25 abril 2012

Resenha Crítica: "Salvation Boulevard"

O pastor evangélico Dan Day (Pierce Brosnan) ganha a vida como guia espiritual de centenas de pessoas, que seguem a sua Igreja, o seu culto, os seus rituais, oferecem-lhe elevadas dízimas, compram os seus livros e seguem-no de forma quase irracional, mesmo que o seu discurso nem sempre faça muito sentido. Este é o protótipo do líder espiritual aproveitador e charlatão que, um pouco por todo o Mundo, aproveita-se dos crentes, que depositam a sua confiança e as suas poupanças nos seus “role models”. Enquanto os mais fiéis e acérrimos defensores destes líderes tratam-nos quase como deuses, os mais cépticos consideram-nos simples charlatões. Este é o protagonista de “Salvation Boulevard”, o novo filme do realizador George Ratliff, que decidiu deixar de lado o género de terror sobrenatural de “Joshua” e abraçar uma sátira aos cultos religiosos escrita pelo próprio e por Cathy Schulman, inspirados na obra literária homónima da autoria de Larry Beinhart.
Esta dicotomia entre a crença e a descrença é o tema inicial do filme, através de um debate entre o pastor evangélico Dan Day (Pierce Brosnan) e o ateu Dr. Paul Blaylock (Ed Harris), dois indivíduos com ideias antagónicas no que diz respeito à religião, mas que mantêm uma certa cordialidade diplomática. Esta cordialidade leva a que ambos se encontrem após o debate, juntamente com Carl Vanderveer (Greg Kinnear), um ex-“deadhead” que encontrou a “salvação” na igreja de Dan. Este encontro acaba por terminar muito pior do que o inicialmente previsto, quando o pastor decide pegar numa arma, disparando acidentalmente contra o ateu, que entra num estado de coma, deixando o padre com um problema nas mãos: Carl, o seu seguidor, viu tudo o que se passou.
Carl, por sua vez, vê-se numa encruzilhada. Revelar o que viu? Deixar passar em claro o crime de Dan? A resposta para esta indecisão não demora muito tempo, visto que, para encobrir o crime, este acaba por ser assassinado às mãos de Jerry Hobson (Jim Gaffigan), deixando assim que a honra e a reputação do padre continuem imaculadas. O problema é que Jerry não é o mais competente dos assassinos e deixa Carl escapar e, inadvertidamente, encontrar Jorge Guzman De Vaca (Yul Vazquez), um indivíduo meio tresloucado, excêntrico e de má índole que tem em seu poder um vídeo que mostra o disparo de Dan em direcção a Paul. Perante a descrença da família na sua pessoa, a perseguição dos acólitos de Dan e a presença do estranho Jorge De Vaca, Carl terá de iniciar uma insólita jornada para provar que está inocente e demonstrar que Dan não é o homem imaculado que todos julgavam ser. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)




“Salvation Boulevard” apresenta uma premissa bastante interessante, ao procurar desenvolver uma sátira sobre os cultos religiosos através da figura de Dan Day, um pastor evangélico que procura vender a “banha da cobra” ao seu “rebanho”, enquanto procura lucrar bastante com a igreja que dirige. Sejamos crentes ou não, é impossível negar que Dan Day é um charlatão que reflecte, paradigmaticamente, vários líderes espirituais, que pontificam nas igrejas pelo Mundo fora, que ludibriam os fiéis com os seus discursos belos e inócuos, indivíduos que prometem milagres e trazem apenas a ilusão. A Igreja do Terceiro Milénio de Dan Day é, assim, o caso sintomático de uma instituição que apresenta uma faceta muito mais lata do que o âmbito da fé, encontrando no seu interior uma vertente comercial e empresarial, que mescla o lado mais oculto da religião com o mundo mais cínico dos negócios. É uma instituição que encontra reflexo não só nas instituições de cariz religioso da sociedade Norte-Americana, mas também um pouco por todo o Mundo. Onde houver crentes, existirão sempre indivíduos abusadores, que irão procurar aproveitar-se das crenças destes indivíduos na divina providência para conseguirem resolver problemas de difícil resolução, algo que o primeiro terço de “Salvation Boulevard” promete criticar e abordar de forma leve e bem-humorada. Se esta premissa é bastante interessante, a verdade é que ela é raramente desenvolvida, visto que o enredo logo passa a assumir as características de um thriller de humor negro, com o personagem de Greg Kinnear a ter de fugir de todos os seus perseguidores após ter visto Dan a disparar sobre o descrente Paul Blaylock e a ter de provar que Dan não é o indivíduo imaculado que todos pensavam que fosse.
Ao concentrar-se na procura de Carl em denunciar a ilegalidade de Dan e a ter de fugir de Jerry Hobson e de Jorge Guzman De Vaca, o filme perde parte do seu interesse e transforma-se numa comédia de humor negro algo irregular, que oscila entre momentos de bom humor (na maior parte dos casos vindos do desempenho de Jim Gaffigan) e alguns gags sem grande interesse, que ficarão por pouco tempo retidos na memória do espectador, com alguns salpicos de thriller, tudo oferecido ao espectador de forma pouco construída e irregular. Como thriller, o filme falha em conseguir criar um sentimento de perigo em volta do protagonista e em construir uma atmosfera tensa; como comédia de humor negro, falha devido à escassez de elementos humorísticos ao longo do filme, com as excepções da entrada em cena de actores secundários como Jim Gaffigan e Marisa Tomei, e dos desempenhos de Brosnan e Kinnear.
A contrastar com o pálido argumento de “Salvation Boulevard”, encontra-se o desempenho de Pierce Brosnan, Greg Kinnear e Jim Gaffigan. Pierce Brosnan aparece como o anti-Bond, o pastor evangélico Dan Day, um tipo sem princípios que apenas quer aproveitar-se dos outros para poder manter um estilo faustoso, resultado de todo o culto que se gerou em volta da sua pessoa. Brosnan incute no seu personagem um estilo leve, divertido e carismático, que não servem para esconder que a carreira do actor já conheceu melhores dias. A confiança transmitida pelo personagem de Brosnan é antagónica da descrença demonstrada pelo de Greg Kinnear em si próprio. Este é um ex-Deadhead, um antigo rockeiro boémio que procura mudar de vida ao lado da família, encontrando na religião um dos baluartes para seguir em frente com esta mudança. O problema é que esta mudança não é nada facilitada pelo destino, que o coloca a lidar com as mais variadas e bizarras provações e com as mais estranhas figuras. Entre os elementos bizarros que se colocam no caminho de Carl encontra-se Jim Gaffigan como Jerry Hobson, um crente com tendências sociopatas que irá fazer a vida negra a Carl e as delícias do público ao apresentar um estilo deliciosamente perturbador. Diga-se que o elenco é um dos pontos fortes de “Salvation Boulevard”, com George Ratliff a poder contar no elenco secundário com nomes como Jennifer Connely e Ed Harris, que ajudam e muito a obra cinematográfica a sair da monotonia, embora tudo isso não chegue par incutir alguma dinâmica narrativa ao enredo.
“Salvation Boulevard” promete muito ao espectador e, infelizmente, oferece pouco, o que fica indubitavelmente ligado ao facto de desviar-se da temática inicial de apresentar uma sátira aos cultos religiosos para transformar-se numa comédia de humor negro, salpicada com alguns retoques de thriller que nunca o chega a ser. Recheado de boas intenções, o filme realizado por George Ratliff nunca consegue passar de uma sátira inócua que se perde durante o seu desenvolvimento e fica demasiado presa aos desempenhos de Pierce Brosnan, Greg Kinnear e Jim Gaffigan, três nomes que mostram mais uma vez o seu talento, ao conseguir manter algum interesse no enredo do filme. Uma comédia que vagueia entre o vulgar e o engraçado, cuja salvação não vem das orações de Dan Day, mas sim dos desempenhos dos seus protagonistas. É George Ratliff que acaba por assumir, desta forma, o papel do pastor charlatão, ao vender ao espectador a ilusão de algo que não existe, ou seja, uma boa sátira sobre os cultos religiosos.

Classificação: 2 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Salvation Boulevard"
Título em Portugal: “Salvation Boulevard”
Realizador: George Ratliff.
Guião: Douglas Stone, George Ratliff, Larry Beinhart.
Elenco: Pierce Brosnan, Greg Kinnear, Jennifer Connelly, Ed Harris, Marisa Tomei, Isabelle Fuhrman, Ciarán Hinds, Jim Gaffigan.

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