12 abril 2012

Resenha Crítica: Linha Vermelha (2012)

No dia 23 de Abril de 1975, a Quinta da Torre Bela, propriedade do Duque de Lafões, é ocupada por um grupo de trabalhadores rurais que habitavam em algumas das aldeias circundantes do local. Estávamos num dos períodos mais conturbados do pós-25 de Abril de 1974, o denominado PREC (Processo Revolucionário em Curso), no qual a sociedade portuguesa parecia estar mais dividida do que nunca em relação a que destinos dar ao País. O episódio da tomada da propriedade do Duque foi um exemplo da agitação e desordem da altura, tendo chamado a atenção do povo português, sobretudo por ter sido captado por Thomas Harlan, um cineasta alemão que veio para Portugal durante o denominado “Verão quente” para filmar a revolução. Os seus objectivos iniciais, contudo, acabaram por ser alterados, e este acabou por decidir filmar os episódios que estavam a ocorrer na Quinta da Torre Bela, onde um conjunto de revoltados desconhecidos que pretendiam melhorar as suas condições de vida decide tomar a propriedade e formar uma cooperativa, produzindo, por fim, o documentário “Torre Bela”. Mais de três décadas e meia depois, José Filipe Costa decidiu revisitar esta emblemática obra cinematográfica e perceber não só a forma como todos os elementos da sua produção interagiram na elaboração da mesma, mas também as ramificações que este episódio teve na vida dos seus protagonistas. O resultado foi “Linha Vermelha”, a sua obra mais recente após a realização da curta-metragem “A Rua”.
“Linha Vermelha” começa por apresentar-nos o realizador germânico Thomas Harlan, filho de Veit Harlan (conhecido por ter realizado o filme anti-semita nazi “Jud Süss”), ex-líder da Juventude Hitleriana, que decidiu viajar para Portugal para filmar a Revolução que ocorria pelo território fora, acabando por ficar preso aos acontecimentos que ocorreram na Quinta da Torre Bela, na qual um grupo de trabalhadores rurais, muitos deles analfabetos, regressados do Ultramar, desempregados, decidiram tomar a propriedade e formar uma comunidade cooperativa (algo utópica) em que o eu e o tu não importavam, mas sim o colectivo. Enquanto em todo o país se falava da revolução, estes homens tomavam decisões e lutavam pelos seus direitos, sobressaindo desta iniciativa a figura de Wilson Faustino Filipe, um dos elementos mais activos da colectividade, que acabou por ser elevado a herói nacional no documentário do realizador alemão, a ponto de, muitas das vezes, se assemelhar ao herói de um filme de intervenção, acabando por fazer lembrar outros tantos deste período. Mas será que a câmara de Harlan não terá tido influência no desenrolar de todo este episódio? Será que o realizador não se terá tornado actor do acontecimento? (clicar em mais informações para ler a crítica completa)





Ao longo de todo o documentário, José Filipe Costa recorre aos depoimentos de vários dos intervenientes na elaboração do documentário “Torre Bela”, entre os quais o realizador Thomas Harlan, o montador Roberto Perpignani, os cooperadores Wilson Faustino Filipe, Camilo Mortágua e José Rabaça, o militar Luís Banazol, Fátima Martins (a neta de uma das ocupantes), entre outros. Os depoimentos em questão caracterizaram-se não só pela informação bastante rica que nos forneceram sobre “Torre Bela” e todos os episódios que circundaram a tomada de posse do local e a fabricação do documentário, mas também pela forma como mostra todas as contradições inerentes à iniciativa, acabando por revelar que houve, de facto, alguma encenação nas atitudes tomadas, não tanto de forma intencional, mas sim provocada pela própria presença da câmara, que acaba por ter um papel importante na forma como os intervenientes, perante a mesma, reagem. Os comentários sobre o episódio variam de interveniente para interveniente; cada um tem uma maneira muito própria de contar os actos que testemunharam, demonstrando mais uma vez que o que chegou ao espectador no documentário de Thomas Harlan foi uma visão do realizador e da equipa criativa (e não o “real”, “o acontecimento filmado em directo”), verificando-se igualmente a importância que “Torre Bela” teve na construção das memórias destas pessoas.
Mas terá Harlan influenciado alguns dos acontecimentos e tornado o episódio da tomada daquela propriedade latifundiária ribatejana num filme seu? Hoje, esta consideração parece-nos mais ou menos clara, e vemos o próprio cineasta confirmar este facto em “Linha Vermelha”. O realizador alemão interveio mesmo em alguns dos episódios, tendo procurado transformar os ocupantes nos protagonistas do seu filme, manipulando em certa parte as imagens em movimento e, assim, dando ao espectador uma visão muito própria dos acontecimentos que estavam a decorrer. Torna-se, enfim, claro que Harlan pretende participar na história e desencadear os acontecimentos que, posteriormente, seriam captados; mais do que filmar a história a acontecer, este pretendia “fazer história”.
Tal situação faz com que alguns comentários - como os que foram efectuados por João Lopes, salientando que “[Torre Bela] mais do que em qualquer outro caso, trata-se muito claramente de ir ao encontro dos acontecimentos, de os registar ao vivo, em toda a sua diversidade e complexidade” e até por José Manuel Costa: “Todas as contradições que estavam vividas dentro do próprio grupo estão no filme e não estão a ser subjugadas por um discurso que tenta interpretar ou ler imediatamente o que estava a acontecer” – pareçam, nos dias de hoje, algo precipitados, embora não deixem de ser acertados. Acontece que, apesar de não se poder dizer que estejam totalmente errados, pois “Torre Bela” é um dos documentários mais emblemáticos do período posterior ao 25 de Abril, torna-se claro, hoje em dia, que o discurso dos personagens, bem como os respectivos actos, foram condicionados por Harlan e pela sua câmara. É impossível captar o real, e “Torre Bela” é a prova disso mesmo.
Em “Linha Vermelha”, José Filipe Costa consegue desconstruir alguns dos mitos criados em tornos do documentário “Torre Bela” e da tomada de posse do território, demonstrando todas as ambiguidades presentes na elaboração de um documentário. Serão estes heróis os oprimidos, ou os opressores? Será legítimo expropriar esta propriedade? A lei, certamente, não o permitiria, e isso ficou claro quando os militares rejeitam apoiar publicamente a ocorrência, apesar de incitarem a ocupação, contra a qual não seria tomada qualquer acção. Como o militar Luís Banazon salienta: “Vocês ocupam e a lei há de vir. Vocês têm de fazer as vossas próprias leis!”. Curiosamente, para abordar a temática, José Filipe Costa recorre a um debate desenvolvido entre um grupo de alunos da escola EBI de Manique, do Intendente, sendo visível o desconforto entre os mais novos ao se aperceberem de que tanto a revolução como os movimentos revolucionários encerram, no seu interior, um conjunto de dicotomias muitas vezes difíceis de ultrapassar. E são precisamente estas dicotomias que o realizador vai expor ao espectador, deixando-lhe a tarefa de reflectir sobre as mesmas. A revolução e os movimentos revolucionários não ocorrem de forma linear como muitas vezes os agentes históricos nos querem fazer parecer. Neste sentido, o episódio da “Torre Bela” é um exemplo paradigmático de que toda e qualquer revolução acaba por inserir no seu interior alguma violência, seja esta física, moral, psicológica ou social, considerada, por vezes, como um “mal necessário” para a alteração do status quo.
Mas o que terá acontecido aos protagonistas de “Torre Bela”? Por onde andarão agora essas massas anónimas que se revoltaram contra o referido status quo? “Linha Vermelha” apresenta-nos igualmente vários dos protagonistas deste episódio, trinta e seis anos depois da realização do documentário original – entre outros, Wilson perdeu a sua aura de estrela revolucionária, tendo-se transformado num pacato vendedor de camiões; Camilo Mortágua trabalhou como funcionário do Ministério da Agricultura em Moçambique; José Rabaça tornou-se professor do ensino secundário.
Os episódios ocorridos na “Torre Bela” nem sempre trazem aos seus intervenientes gratas recordações, algo que Wilson faz questão de salientar: “para algumas pessoas, é melhor dizerem que não estiveram na Torre Bela, porque se querem desmarcar do que aconteceu à trinta anos atrás”. Entre memórias perdidas, vergonha pelos actos do passado e algum orgulho pelo papel que tiveram na revolução, muitos dos intervenientes acabaram por recorrer ao documentário de Harlan para se apoiarem no relato dos factos, algo que levou Costa a alterar o rumo inicial da elaboração de um documentário sobre o episódio histórico em si, para realizar um documentário sobre o documentário, e, assim, expor todas as limitações e virtudes de um filme do género, sem nunca descurar, no entanto, o valor histórico de “Torre Bela”.
Pode parecer, a nível inicial – no documentário de Harlan –, após o furto de vários objectos alheios à sua posse, que os revolucionários não passavam de saqueadores. Mas será que eram mesmo? Não passariam, ao invés, de um grupo de crianças adultas, que, pela primeira, vez estavam na posse de “brinquedos” com os quais se pudessem divertir? Nada é linear em “Torre Bela. A verdade que as imagens em movimento transmitem não passa de uma construção do real, o qual é condicionado, e muito, pela acção dos seus intervenientes.
Apesar de rico em conteúdos, “Linha Vermelha” perde-se, por vezes, em pormenores que possam passar despercebidos a quem não tenha visionado “Torre Bela” (seria uma interessante experiência poder visionar os dois documentários de seguida e ver como ambos se complementam na perfeição), ou, pelo menos, a quem não esteja familiarizado com os episódios emotivos que rechearam os acontecimentos em questão. Esta situação poderá, ocasionalmente, distanciar o espectador menos preparado contextualmente. Tal, todavia, não é essencial para retirar o interesse presente no documentário, que certamente despertará a atenção do espectador, motivando-lhe o desejo de pesquisar e de se informar sobre a temática.
José Filipe Costa tem em “Linha Vermelha” o culminar de uma vasta investigação, que ainda encontra reflexo em vários textos publicados sobre a temática, bem como em várias conferências e apresentações. “Torre Bela” acaba por representar, paradigmaticamente, todas as limitações possíveis de encontrar nos documentários, aprofundado ainda a perversidade da acção do tempo na lembrança de acontecimentos marcantes do passado. Nada que surpreenda, Thomas Harlan pretende apresentar-nos a sua visão dos acontecimentos, tornando-se, simultaneamente, no protagonista da ocupação, transformando o palco da mesma no seu filme e os respectivos intervenientes como seus actores. “Linha Vermelha”, o documentário de José Filipe Costa, funciona assim como um importante complemento a “Torre Bela”, revelando-se, ao mesmo tempo, como um filme independente e muito informativo, que certamente interessará os fãs de documentários e os interessados no cinema português. Mais do que procurar efectuar uma nova abordagem ao documentário de Harlan, Costa procura expor ao espectador a forma como o cinema pode funcionar como um veículo de construção da memória, mesmo que as memórias filmadas nem sempre correspondam à realidade, num documentário com várias camadas, suscitador das mais diversas reflexões nos espectadores. A certa altura de “Linha Vermelha”, Wilson comenta a Quelhas que “Tudo isto é da cooperativa. Não é meu, nem teu, é da cooperativa (…) Tu não ficas nu, tu ficas com mais roupa que a que tens!”. Ao terminar de visionar “Linha Vermelha”, o espectador certamente ficará com mais conhecimento sobre “Torre Bela” e sobre todos os acontecimentos que rodearam a tomada da propriedade e a elaboração do filme, num documentário que “não é meu, nem teu” - é de todo o público português.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Linha Vermelha”.
Realizador: José Filipe Costa
Elenco: Alda Virgílio, Angélica Rodrigues, Camilo Mortágua, Eduarda Rosa, Fátima Martins, grupo de alunos da EBI de Manique do Intendente.

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