13 maio 2012

Resenha Crítica: "Uma Professora Muito Maluquinha"

Ao longo da nossa vida como estudantes, todos tivemos professores que nos marcaram pela positiva e outros pela negativa. No entanto, é impossível negar que muitas das nossas experiências vividas durante a escola primária foram marcadas por uma intensidade muito própria, devido a estarmos a descobrir pela primeira vez todo um novo mundo de conhecimento. Para além disso, forjam-se novas amizades, perdem-se outras, vivem-se alguns momentos memoráveis, entre outros menos bons. “Uma Professora Muito Maluquinha”, o novo filme da dupla de realizadores composta por André Alves Pinto e César Rodrigues, transporta-nos para o Brasil dos anos 40, numa pequena cidade rural eivada dos valores familiares tradicionais, que se depara com a chegada de uma bela e jovem professora para dar aulas a uma turma da escola primária. Esta irá marcar tudo e todos pela cidade, não só os adultos, mas também as crianças que a viam como um exemplo e a admiravam.
A graciosa professora é Catarina (Paola Oliveira), uma mulher que regressou à sua cidade natal, São João del-Rei (no interior de Minas Gerais), para leccionar na escola primária, e não deixa ninguém indiferente. Os alunos veneram-na, os homens deliram com a sua presença e as outras professoras desesperam com o seu método de ensino pouco convencional. Esta irradia uma energia pouco comum, um sorriso que encanta, ao mesmo tempo que apresenta uma certa ingenuidade que permite relacionar-se com os seus alunos e alunas como se fossem os seus amigos.
Quem também está de regresso à cidade é o padre Beto (Joaquim Lopes), um discípulo do Monsenhor Félix (Chico Anysio) e amigo de infância de Catarina. Beto é o director da escola na qual Catarina dá aulas e um dos muitos homens que sentem um enorme desejo sexual pela professora, embora no caso do pároco estes sentimentos tenham que ser reprimidos devido ao voto de castidade. Se os sentimentos do padre devem ser reprimidos, o mesmo não se pode dizer do professor de Geografia Mário (Max Fercondini), de Pedro Poeta (Rodrigo Pandolfo), de Carlito (Cadu Fávero) e de Rodolfo Valentino (o português, Ricardo Pereira). Todos procuram conquistar Catarina, todos conseguem sair com esta, mas nenhum arrebata o seu coração da maneira que a professora pretende.
Quem Catarina conquista mesmo é os seus alunos e alunas, sobretudo Luisinho (Caio Manhete), que logo no início descreve bem o que será a relação entre esta e os petizes: “assim que ela entrou na nossa sala, todas as meninas quiseram ser lindas e todos os meninos quiseram crescer na hora para poder casar com ela”. Ao longo do filme, podemos assistir ao desenvolver da relação de cumplicidade entre Cate (como prefere ser chamada) e os seus alunos ao longo de um ano de ensino, ao mesmo tempo que esta procura encontrar o grande amor da sua vida e divertir-se ao lado daqueles de que mais gosta, mesmo que tal nem sempre seja apreciado por todos, em particular pelas suas colegas de profissão, que irão fazer de tudo para boicotar o seu trabalho. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)





Inspirado no livro homónimo da autoria de Ziraldo, um autor conhecido pelas suas obras direccionadas para o público infantil, “Uma Professora Muito Maluquinha” transporta o espectador para um mundo semelhante ao que estamos habituados a ver nos contos de fadas, um mundo em que os personagens aparecem recheados de uma grande dose de ingenuidade, companheirismo e simplicidade, ao mesmo tempo que vivem intensamente. Claro que num conto de fadas, ou, se preferirem, numa história de encantar, não poderiam faltar antagonistas e momentos adversos, tais como a morte, mas estes nunca acabam por constituir uma verdadeira ameaça à alegria dos protagonistas. Este conto de fadas desenrola-se numa pequena cidade brasileira durante a década de 40 e tem no centro da história uma professora jovem e incrivelmente bela, que conquista os corações dos alunos e dos homens da região.
Esta jovem professora é interpretada por Paola Oliveira, uma actriz que revelou ser uma bela surpresa na obra em questão, ao criar uma personagem contagiante, simples, bela e muito infantil, sempre sem cair nos exageros. Oliveira soube tirar partido não só da sua arte para a representação, mas também da sua beleza e graciosidade, sendo fácil perceber porque é que esta professora sorridente encantou tão facilmente os jovens e apaixonou de forma fulminante os homens. Paola Oliveira incute um espírito gracioso e algo ingénuo à personagem que interpreta, sempre com um sorriso e um entusiasmo contagiante, que se integra na perfeição com os restantes elementos do elenco, sejam estes o conceituado Chico Anysio, ou os elementos do elenco infantil.
A relação de cumplicidade entre esta e os actores mais jovens é um dos pontos fortes do filme, sobressaindo o desempenho da jovem Ana Beatriz Caruncho como Cibele e o de Caio Manhete como Luisinho. Além disso, o filme conta ainda com a presença de um sempre talentoso Chico Anysio como o Monsenhor Félix, com o astro brasileiro a oferecer ao público mais um desempenho marcante.
A dupla de realizadores formada por André Alves Pinto e César Rodrigues conseguem transpor para o grande ecrã uma obra literária bastante popular no Brasil e transformá-la numa obra cinematográfica repleta de pequenos elementos que despertam a nostalgia e o encanto do público. A nostalgia criada pelo ambiente do filme é um dos factores fulcrais para a obra funcionar, ao levar o espectador para um tempo que não existe, mas no qual este certamente gostaria de ter vivido. Veja-se o relacionamento entre os colegas de turma, os diálogos entre os personagens, a forma como estes encaram a vida, o amor, a maneira como se vestem, a importância dada aos elementos religiosos (entre os quais o Monsenhor), tudo ajuda para transportar-nos para uma época muito diferente da nossa, que cria uma nostalgia por um tempo nunca vivido.
O próprio cenário no qual foi filmado grande parte de “Uma Professora Muito Maluquinha”, nomeadamente a cidade de São João del Rey, um local do interior de Minas Gerais que apresenta várias características de décadas anteriores, ajuda a criar todo um ambiente adequado ao enredo da obra cinematográfica, que, como foi referido, se desenrola durante os anos 40 do século XX. As alusões esta década não se ficam pelas acima mencionadas: temos ainda a referência ao facto de Adolf Hitler estar a dominar militarmente a Europa, as salas de cinema a passarem “Cléopatra” de Cecil B. DeMille (um filme de 1934), entre muitos outros elementos.
Este tom que procura despertar a nostalgia do espectador e, ao mesmo, encantá-lo é ainda realçado pela banda-sonora, que conta com alguns temas que sobressaem ao longo da narrativa, entre os quais “Mesmo Amor” de Paula Morelenbaum, “Dia Comum” de Milton Nascimento ou “Menina, Amanhã de Manhã” de Fernanda Takai. Destes, claramente sobressai “Mesmo Amor” de Paula Morelenbaum, que se enquadra na perfeição com as cenas em que a música é reproduzida, sobressaindo ainda mais aquilo que as imagens em movimento apresentam.
Apesar de toda esta leveza do enredo, o filme efectua uma crítica mordaz ao modelo de educação demasiado rígido leccionado nas escolas, que procura apenas colocar os professores a debitar matéria e não a cativar os alunos, não promovendo a vontade pelo saber, mas sim a sua mecanização. Enquanto que entre os defensores de um método de ensino inovador e motivador dos alunos se encontra Catarina, do outro constam as três professoras e a directora, que pretendem reprimir os ímpetos inovadores da primeira. Esta procura despertar o lado mais criativo dos seus alunos, despertar a curiosidade destes para aprenderem as matérias, procurar mostrar que cada um é especial à sua maneira, ou seja, procura despertar a curiosidade pelo saber. Apesar do filme desenvolver uma crítica subtil ao sistema de edução brasileiro através desta querela entre as professoras e Catarina, a verdade é que esta crítica pode muito bem ser aplicada à realidade nacional. Este espírito crítico é mais um dos pormenores adaptados do livro de Ziraldo e é uma temática pela qual o escritor sempre lutou, quer nas suas obras, quer em aparições públicas. Pode-se rebater que a realidade actual é outra, que as crianças actualmente reagem de outra maneira; no entanto, é impossível negar que o método de ensino nas escolas privilegia sempre o decorar e o saber de forma quase mecanizada, ao invés de procurar despertar o saber nos alunos.
Apesar de ser uma comédia bastante efectiva, “Uma Professora Muito Maluquinha” não deixa de apresentar alguns problemas a nível da narrativa que passam não só pelo seu final em aberto, que pouco ajuda o enredo, bem como pela prestação pouco convincente de Joaquim Lopes como Padre Beto (por momentos, cheguei a visualizar a falta de emoção de um Keanu Reeves).
André Alves Pinto e César Rodrigues transportam o espectador para um mundo próximo dos contos de fadas, que, ao mesmo tempo, é muito real. Um mundo recheado de candura, inocência e, ao mesmo tempo, dos problemas quotidianos que afectam cada um. Elaborado claramente tendo em vista cativar o público infantil, “Uma Professora Muito Maluquinha” apresenta-se aos espectadores como uma comédia leve, divertida e encantadora, que consegue chegar de forma natural ao público de todas as idades. Formado por um elenco interessante do qual sobressaem Paola Oliveira e Chico Anysio, o filme conta ainda com momentos divertidos que transportam o espectador para o interior do enredo, fazendo-o relembrar alguns episódios da sua infância. Presentado com boas interpretações e acompanhado por um argumento leve e divertido, “Uma Professora Muito Maluquinha” é o filme ideal para ver em família e sair da sala com boa disposição.

Classificação: 3 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: Uma Professora Muito Maluquinha.
Título em Portugal: Uma Professora Muito Maluquinha.
Realizador: André Pinto e César Rodrigues.
Guião: Ziraldo.
Elenco: Paola Oliveira, Chico Anysio, Elisa Pinheiro, Max Fercondini, Suely Franco, Joaquim Lopes, Ricardo Pereira, Cadu Fávero, Rodrigo Pandolfo, Ziraldo, Jota D'Angelo.

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