26 março 2012

Resenha Crítica: Vergonha (2011)

We're not bad people. We just come from a bad place.

O primeiro dia do mês de março marcou a estreia em Portugal do muito aguardado “Shame”, a segunda obra cinematográfica de Steve McQueen, que depois de “Hunger” nos volta a trazer um filme ousado, perturbador e inteligente, contando desta vez com a ajuda do argumentista Abi Morgan, com quem escreveu o guião a meias. A obra tem como protagonistas Michael Fassbender, que volta a repetir a parceria com McQueen após a fenomenal interpretação em “Hunger”, e Carey Mulligan, que já demonstrara o seu talento em obras como “An Education” ou “Drive”. Entre os actores secundários destacam-se Nicole Beharie e o muito talentoso James Badge Dale.
Fassbender interpreta o protagonista da história, Brandon Sullivan, um indivíduo constantemente obrigado a lidar com um vício degradante em sexo, dependente da obtenção, seja por que meio for, do clímax do orgasmo, que, no entanto, consegue controlar através de uma rotina bem estabelecida baseada nas relações sexuais casuais, através da prostituição ou do engate, e na masturbação, permitindo-lhe ter uma vida estável o suficiente para desempenhar uma carreira profissional como um empresário muito capaz numa companhia que parece estar bem financeiramente. Além disso, o seu charme natural permite-lhe safar-se com alguma facilidade junto do público feminino. A sua vida é abalada quando, inesperadamente, a sua irmã, Sissy se intromete na sua vida, convencendo-o, a custo, a deixá-la instalar-se temporariamente no seu apartamento.

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Os pormenores sobre a vida desta são obscuros. Vamo-nos apercebendo, a espaços, que ao contrário do irmão, Sissy tem uma mente instável e tempestuosa, o que se reflecte não apenas na falta de rumo da sua carreira profissional como cantora, mas também na interpretação das suas canções, de forma intensa e profundamente melancólica. A convivência de Brandon com a instabilidade da irmã, bem como a relação agitada entre ambos, a oscilar entre momentos de afecto e de tensão, irá fazer desmoronar aos poucos o controlo e a rigidez que este impusera à sua vida, pondo em evidência a fragilidade psicológica que este procurava esconder não apenas dos outros, mas também de si próprio. Com o seu vício a descoberto, vamos assistindo ao acentuar do desespero e da angústia da personagem, motivados por um decadente sentimento de vergonha, à medida que procurar satisfazer e, ao mesmo tempo, combater uma necessidade sexual que, no fundo, controla imperiosamente a sua vida.
Para acentuar as emoções das personagens e a ligação entre estas e o espectador, Steve McQueen recorreu não apenas a vários pormenores subtis aqui e ali, que nos dão umas achegas sobre a mentalidade e comportamento dos dois irmãos, mas também à extensão de algumas cenas - muitas delas acompanhadas da formidável banda sonora a cargo Harry Escott, a variar entre a música clássica e a pop - a maior parte das quais tão perturbadoras e impactantes que delas não conseguimos desviar o olhar, levando a que sintamos e compreendamos de forma intensa o calvário que Brandon e Sissy atravessam ao longo da película.
O realizador, além disso, escolheu passar para segundo plano detalhes que, noutros filmes, seriam provavelmente aprofundados, o que, em retrospectiva, acaba por ser uma escolha sensata e aproveitada com muita sensatez. Desconhecemos as relações pessoas de Brandon, os contornos específicos do seu trabalho ou sequer se é bem ou mal remunerado, pois tais pormenores, para Brandon, são irrelevantes. É o vício que o governa; é ele que controla as suas relações pessoais e é para o satisfazer que Brandon gasta os seus rendimentos. O mesmo sucede relativamente ao passado das personagens, sobre o qual não sabemos quase nada, excepto um ou outro pormenor, misterioso e aberto a interpretações, com o qual o espectador vai sendo confrontado. Todavia, se, por um lado, somos deixados no escuro sobre os antecedentes dos dois irmãos, por outro, conhecemos e sentimos, melhor do que ninguém, as repercussões de uma infância negra e violenta na vida presente das personagens – e é precisamente a elas que McQueen pretende dar o protagonismo do filme, antes de outro qualquer pormenor.
Para tal premissa resultar, o realizador necessitava de dois actores talentosos, que conseguissem incorporar as emoções das personagens com muita intensidade e, ao mesmo tempo, suscitar a empatia do público. Como tal, a escolha de Michael Fassbender não foi propriamente surpreendente, uma vez que o actor já fora dirigido por McQueen em “Hunger”, onde demonstrara que tem tanto de carisma como de talento, ao interpretar de forma assombrosa o irlandês Bobby Sands. No entanto, ao contrário do sofrimento de Sands, motivado por uma causa pela qual este estava disposto a morrer, a dor de Brandon é incontrolável e desesperante, causando um devastador conflito interior que é interpretado com uma mestria e naturalidade extraordinárias. Carey Mulligan, por sua vez, teve um papel mais secundário, mas não menos exigente. A jovem actriz, que conta já com um currículo respeitável, construído à base de excelentes interpretações, demonstrou mais uma vez o seu enorme talento, ao interpretar uma rapariga excêntrica e desequilibrada, capaz de absorver o espectador mesmo quando a atenção do enredo está focada exclusivamente nela própria. A Nicole Beharie e James Badge Dale, por fim, não são exigidos desempenhos particularmente exigentes, devido à secundarização das personagens que interpretam – introduzidas no enredo para nos dar a conhecer alguns contornos da psique de Brandon e Sissy – mas estiveram igualmente em bom plano, não comprometendo.

O visionamento de “Shame” acaba por ser uma experiência muito singular, capaz de absorver o espectador e fazê-lo sentir de forma crua e impactante as várias emoções que atormentam as personagens do início ao fim da película. É uma obra ousada e construída com muita inteligência, cujo mérito cabe, sobretudo, a Steve McQueen, que transmitiu sem receios ou limitações a visão de uma história que, noutras mãos, poderia correr perigosamente mal, sem esquecer Michael Fassbender e Carey Mulligan, que asseguram e acentuam uma profundidade invulgar aos sentimentos dos respectivos protagonistas. Na recta final do filme, Sissy pronuncia as seguintes palavras ao irmão: «We’re not bad people. We just come from a bad place»; é uma frase paradigmática, que caracteriza de forma perfeitamente válida a obra em questão: por um lado, é uma das diversas subtilezas que, discretamente, criam no espectador a percepção de uma sombra de um passado obscuro e doloroso que, anos depois, continua a atormentar as personagens; por outro, reflecte a essência da história – a luta de dois irmãos, que procuram não apenas lidar um com o outro, mas também com eles próprios, num filme onde a fragilidade e o desespero interior dos protagonistas adquire uma maior relevância em detrimento de qualquer outro elemento.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha Técnica

Título original: Shame
Título em Portugal: Vergonha
Realizador: Steve McQueen
Guião: Steve McQueen e Abi Morgan
Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, Nicole Beharie, James Badge Dale, entre outros.

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