14 abril 2012

Resenha Crítica: "Tabu" (2012)

Durante os finais da década de 40, assistiu-se a uma forte emigração de portugueses em direcção às colónias. Fosse para Angola, Moçambique ou Cabo Verde, os portugueses procuravam melhores condições de vida nestes locais exóticos africanos, onde procuravam a utópica felicidade que tardavam a conhecer no seu país de origem. Várias décadas depois, todos aqueles que regressaram a Portugal após o 25 de Abril e a subsequente independência das províncias ultramarinas, mantêm na memória esses momentos passados no “Paraíso Perdido”, que tantas e gratas recordações lhes trazem, e que, por vezes, os conduzem a um sentimento de saudade que consome o âmago do seu ser. Aurora, uma das personagens principais de “Tabu”, o novo filme do realizador português Miguel Gomes, foi uma das pessoas que viveu o sonho colonial, tendo guardado na memória vários dos intensos episódios que viveu numa antiga colónia portuguesa, incluindo uma paixão proibida marcada pela tragédia no exótico Monte Tabu, um local imaginário no seio de Moçambique que ganha contornos de realidade no filme em questão. Nesta sua nova incursão pela realização cinematográfica, Miguel Gomes apresenta-nos o Portugal do Império, o Portugal das colónias africanas e daqueles que por lá habitaram e guardaram na memória as vivências desse período da sua vida, um regresso ao passado mesclado entre a amarga realidade, os doces sonhos e as vivências intensas.
Dividido entre o passado e o presente, o enredo de “Tabu” divide-se em duas partes, antecipadas por um prólogo. O prólogo dá o mote para o que podemos esperar no resto do filme, ao apresentar um explorador português que se suicida devido a um desgosto amoroso, ou seja, logo de inicio, o amor aparece associado à morte e à tragédia.
A primeira parte do filme, intitulada “Paraíso Perdido”, desenrola-se nos dias de hoje, em Lisboa, e acompanha a vida de três mulheres: Aurora (Laura Soveral), a sua empregada africana, Santa (Isabel Cardoso), e Pilar (Teresa Madruga), uma vizinha recentemente reformada. Estas mulheres encontram-se unidas pelo prédio em que habitam, bem como pelo destino que as irá juntar. Todas estas personagens carregam por detrás de si um passado mais complicado do que aparenta. Aurora é uma mulher destroçada pelo tempo, que não foi nada brando para com ela. Abandonada pela filha que partiu para o Canadá, esta apresenta claros sinais de degradação física e mental, ao mesmo tempo que o vício pelo jogo consome as suas finanças. Vive apenas com Santa, a empregada africana contratada pela sua filha, que procura seguir de forma inflexível as ordens da patroa, ao mesmo tempo que aprende a ler. Pilar, por sua vez, é uma mulher religiosa e recém-reformada, que dedica parte da sua vida a causas sociais e a ajudar a sua vizinha, Aurora.
Despedaçada pelo destino e pelas memórias que consomem a sua alma, Aurora fica gravemente doente. Internada no hospital, às portas da morte e aparentemente demente, irá pedir para contactarem Gian Luca Ventura. Mas quem é este homem? Será precisamente a sua história que o próprio irá narrar ao longo de “Paraíso”, a segunda parte de “Tabu”. Se me pedissem para descrever a segunda parte de “Tabu” numa única palavra, diria que é simplesmente arrebatadora. É um regresso ao Portugal Colonial, através da juventude de Aurora (Ana Moreira) e Gian Luca Ventura. Aurora é filha de um indivíduo que, como tantos outros, procurou recomeçar a sua vida em Moçambique, tendo conseguido criar um negócio de sucesso através da exportação de almofadas de pena de avestruz. Aurora cresce, estuda e casa em Angola, onde cria as raízes da sua personalidade. É uma mulher forte e decidida, que vê a sua vida transformar-se quando conhece Gian Luca Ventura (Carloto Cotta), um português que parte para Angola para melhorar a sua vida e conseguindo-o, ao mesmo tempo que vai criando vários laços de amizade com outros portugueses que, tal como ele, se encaminharam para esta província ultramarina na década de 60. Apesar de estar grávida e de ser casada, Aurora não consegue esconder a sua atracção por Gian Luca, e os dois envolvem-se numa paixão ardente e proibida que está fadada a terminar em tragédia. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)





O título “Tabu” remete o Monte Tabu, um local belo, exótico e imaginário localizado em Moçambique, onde Gian Luca Ventura e Aurora viveram uma paixão adúltera que virou assunto “Tabu” na vida de ambos e que marcou para sempre a existência de cada um. Esta paixão ardente, carnal, simples e bela, desafia a moral, a razão e o tempo, não conseguindo deixar ninguém indiferente, tal como será impossível ficar indiferente a “Tabu”, o novo filme de Miguel Gomes, após este ter realizado o elogiado “O Meu Querido Mês de Agosto”. O filme chega às salas de cinema portuguesas após ter conquistado a crítica na 62ª Edição do Festival de Cinema de Berlim e no Las Palmas Film Festival, tendo coleccionado elogios e distinções. Mas o que tanto encantou os críticos neste filme? Tal, não é difícil de perceber. No filme, a candura das imagens em movimento mescla-se com as palavras e os cenários, enquanto nos transportam para um regresso a um tempo ao qual já nunca mais poderemos voltar, através de Aurora, uma senhora idosa com vários problemas, que conta com uma história de vida trágica, dramática e apaixonante. Entre o passado e o presente, “Tabu” apresenta uma viagem pelo passado e pelo presente de Portugal - um passado onde grande parte da população partia em direcção às colónias, em busca da utópica felicidade em pleno, e um presente onde os regressados destes mesmos lugares lidam com as respectivas memórias – ao mesmo tempo que se concentra nas relações humanos e na paixão ardente entre a protagonista e Gian Luca.
A obra apresenta um estilo de filmar muito diferente dos cânones actuais e muito mais próximo dos tempos do cinema mudo, numa obra muito eivada de elementos de Murnau, algo que advém sobretudo da segunda parte do filme, em que Miguel Gomes deixa as imagens tomarem conta das palavras e brinda-nos com uma obra sem diálogos, que conta apenas com as palavras do narrador para relatar aquilo que estamos a ver e aquilo que, muitas das vezes, está invisível. As imagens em movimento mostram-nos ainda as interpretações sólidas de Ana Moreira e Carloto Cotta, um casal carismático que apresenta uma química impressionante. Ana Moreira enche o grande ecrã com o seu talento, carisma e beleza, emanando uma luz muito própria que deixa perceber o encanto que despertou em Gian Luca. Carloto Cotta interpreta um dandy, um indivíduo que apenas ambiciona a felicidade, acabando por se apaixonar por Aurora, uma mulher casada e grávida. Num ano em que Jean Dujardin e Bérénice Bejo foram elogiadíssimos pelos seus papéis em “O Artista”, um filme mudo que conquistou a crítica, Carloto Cotta e Ana Moreira mostram um talento e energia que nada ficam a dever a Dujardin e Bejo.
Se o título de “Tabu” remete para o imaginário Monte Tabu em Moçambique, um local belo e exótico onde se desenrola parte da acção da segunda parte da narrativa, não é menos verdade que este podia remeter para um assunto que parece praticamente proibido na nossa cinematografia, ou que, pelo menos, com ela não mantém a melhor das relações, nomeadamente o da memória do Império Português, a memória do Portugal Colonial que, quer se goste ou não, existiu. Apesar de a presença portuguesa em África ser uma componente importante da sua história, algo ainda hoje perceptível através das relações internacionais próximas que mantemos com muitos destes países, a verdade é que, na nossa filmografia, esse tema raramente foi abordado. Se o caso for a Guerra Colonial, os resultados ainda são mais esporádicos. João Botelho teve “Um Adeus Português”, Manoel de Oliveira teve “Non ou a Vã Glória de Mandar”, Joaquim Leitão teve “Inferno”, José Carlos de Oliveira “Preto e Branco”, entre outros poucos, que não chegam para satisfazer a riqueza temática do conflito e a passagem portuguesa por África. A segunda parte de “Tabu”, não remetendo para os problemas políticos e militares do período, concentra-se sobretudo na vida dos portugueses que por lá habitavam. Esta é a parte do filme que talvez me diz mais. É o regressar às histórias que o meu pai conta sobre Moçambique, com os locais e animais exóticos, com o companheirismo entre portugueses e o saudável convívio com os Moçambicanos, o vestuário, os cenários, os objectos, os modos de agir, longe de tudo o que a história oficial nos conta e que eu estudei.
É verdade que a memória atraiçoa e que, por vezes, temos tendência para reter o que de bom tivemos no passado. No entanto, confesso que dei por mim a imaginar aquelas velhas fotografias cheias de pó que tenho guardadas no armário, a ganharem vida através do filme de Miguel Gomes, fotos que guardam recordações que nunca vivi e que apenas imaginei. Esta situação deve-se, em grande parte, ao facto de o realizador ter incutido na segunda parte do filme um ambiente onírico, habitado por figuras espectrais que representam as recordações do passado, que remete para o “Paraíso”, o título da mesma. Este ambiente onírico mescla-se com as histórias bem reais dos seus personagens e com os cenários naturais de Moçambique, ao mesmo tempo que abre a porta para o perturbador momento em que a Guerra Colonial eclode no território.
“Paraíso” é, muito provavelmente, a parte mais arrebatadora do filme. Arrebata-nos para a paixão entre Aurora e Gian Luca, arrebata-nos para o interior de Moçambique, para o meio dos personagens, enquanto o narrador confere uma relação de proximidade entre a narrativa e o espectador, que imerge para o interior do Mundo onírico criado por Miguel Gomes.
Se a segunda parte transporta-nos para um mundo do sonho, dos locais exóticos, das crenças pagãs, um local quente que desperta paixões mesmo que estas sejam proibidas, a primeira parte reflecte a dolorosa realidade que afecta muitos indivíduos da sociedade contemporânea: a solidão. Aurora é uma sombra do passado. O tempo passou por ela, retirou-lhe a sensualidade e a candura da juventude, despedaçou-lhe alguns dos seus sonhos, deixa-o sem companhia, e, no lugar da mulher que arrebatava corações, ficou uma sombra do seu passado, deprimida e infeliz. No entanto, as memórias do “Paraíso” permanecem. Com uma demência aparente, a sua mente transporta-a para o sonho e liberta-a da realidade a que está presa, confinada ao seu quarto e às recordações. Triste? Sem dúvida. Mas é uma realidade que afecta grande parte da população idosa em Portugal, e que pouca atenção parece merecer pelas autoridades competentes. Aurora não é a única solitária. Pilar, uma recém-reformada que espera por uma rapariga polaca que vinha para Portugal num intercâmbio, acaba por ficar praticamente sozinha com a sua fé e com o seu espírito interventivo, que a leva a participar em várias acções de cariz social e político. A sua única companhia é um pintor tão solitário quanto ela. A vida de Pilar ganha algum sentido com a presença de Aurora, uma senhora idosa que, no interior da sua aparente fragilidade, guarda a história de uma paixão. Juntamente com Santa, estas três mulheres são o paradigma da sociedade actual. Encerradas num universo de isolamento, guardam nos sentimentos as palavras que ficam por falar e deixam-se levar pela tristeza daquilo que poderia ter sido feito e falado.
Este é um filme sobre relacionamentos humanos, seja na primeira parte entre as três mulheres, seja na segunda, concentrada na vida dos vários personagens em Moçambique. Tudo serve para Miguel Gomes apresentar-nos um retrato sobre estes relacionamentos e sobre a forma como o espaço onde cada um habita pode influenciar o seu comportamento. Pelo meio, temos uma vaga abordagem à temática da Guerra Colonial que aparece apenas retratada nas entrelinhas e no final da segunda parte do filme - algo que, certamente, incrementaria o enredo do filme e permitiria ao espectador ter a percepção do episódio que despontou no final da segunda parte.
“Tabu” encerra no seu interior alguns excessos estilísticos de Miguel Gomes, que procura em demasia exacerbar os elementos oníricos da segunda parte do filme, alienando, por vezes, o espectador. Se é verdade que, nalgumas ocasiões, conferem uma candura e beleza às cenas, noutras estas parecem exageradas e longe de servirem a narrativa.
Ao terminarmos de assistir “Tabu”, percebemos o porquê do filme estar a marcar mais uma página prestigiante do cinema português, ao ter recebido várias distinções internacionais, entre as quais o prémio Federação Internacional da Crítica (FIPRESCI), na 62ª Edição do Festival de Cinema de Berlim e o Lady Harimaguada de Plata (para o segundo melhor filme) e o Prémio do Público, ambos no Las Palmas Film Festival. Num ano em que a austeridade parece ser a palavra de ordem em Portugal, Miguel Gomes resolve oferecer-nos uma obra cinematográfica exacerbada de sentimentos, emoções e sonhos. Uma paixão proibida em Moçambique em vésperas da Guerra Colonial, que encontra ecos nos dias de hoje; uma paixão fadada ao fracasso e ao desespero.
Tal como o crocodilo fugia da casa de Aurora em busca de algo que nem este deveria saber o quê, a jovem mulher vê o tempo, os sonhos, a paixão da sua vida fugirem-lhe de forma implacável pelas forças inexplicáveis do destino e pela realidade da vida. Numa das cenas iniciais de “Tabu”, Aurora, consumida pelo tempo e pela vida, salienta que “a vida das pessoas não é como nos sonhos”. Certamente, a nossa vida está longe de ser apenas composta por sonhos, objectivos cumpridos, felicidade. Procuramos uma plenitude inalcançável, que, ao mesmo tempo que nos transporta para o sonho, ilude-nos e traz-nos a desilusão, seja esta na forma de episódios do passado mal resolvidos, de momentos que ficaram por viver, de sonhos que se despedaçaram contra a dura realidade. Obras cinematográficas como “Tabu” de Miguel Gomes têm o condão de transportarem-nos para esse mundo do sonho, um mundo encantado que, longe da realidade e próximo da ilusão, permite-nos fazer sonhar, imaginar e reflectir sobre o Mundo real, ao mesmo tempo que nos transporta para a cruel realidade com toques mordazes e irónicos. Mais do que um filme sobre o Portugal do Império e das colónias, “Tabu” é um filme sobre uma paixão proibida, intemporal, inexequível, um amor que perdurou pelo tempo e que se redescobriu no leito da morte, aquecido pelas doces recordações de Moçambique.

Classificação: 5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Tabu”
Realizador: Miguel Gomes.
Guião: Miguel Gomes e Mariana Ricardo.
Elenco: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Carloto Cotta, Isabel Cardoso, Ivo Müller e Manuel Mesquita.

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