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01 Março 2012

Resenha Crítica: Ghost Rider: Espírito de Vingança (2012)

Todos os anos estreiam nas salas de cinema várias obras cinematográficas inspiradas em super-heróis famosos de livros de banda-desenhada. Uns com mais sucesso do que outros, na generalidade dos casos acabam por ser lucrativos e gerar receitas interessantes para os estúdios, que logo começam a desenvolver sequelas, independentemente da vontade dos cinéfilos. A mais recente é “Ghost Rider: Espírito de Vingança”, realizada por Mark Neveldine e Brian Taylor, através do argumento de Scott Gimple, Seth Hoffman e David S. Goyer. Inspirado no popular personagem da série de comics criada por Gary Friedrich, Roy Thomas e Mike Ploog, o filme segue levemente os eventos da película original, “Ghost Rider”, realizada por Mark Steven Johnson.
A nova obra do popular personagem da Marvel não poupa grande tempo a apresentar personagens ou a fazer introduções. Começamos logo por saber que Johnny Blaze se encontra na Europa do Leste a tentar lidar com a sua maldição, ou seja, a tentar controlar o demónio que está no seu interior, que teima em sair extemporaneamente para eliminar todas as almas demoníacas que lhe surjam pelo caminho. Quando o padre Moreau (Idris Elba) o incumbe de salvar um jovem rapaz das mãos dos homens de Roarke, mais conhecido como o Diabo (Ciarán Hinds), concedendo, assim, a Blaze a oportunidade de obter de volta a sua humanidade, este aceita a missão.
Curiosamente (ou talvez não), o rapaz, Danny, é filho do “belzebu”, fruto de um acordo entre a sua mãe, Nadya (Violante Placido), e a referida entidade associada às trevas. Movido pelo desejo de libertar-se do demónio que o atormenta, Johnny terá de proteger Nadya e o filho dos malévolos homens de Roarke, entre os quais o perigoso Carrigan (Johnny Whitworth). Roarke conta com um vasto conjunto de aliados na Terra, que são o resultado dos constantes acordos que este faz com alguns seres humanos sedentos por poder que vão fazer de tudo para capturar o filho do seu líder e fazer algo que não sabem lá muito bem o que é.
Ao lado de Nadya e de Moreau, Johnny Blaze tem de procurar vencer todas as adversidades encontradas pelo caminho, salvar Danny, a Terra e procurar livrar-se da maldição que o acompanha desde que efectuou um acordo com o Diabo para salvar o pai. Pelo caminho irá encontrar muitas adversidades, mas serão suficientes para derrubar o famoso Motoqueiro? (clicar em mais informações para ler a crítica completa)





Com uma receita de bilheteira a rondar os 228 milhões de dólares a nível mundial e com críticas maioritariamente negativas, “Ghost Rider” acabou por conhecer uma nova adaptação ao grande ecrã com “Ghost Rider: Espírito de Vingança”. Antes do filme iniciar, coloquei a mim próprio a questão sobre a necessidade da realização de uma sequela do personagem, uma questão que se mantém mesmo após o seu visionamento. Não que Mark Neveldine e Brian Taylor tenham efectuado um péssimo trabalho, mas a verdade é que a obra não acrescenta nada à história de Johnny Blaze e pouco enriquece mitologia do primeiro filme (que, diga-se, não era assim tão rica quanto isso).
Apesar de tudo, não é menos verdade que se nota a “mão” de Mark Neveldine e Brian Taylor ao longo da obra. A dupla conhecida pelo estilo de acção violenta e algo non sense de películas como “Crank” e “Gamer” mostrou o porquê de ter sido escolhida para o novo capítulo da saga, após a produção ter entrado num impasse que ameaçou perigar o seu desenvolvimento. Nesse sentido, ao invés de termos o desenvolvimento do romance entre Johnny Blaze e a personagem de Eva Mendes (que está ausente da sequela) e do respectivo drama familiar, temos sim uma história amplamente centrada na acção de Blaze como Ghost Rider, que foca a forma como este utiliza a sua “maldição” para combater as entidades demoníacas. A dupla de realizadores, em conjunto com os argumentistas, livrou-se das várias camadas que poderiam incutir alguma coesão e densidade ao enredo para se focarem apenas na acção, algo que transforma o filme numa obra inferior a “Ghost Rider”, o que parecia inicialmente impossível. Assim, temos várias cenas de acção efectivamente bem conseguidas (apesar de alguns efeitos especiais deixarem a desejar), onde a dupla utiliza o personagem de Ghost Rider para desenvolver as mais loucas cenas de acção, mescladas com uma banda-sonora emotiva que promete entusiasmar o público.
Entre explosões, pancadaria e fogo por tudo quanto é lado, temos um filme da Marvel que parece tudo menos o que estamos habituados a ver nos últimos tempos nas obras cinematográficas do estúdio, e esse sim é um dos factores a jogar a favor da sequela de “Ghost Rider”. “Iron Man”, “Thor” e “Captain America: The First Avenger” foram utilizados pela empresa como um conjunto de prequelas que introduzem “The Avengers”. “Ghost Rider: Espírito de Vingança” rompe com isso e, pela primeira vez em muito tempo, encontramos um filme da Marvel sem Samuel L. Jackson como Nick Fury. Há que mencionar, todavia, que ao romper com a fórmula mais séria de apresentar os super-heróis, Neveldine e Taylor acabam por proporcionar uma obra demasiado irregular e insonsa, mais próxima de “Jonah Hex” do que dos seus trabalhos anteriores.
Johnny Blaze é novamente interpretado por Nicolas Cage, um actor cuja carreira é marcada por uma incoerência gritante, onde junta o bom, o mau, o péssimo e o regular. Em “Ghost Rider: Espírito de Vingança” temos o Nic Cage regular, que não entusiasma mas não compromete, sendo a escolha ideal para interpretar o protagonista. Para além de partilhar com Blaze a fraca habilidade para efectuar contratos (só assim se explica que tenha protagonizado este filme), Cage confere ainda um estilo bem-humorado ao personagem ao perceber aquilo que todos entendemos: o filme não deve ser levado a sério. Cage perdeu a companhia da bela Eva Mendes mas ganhou a de Violante Placido como Nadya, uma mulher que teve um filho do Diabo após ter efectuado um acordo com este. A relação entre Nadya e Johnny Blaze nunca atinge o nível de desenvolvimento da relação entre o motoqueiro e Roxanne, deixando assim de lado uma parte importante do enredo de primeiro filme, introduzindo, ao invés, outra mais simples e menos dramática.
Ao longo do filme, estes dois, na companhia de um desaproveitado Idris Elba, viajam pelos diversos locais da Roménia e Turquia, enquanto procuram salvar o filho de Nadya. Os cenários dos países em que o filme foi filmado foram devidamente aproveitados pelos cineastas, embora diga-se, a bem da verdade, que o espectador nunca saiba bem onde se desenrola a acção ao certo, visto que os chamados plot holes são o “prato da casa” do filme.
No final da obra ficamos com a amarga sensação de que algo mais poderia ter sido feito em “Ghost Rider: Espírito de Vingança”. As cenas de acção são bem conseguidas, embora não deslumbrem, mas sem um enredo minimamente coeso perdem o interesse, visto serem momentos avulsos e desprendidos de sentido que têm como ponto alto o herói a pegar fogo a tudo onde toca, ao mesmo tempo que descobrirmos, finalmente, que este urina fogo (esta é provavelmente a única adição relevante do filme, o que diz muito sobre o seu enredo). Se o primeiro filme exagerava no melodrama da situação de Blaze enquanto o colocava num conflito ardente com o Diabo, em “Ghost Rider: Espírito de Vingança” temos apenas muita acção e um enredo fraco, que depende essencialmente de Nicolas Cage para não cair no descrédito total.
“Ghost Rider: Espírito de Vingança” exacerba a pirotecnia e os efeitos especiais em detrimento de um argumento coeso, algo que não engrandece a obra mas que também não a diminui a níveis colossais. Quem assiste ao filme já sabe antecipadamente o que o espera: explosões, acção a rodos, pancadaria e um Nicolas Cage mais canastrão e carismático do que nunca, num filme deliciosamente mau e incrivelmente apelativo, onde a acção é frenética e entusiasmante, mas desprendida de sentido e sem qualquer lógica. A certa altura do filme, Danny pergunta a Johnny Blaze: “Hey, what if you have to pee while you're on fire?”. Pelo menos a essa questão tivemos resposta. Mas seria preciso hora e meia para a aprender?


Classificação: 4 (em 10)

Ficha técnica:
Título Original: Ghost Rider: Spirit of Vengeance.
Título em Portugal: Ghost Rider: Espírito de Vingança.
Realizador: Mark Neveldine e Brian Taylor.
Guião: David S. Goyer, Scott M. Gimple, Seth Hoffman.
Elenco: Nicolas Cage, Violante Placido, Ciarán Hinds, Idris Elba, Johnny Whitworth, Christopher Lambert.

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