e o último livros. Mas uma amiga deu-me os 7 livros em francês há pouco tempo…

2 comentários:

Hugo Barcelos disse...

Um bom filme, é verídico. E uma entrevista traumática também, graças ao nosso grandioso gravador de áudio.

Aníbal Santiago disse...

O filme é altamente recomendado.