28 junho 2012

Resenha Crítica: "Maldita Mulher"

Coral 'Dusty' Chandler: Oh, it's a blue, sick world, Rip.

“Maldita Mulher”, de John Cromwell apresenta-nos um mundo negro, recheado de perigos, onde nada é o que parece, a morte espreita em qualquer lugar e até da própria sombra convém desconfiar. É por isso, que as palavras dirigidas por Coral Chandler a Rip Murdock fazem tanto sentido, estes vivem num mundo triste e doentio, num ambiente típico dos filmes noir. O filme é um dos exemplos dos filmes noir competentes que proliferaram durante a década de 40 (e algum período de 50), nos Estados Unidos, um estilo de filmes que exacerbava bem um clima de alguma desilusão nos Estados Unidos da América, no período após a II Guerra Mundial.
E é exactamente após a II Guerra Mundial que começa o enredo de “Maldita Mulher”, nomeadamente, quando Rip Murdock (Humphrey Bogart) surge numa igreja a relatar os inquietantes acontecimentos da sua vida, após o final do conflito, nomeadamente, quando o paraquedista e Johnny (William Prince), dois companheiros de armas inseparáveis preparam-se para regressar aos Estados Unidos da América, para serem condecorados pelos seus heroicos actos durante a Guerra, na Europa. O que parecia ser um regresso feliz a casa, logo se transforma num pesadelo, quando Johnny decide fugir, de forma a que não descubram que este falsificou a sua identidade para poder participar da guerra e encobrir o facto de ter estado envolvido no assassinato de Stuart Chandler o marido da amada Coral (Lizabeth Scott). Regressado a casa, Murdock decide procurar pelo amigo, até deparar-se com uma triste realidade, este sofrera um estranho acidente de viação que o vitimara. Longe de achar que a morte foi um mero acidente, Murdock decide partir em busca de informações junto de Louis (George Chandler), um amigo de Johnny, e Coral Chandler, a amada do amigo, uma loira bela e sensual que o mundo de “Maldita Mulher”. Há medida que embrenha-se no caso e começa a aproximar-se da sensual Coral, Murdock percebe que está envolvido num caso muito mais intrincado do que o inicialmente previsto, onde ninguém está completamente inocente e todos parecem esconder algo de relevante. O que seria uma busca pelo amigo desaparecido, logo se torna numa perigosa investigação de um homicídio que coloca a vida de Murdock em perigo, enquanto este lida com o perigoso mafioso, Martinelli (Morris Carnovsky), uma femme fatale menos inocente do que incialmente parecia, polícias pouco competentes, e um conjunto de criminosos prontos a terminar com a sua inquietante vida.
Na década de 40, vários foram os filmes noir que estrearam nas salas de cinema norte-americanas. Muitas das vezes inspirados em obras literárias, nomeadamente, nos célebres romances policiais, estas obras captavam um certo sentimento de desilusão dos Estados Unidos da América do pós-guerra, uma sociedade não tão apolínea como muitas das vezes era representada na cultura popular, uma sociedade recheada de personagens de carácter dúbio, moralmente duvidosos, onde a suspeição e o medo pareciam tomar conta da narrativa. Longe de ser um género codificado, onde todos os traços sejam transversais entre si, este género, ou sub-género, ou se preferirem estilo, marcou a década de 40 e alguns anos de 50 nos Estados Unidos da América, embora na época, o termo noir não fosse utilizado, nem houvesse consciência de que se estava a desenvolver um estilo muito próprio de filmar e apresentar uma narrativa. Em “Dead Reckoning”, John Cromwell transporta-nos para as ruas de Gulf City, num universo recheado de mentiras, crimes, paixões, traições e sedução, onde ninguém é totalmente inocente e o perigo espreita a cada esquina. O filme capta na perfeição o ambiente e o tom dos filmes noir, sendo um exemplo de uma obra cinematográfica bem conseguida no género, embora tenha algumas falhas a nível do argumento, resultantes muitas das vezes da tentativa falhada de desenvolver os personagens principais. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)




John Cromwell apresenta um trabalho seguro, recheado de vários elementos transversais a várias obras cinematográficas noir, onde não faltam a utilização do chiaroscuro (inspirado no expressionismo alemão), o personagem principal a narrar a história ao espectador, numa obra que desenrola-se maioritariamente no mundo nocturno e moralmente duvidoso. O que temos presente em “Maldita Mulher” é uma cidade sombria, recheada de personagens de índole duvidosa, que povoam a noite, um universo onde o jogo, o crime, a dissimulação parecem fazer parte do seu quotidiano e contaminar todos os que nela vivem. Ou serão estes personagens que contaminam o ambiente onde vivem? Algo é certo, nenhum dos personagens é completamente, e todos têm uma agenda muito própria, que aos poucos vai-se desvendando e surpreendendo o espectador, mesmo que muitas das vezes o enredo não faça muito sentido, nem seja verosímil.
Um dos motivos principais para “Dead Reckoning” funcionar é Humphrey Bogart, uma das lendas de Hollywood, um actor que nos dias de hoje ainda mantém uma popularidade impressionante. Bogie interpreta um personagem muito à sua medida, e que estamos habituado a vê-lo representar em vários filmes do género. Rip Murdock é um indivíduo meio solitário, que mescla um certo cinismo com uma grande insegurança, sobretudo uma enorme fragilidade perante as mulheres. Embora apresente um discurso machista, recheado de afirmações que deverão enfurecer as feministas mais efuzivas, tais como “You know, the trouble with women is they ask too many questions. They should spend all their time just being beautiful”, ou então, “You know, I've been thinking: women ought to come capsule-sized, about four inches high. When a man goes out of an evening, he just puts her in his pocket and takes her along with him, and that way he knows exactly where she is. He gets to his favorite restaurant, he puts her on the table and lets her run around among the coffee cups while he swaps a few lies with his pals (...) Without danger of interruption. And when it comes that time of the evening when he wants her full-sized and beautiful, he just waves his hand and there she is, full-sized”. Estas afirmações podem parecer descabidas, mas proferidas por Humphrey Bogart ganham um certo sarcasmo e ironia, que não deixam de revelar a sua grande insegurança perante as mulheres. Bogart tem aqui alguns diálogos de grande intensidade e qualidade, graças ao argumento ter sido bem desenvolvido para o seu personagem, e também pelo facto deste conseguir como poucos interpretar este estilo de personagens dos filmes noir, que mesclam no seu cinismo, todas as dicotomias do seu estado de espírito. As palavras deste por vezes disparam como balas, o seu discurso estonteia e a sua alma deixa-se estontear pela bela Coral Chandler, mesmo que este saiba que ela não é tão angelical como aparenta.
Lizabeth Scott interpreta Coral Chandler, a típica femme fatale, uma mulher misteriosa, que esconde muito mais do que aquilo que revela e mostra-se bem mais perigosa do que poderia inicialmente aparentar. Apesar de não desiludir, Scott está longe do carisma demonstrado por Lauren Bacall, Barbara Stanwyck, Gene Tierney, Rita Hayworth, Ava Gardner, Lana Turner, entre outras que enfeitiçavam os espectadores com o seu talento, sensualidade, alguma irreverência e até alguma fragilidade. Chandler apresenta-se ao público como uma actriz fragil como a sua personagem, mas por vezes capaz de incutir alguma intensidade, que resulta nalguns bons momentos, sobretudo no último terço do filme e no poderoso desfecho final. Um dos grandes problemas passa por esta nunca conseguir captar aquela faísca que Bogart tinha com Bacall no grande ecrã, ou até com Bergman em “Casablanca”, ou se preferirem outros casos de filme noir, com Mary Astor em “The Maltese Falcon”. É verosímel que ambos formem um casal, mas falta aquela aura típica entre a femme fatale e o anti-herói noir que arrebata o espectador para o meio deste improvável universo narrativo. Estes contam ainda com a companhia de um universo de personagens de índole duvidosa, entre os quais, o célebre dono do clube nocturno, onde trabalha Coral Chandler, nomeadamente, o perigoso Martinelli, interpretado por Morris Carnovsky. Este aparece representado como o dono do clube nocturno (um cenário tão comum no género), um personagem algo unidemensional, servindo um propósito muito claro de ter um antagonista que se saiba que não se pode confiar. Carnovsky não impressiona, mas também não desilude, num dos vários personagens que o argumento de Oliver H.P. Garrett e de Steve Fisher parecem nunca pretender desenvolver.
Estes personagens habitam um universo nocturno recheado de perigos, suspeitas, mortes, assassinatos, crimes, onde o jogo é ilegal mas quase todos jogam, onde a polícia é facilmente ludibriada e o sonho americano é desfeito. Esta não é a “Terra das Oportunidades”, mas sim a cidade de todas as desfeitas, onde um antigo paraquedista percebe que a glória que traz das conquistas na guerra apenas servem para o seu currículo e pouco servem para o seu quotidiano. As ruas da cidade são marcadas pela insegurança e ineficácia da autoridade, os clubes nocturnos são locais onde a lei fica à porta e a ilegalidade e o crime tornam-se a regra. “Dead Reckoning” é eficaz ao representar-nos este clima de alguma desilusão no seio dos Estados Unidos da América, através da vida nocturna citadina. Em comparação com outros filmes noir como “The Maltese Falcon”, de John Huston; “Laura”, de Otto Preminger; “The Big Sleep”, de Howard Hawks; “Gilda”, de Charles Vidor, entre outros, “Dead Reckoning” é quase sempre visto como um filme menor do género, embora esteja recheado de qualidades que o tornam numa obra cinematográfica acima da média e um pedaço de cinema que absorve o espectador para o interior de um universo obscuro da sociedade norte-americana. Este clima obscuro, de grande suspeição, onde ninguém é tão inocente como parece, conta com a presença de Rip Murdock, um cínico ex-paraquedista, que arma-se em detective e relembra ao espectador o talento natural de Humphrey Bogart para este tipo de papéis, ao reflectir na perfeição o cinismo e fragilidade do personagem que intepreta, ao mesmo tempo que dispara as palavras com a mesma violência que uma arma, e arrebata o espectador pelo seu estilo sincero. Quem também sobressai, ainda que de forma irregular é Lizabeth Scott como Coral Chandler, uma femme fatal que arrebata o protagonista, embora não seja tão ingénua como parece. Composto por um enredo que absorve o espectador, “Dead Reckoning” assume as suas falhas e apoia-se no talento de Humphrey Bogart para oferecer ao espectador um filme noir interessante, que nada fica a dever a muitos clássicos do género. Rip Murdock revela a Coral Chandler o seu sonho por ver as mulheres serem diminuídas para não incomodarem em momentos de lazer nos homens, e posteriormente voltarem ao seu tamanho natural quando fossem necessárias. “Dead Reckoning” é como essa mulher de sonho de Murdock, em alguns momentos apaga-se e torna-se numa obra menor, mas quando necessário transforma-se numa grande obra cinematográfica que respeita o seu género e mostra o porquê deste género de filmes ter sido tão popular.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título original - “Dead Reckoning”.
Título em Portugal: "Maldita Mulher”.
Realizador: John Cromwell.
Guião: Steve Fisher e Oliver H. P. Garrett.
Elenco: Humphrey Bogart, Lizabeth Scott, Charles Cane, Morris Carnovsky, George Chandler, Marvin Miller, Wallace Ford, entre outros.

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