06 março 2012

Entrevista a Vicente Alves do Ó sobre "Florbela"

É já no próximo dia 8 de Março que "Florbela", o filme sobre a poetisa Florbela Espanca estreia nas salas de cinema portuguesas. Realizado por Vicente Alves do Ó, através de argumento do próprio, o filme conta com um elenco de caras bem conhecidas, entre as quais Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerónimo, entre muitos outros. É com uma enorme satisfação e honra que vos apresento a entrevista que efectuámos ao realizador Vicente Alves do Ó, no âmbito da divulgação de "Florbela". As respostas surpreenderam-nos pela positiva e reflectem a segurança que o realizador apresenta ao longo dos trabalhos efectuados na sua carreira. Aproveito ainda para agradecer a amabilidade de Miguel Stichini da Ukbar Filmes que tornou possível esta entrevista.

Rick´s Cinema: Caro Vicente Alves do Ó, agradecemos desde já a sua disponibilidade para conceder uma entrevista ao Rick´s Cinema. É uma honra poder estarmos a fazer-lhe estas perguntas. Como surgiu a ideia para desenvolver um projecto sobre Florbela Espanca?

Vicente Alves do Ó - O prazer é todo meu. O projecto da Florbela nasce dum preconceito. Relativamente à sua pessoa e à sua poesia. Nasce do esquecimento e da ignorãncia. E nasce, também, da vontade de devolvê-la a um mundo que pode rever-se nela: a sua inquietação, a sua fme de infinito e a sua coragem de mudar e fazer aquilo que quer. A Florbela , de repente, era e é uma portuguesa extremamente contemporãnea e percebi que era um motivo excelente para fazer um filme sobre nós e para nós – portugueses.

Rick´s Cinema: O processo de elaboração de um argumento e o posterior desenvolvimento ao grande ecrã é um processo sempre muito complicado. Poderia falar-nos um pouco do desenvolvimento do projecto? Quais foram as maiores dificuldades que encontrou?

Vicente Alves do Ó - A primeira fase de investigação correu muito bem. Aliás, bem demais. Adoro ler, adoro imaginar o que estou a ler. A vida da Florbela abria-se como um mundo de possibilidades. A parte mais complicada vem depois, quando temos que decidir que filme ou argumento queremos fazer. Eu sabia duas coisas á priori: não queria fazer um biopic, nem queria fazer um filme com poemas. Porquê? Porque isso seria o caminho mais óbvio e mais fácil e duvido que, usando as duas possibilidades, pudesse sequer aproximar-me daquilo que realmente me interessava: a mulher e criadora. No meio de todas as informações, contradições, descobri aqueles quatro dias misteriosos em que ninguém sabe o que aconteceu – e no meio daqueles quatro dias tinha dois pólos altamente dramáticos ­– ela não andava a escrever e o irmão morre pouco tempo depois. Percebi que aquela era a oportunidade perfeita para me aproximar do mistério e, de alguma forma, viajar com a Florbela, na sua vida, nos elementos preponderantes que faziam parte da sua personalidade. Quando percebi isso e decidi que seria a Dalila a fazer a poeta, tudo se tornou mais fácil novamente. Eu “vivo” o que escrevo – como se não existisse mais nada à minha volta. Mergulho na escrita como uma febre e só saiu de lá quando acabo.

Rick´s Cinema: “Florbela” aborda um período algo dramático da vida de Florbela Espanca, um período em que esta parou de escrever os seus belos poemas e procurou conter inicialmente os seus ímpetos. Considera este o período ideal da vida de Florbela para retratar no grande ecrã? Como acha que o público irá receceber o seu retrato sobre a poetisa?

Vicente Alves do Ó - Um filme biográfico tornou-se num amontoado de acontecimentos, ou seja, assistimos passivamente à história de vida da personagem. E com tantos acontecimentos corremos o risco, o pior dos riscos: ficamos a saber os passos dela, mas desconhecemos em absoluto o que ela é ou pode ser. Não quis perder tempo com informações que qualquer pessoa pode ler na internet ou num livro – queria sim, criar um elo emocional com uma personalidade histórica, o que é sempre difícil. Como as pessoas irão receber? Não sei. Cada olhar é um mundo. Muita gente irá à procura de confirmar aquilo que pensa, outros irão de braços abertos para descobrir um mundo novo e uma Florbela diferente. O importante é que, o que está dentro do filme, seja para mim – que o fiz – uma verdade. Não interessa se é a realidade, mas que seja uma verdade e tenha sido feito com verdade. E pela amostra na antestreia, penso que as pessoas sentiram isso. Bastou ver como se emocionaram a saudaram o filme.

Rick´s Cinema · O filme conta com um elenco recheado de caras bem conhecidas do público e de enorme talento como Ivo Canelas, Dalila Carmo e Albano Jerónimo. Como foi o processo de escolha do elenco? E porquê a escolha destes nomes?

Vicente Alves do Ó - A Dalila estava escolhida à partida pelo talento e energia, mas também pela sua fisicalidade. Sabia também que queria trabalhar com o António Fonseca e a Carmen Santos. O Ivo e o Albano foram escolhas óbvias a partir do momento em que temos a Dalila em cena. Uma grande actriz precisa de dois grandes actores para que o trio do filme seja equilibrado nas suas forças e o filme não sofra com isso. Ou seja, um elenco é como um puzzle. Nem sempre devemos escolher um actor porque gostamos dele, mas temos que escolher o actor cuja personagem liga com os demais que estarão a contracenar consigo.

Rick´s Cinema: ·Algumas das cenas de “Florbela” foram gravadas no Alentejo, uma região que foi muito importante na vida de Florbela. Como foi para si gravar neste local?

Vicente Alves do Ó - Mágico. Sim, escrevo a palavra mágico, porque foi mesmo mágico. Pela forma como Vila Viçosa nos recebeu, pela forma como sentimos a presença ainda da Florbela e porque a paisagem que tantas vezes tinha sentido na sua poesia, estava li, viva, para nos inspirar. E estando a paisagem viva, sentíamos que a Florbela também!

Rick´s Cinema - A relação entre Florbela Espanca e o irmão foi sempre marcada por uma grande proximidade. Estes parecem muitas das vezes ser irmãos, mãe e filho, e amantes. Como procurou abordar a relação destes dois no grande ecrã? Sente que existia algo mais entre os dois para além do afecto familiar?

Vicente Alves do Ó - Não quis entrar nessa polémica porque isso seria folclore num filme que pretende ser outra coisa. A relação dos dois irmãos é uma relação de sangue, de cumplicidade, de orfãos. Eles sentem que são a única família um do outro. Vivem-na assim. Basta ler as cartas. O “boato” da sua relação nasce no tom das cartas ao irmão – não existe outra prova. Mas se tivermos curiosidade suficiente e lermos as cartas que ela escrevia para outras pessoas chegadas, descobrimos que o tom é sempre o mesmo: vivo, emocional, aberto. A Florbela era um coração só, dava-se, como o vento, sem preconceito, sem meias medidas. Ela foi uma mulher diferente, viveu a sua condição em pleno e não esquecer que o Estado Novo, enquanto não “destruiu” a sua imagem, não descansou. E nós somos filhos dessa destruição.

Rick´s Cinema ·Sabemos que isto é quase como perguntar a um pai se gosta do filho mais novo ou mais velho mas não poderiamos deixar de fazer-lhe esta pergunta. Qual foi a cena que mais apreciou filmar em “Florbela”?

Vicente Alves do Ó - A cena da neve. Quando Florbela lê a carta de despedida do irmão e começa a nevar dentro de casa. Foi cinema puro, do mais puro que existe, daquele cinema que vem dos olhos de uma criança, da criança que já todos fomos e insistimos em matar. Acho que o cinema anda a perder o “sense of wonder” em troca dum realismo idiota e eu, garanto-lhe que para realidade, já me basta a vida – quero que o cinema me dê outras coisas.

Rick´s Cinema · Durante a montagem do filme teve de deixar alguma cena que gostasse de fora?

Vicente Alves do Ó - A montagem final tem 119 minutos. Digamos que cortei 50 minutos de filme e todos esses minutos foram filmados com amor. Custa-me muito, mas o filme, como está, é um corpo perfeito. Talvez um dia haja um “director’s cut”.

Rick´s Cinema - Ao longo do filme, o sonho e a realidade são uma componente muito forte da vida de Florbela durante algo que proporciona algumas das mais belas cenas do filme. Como surgiu esta ideia?

Vicente Alves do Ó - Os poetas na sua génese são visionários. Habitam dois mundos – este e aquele onde se desenham os poemas. Eu também comecei a escrever muito novo, conheço gente como ela e como eu - a visão que temos do mundo é dupla, tripla... quando ando pela rua, muitas vezes, “vejo” personagens, imagens, ou seja, aquelas cenas refletem a alma criativa de quem cria. Como me disse uma pessoa na antestreia: você não fez um filme com poemas, mas fez um filme poético – porque usa a imagem para iluminar as palavras que ela pensa e não consegue escrever. Acho que é por aí, pelo mistério dos criadores que é algo que me fascina desde criança.

Rick´s Cinema: O Cinema Português tem conhecido bons resultados internacionalmente mas continua a ser pouco apoiado em Portugal. Sentiu-se apoiado neste projecto? O que pensa ser necessário mudar?

Vicente Alves do Ó - O cinema tem que se aproximar do público. Tenho sentido muito apoio neste projecto e espero ver a reacção das pessoas. É sempre um risco fazer cinema para as pessoas, nunca sabemos como elas vão reagir. É preciso mudar muita coisa – tanto no olhar do público, como no olhar dos cineastas. Sem esta comunicação, o cinema está condenado a desaparecer.

Rick´s Cinema · Um dos factores que considerei mais curiosos e de saudar em “Florbela” é que o filme não irá apenas estrear em circuito comercial, mas também irá ser efectuado um périplo por todo o país, acompanhado pelo realizador, elementos do elenco e actividades que visam levar o filme ao público. Considera estas medidas essenciais para aproximar o público português do seu cinema?

Vicente Alves do Ó - O país, fora os grandes centros urbanos é um manancial de gente – são 8 milhões de pessoas. 8 milhões! Um público que merece ter acesso aos filmes, por isso, vamos andar por aí a mostrá-lo a quem quiser ver.

Rick´s Cinema · O Vicente Alves do Ó dedicou grande parte dos últimos meses a “Florbela”. Como se sente um realizador após terminar um projecto desta envergadura? Preparado para novos projectos? Já tem algum novo filme em vista?

Vicente Alves do Ó - Sinto-me feliz. Muito feliz. Pela concretização, pelo resultado, pela expectativa. Agora quero que o filme seja visto e quero que se resolvam os dramas do cinema em Portugal para que possa realizar um novo projecto. Sim, já tenho 3 argumentos prontos – vamos ver qual deles irei fazer. Não consigo imaginar a minha vida sem cinema, sem literatura, nasci para fazer, trabalhar, comunicar, criar, por isso, vamos ver o que o futuro me reserva, mas vou de braços abertos.

Rick´s Cinema: Muito obrigado por nos ter concedido esta entrevista, é uma grande honra podermos ter tido a oportunidade de o entrevistar. Muitos Parabéns pelo excelente trabalho efectuado em "Florbela". 

1 comentário:

H. Barcelos disse...

Que respostas excelentes, não estava à espera que ele se desse a tanto trabalho :p Muito porreiro, mesmo!