04 abril 2012

Resenha Crítica: "S9 - David Grachat"

Todos, no decorrer das nossas vidas, nos deparamos com dificuldades. Por vezes, conseguimos superá-las; por vezes, somos arrastados pelo derrotismo que parece contaminar o nosso espírito e deixamos as oportunidades passarem ao lado. Outras vezes ainda, tornamo-nos heróis do nosso próprio destino e vencemos. Um dos casos paradigmáticos de um vencedor, com muita dedicação, suor, lágrimas e uma enorme alma é o nadador português David Grachat, um atleta que nasceu com uma malformação congénita no braço esquerdo – o que faz com que este membro seja quase inutilizável –, que detém várias medalhas e records internacionais ao representar a selecção nacional na classe s9 de natação adaptada. Se não conhece esta competição, não se preocupe - certamente não será o único. Este desporto conta com a participação de vários nadadores com deficiências físicas, que desafiam todos os limites para conseguirem competir. Um desporto que desperta uma importância residual nos espectadores e no público, embora sejam atletas que nos enchem de orgulho ao representar a nossa bandeira com querer e vontade próprios de campeões. David Grachat é o principal alvo de estudo e de observação de “S9 – David Grachat”, o documentário de estreia do realizador Felippe Gonçalves, um jovem licenciado em cinema na Universidade da Beira Interior que tem aqui um início bastante auspicioso.
Consciente de que grande parte do público não está familiarizado com o tema, Fellipe Gonçalves escolhe iniciar o documentário com um breve comentário de Jorge Vilela, o vice-presidente da Associação Nacional de Desporto para Deficientes Motores, sobre o estado desta competição em Portugal e sobre os atletas que nela competem. Regra geral, os nadadores chegam à competição em idade adulta, ou seja, como seniores, e têm no desporto uma forma de superar as suas limitações físicas e obter notórios benefícios a nível de saúde. David Grachat começou a competir aos treze anos, uma idade relativamente inferior à média, apesar de o seu empenho, nesta muito jovem idade, ser muito inferior ao que hoje o caracteriza. Aos poucos, Grachat começou a investir na carreira e a tornar-se um caso sério na competição. Tudo é construído com treino, força de vontade, um enorme espírito, muito suor e lágrimas. Ao longo do documentário, somos acompanhados ao treino do atleta, através de alguns depoimentos do treinador Carlos Mota e do investigador em propulsão aquática Daniel Marinho, bem como a alguns momentos de lazer do atleta nos estágios. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)





O caminho para o sucesso não é fácil e exige um grande esforço por parte do nadador, que acumula ainda as funções de estudante. Em períodos de maior intensidade, Grachat chega a efectuar onze sessões de água e cinco sessões de ginásio por semana e, por dia, chega a percorrer distâncias de onze a doze quilómetros. Isto implica vários sacrifícios na vida pessoal, que acabam por ser compensados por tudo aquilo que ganhou em competição. Entre lugares exóticos, amigos que fez e medalhas que venceu, Grachat conhece alguns dos melhores momentos da sua vida, entre os quais a participação nos Jogos Paralímpicos de Pequim, algo que aparece reflectido nas suas palavras: “É um momento inesquecível. Não há palavras para descrever aquele momento, só mesmo vivendo ele. Quando na altura em que estão a apresentar os vários países e estamos a dar a volta de honra e quando chamam por Portugal, mais de 95 mil pessoas num estádio a baterem palmas. Podiam ser para os chineses, mas naquele momento senti que era para nós e isso aí é tudo”.
Para quem não sabe, Grachat compete na categoria de “S9” - o “S” significa "swimming", ou seja, "natação" em inglês, e é usada para os nados livre, costas e borboleta, enquanto a distinção com número nove deve-se ao facto dos atletas serem destacados consoante o seu grau de deficiência (por exemplo, os números 1 a 9 estão destinados a atletas com deficiências motoras, enquanto do 11 ao 13 para atletas com deficiências visuais) - quanto menor for o número, menos comprometida encontra-se a locomoção ou visão do atleta.
Ao longo do documentário, não só somos apresentados ao treino do atleta, mas também aos momentos de maior lazer, nomeadamente nos estágios (e encontros internacionais) que este efectua com os restantes atletas, sendo particularmente engraçados os trechos de confraternização da equipa portuguesa, onde consta Grachat acompanhado pelos elementos da equipa brasileira de natação adaptada na Alemanha. Naquela sala, a concorrência deixa de ter lugar e entra em cena o convívio, um local onde o relacionamento humano supera a competição desportiva e proporciona alguns momentos de grande leveza, em que o pouco à-vontade dos atletas com a câmara parece ser notório na altura de reproduzirem algum comentário sobre o momento.
Ao terminar o visionamento de “S9 – David Grachat”, certamente irá olhar, por várias vezes, para o seu braço e pensar: «será que seria capaz?» É verdade, durante os cerca de quarenta e cinco minutos de duração do documentário, Felippe Gonçalves apresenta-nos a história de um herói real, um indivíduo capaz de fintar o destino graças a si próprio e de competir em alta competição mesmo com uma deficiência que poderia ser impeditiva de tal actividade. Curiosamente, os seus esforços são praticamente desconhecidos, a par de muitos atletas paralímpicos medalhados que vêm o seu regresso vitorioso a Portugal ser alvo de pequenos artigos no fundo das últimas páginas dos jornais. Ao dar atenção a uma temática tão desprezada a nível desportivo e social em Portugal, Felippe Gonçalves incorpora no seu trabalho uma relevância inesperada e salutar, num trabalho de um jovem realizador que surpreende pela sua segurança com a câmara na obra cinematográfica de estreia.
“S9 – David Grachat” reflecte o esforço e dedicação do seu protagonista em ser um atleta de alta competição. Não pense, no entanto, que o documentário irá procurar criar sentimentos de pena em relação a Grachat. Ao longo do filme, somos apresentados a todo o ambiente que envolve o desporto de alta competição, nomeadamente os vários métodos de treino que o nadador tem de seguir e a forma como este é acompanhado pelos seus colegas e treinadores. A natação é a vida deste atleta, que assumiu um compromisso com o desporto que o levou a abdicar de várias actividades de lazer e convivência para triunfar no desporto. Vamos igualmente acompanhando as várias fases do seu treino até chegar ao momento de competição e, ao mesmo tempo, entrevemos o relacionamento do desportista com os outros atletas e com o treinador. Ao optar por recolher vários dos testemunhos daqueles que rodeiam Grachat, nomeadamente, o treinador Carlos Mota, o documentário consegue explicar ao espectador várias das etapas que acompanham o treino da natação em alta competição e, assim, elucidá-lo sobre a temática. Muitas das vezes, acompanhados por trechos dos treinos de Grachat, estes depoimentos enriquecem com as palavras aquilo que as imagens em movimentos evidenciam, expondo o quotidiano de um atleta de alta competição que, para além de ter de desafiar-se a si próprio para superar-se fisicamente todos os dias, ainda tem de lidar com uma deficiência que dificulta a sua tarefa, mas que não abala o seu sonho. O próprio protagonista detém um papel muito importante para o documentário resultar. Os comentários que este vai elaborando ao longo da película, a sua força de vontade no treino e a boa disposição nos momentos de lazer (em que parece esquecer-se da presença da câmara de filmar) fazem com que se torne uma figura que facilmente encontra uma ligação com o espectador, que rapidamente começa a interessar-se pela sua história e a perceber o porquê de Felippe Gonçalves ter visto no atleta uma vida digna de ser objecto de um documentário.
Informativo, dinâmico e bem construído, “S9 – David Grachat” tem um único senão: por vezes, parecem faltar momentos de competição. O documentário procura concentrar vários dos esforços em explanar as várias etapas do treino e do quotidiano de Grachat, até chegar à competição, acabando, por vezes, por descurar aquele que seria o tempero – sob a forma da emoção dos elementos competitivos, que tanto enriqueceriam a obra - que permitiria a este documentário chegar a um patamar de excelência.
Grachat é um vencedor. Em cada segundo que passa e ultrapassa as adversidades que vai defrontando, este vence o próprio destino, as suas dificuldades, a sua malformação congénita. O momento em que entra na piscina é de ardor intenso; não é apenas o treino que está ali presente, são pedaços da sua alma, que nutre um desejo infindável de vencer e de triunfar contra todas as expectativas. Prestes a participar nos Jogos Paralímpicos de Londres 2012, David Grachat certamente sonha em trazer para casa uma medalha e ter o seu momento de catarse. Visto "S9 – David Grachat", ficamos com a pergunta: será mesmo necessário a Grachat trazer uma medalha para ser um vencedor? Ou não, será este um dos grandes exemplos em que a alma é maior que o corpo, tornando-se num exemplo para todos os outros, sejam estes portadores de deficiências, ou não. Um documentário humano e inspirador, sobre um atleta com uma malformação congénita no braço esquerdo que não o impediu de ser um vencedor no mundo do desporto. Um exemplo de bravura e coragem, num herói que é humano e que tem como único poder o espírito de sacrifício e a vontade.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “S9 – David Grachat”
Realizador: Felippe Gonçalves.
Produção: Felippe Gonçalves.
Operadores de Câmara: Felippe Gonçalves, João Mangueijo.
Dir. de Som e Fotografia: Cristiano Guerreiro e Goncalo Franco,
Elenco: David Grachat, Jorge Vilela, Carlos Mota, Daniel Marinho, Leila Marques, Esther Morales e o Emanuel Goncalves.

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