24 fevereiro 2012

Resenha Crítica: Os Marretas (2011)

Cocas: “Can we do it all again. Make them laugh like we did then”.

O tempo passa e, por vezes, mal damos por isso. Várias recordações do passado ficam fechadas no nosso baú de recordações e raramente voltam a ser lembradas, do mesmo modo que muitas séries, filmes e desenhos animados perdem-se, irremediavelmente, pelas areias do tempo. O regresso dos clássicos personagens “Os Marretas” representa, precisamente, um retorno a um passado não muito distante, onde os bonecos criados por Jim Henson divertiam espectadores de todas as idades, no cinema e na televisão. Aos poucos, a franquia foi-se degradando (sobretudo desde a morte de Henson) a nível de popularidade e criatividade, a ponto de ter desaparecido do grande ecrã desde “Muppets From Space” de Tim Hill, em 1999.
Vários anos desenrolaram-se desde esse último filme, muito mudou no Mundo, e os marretas pouco parecem dizer às crianças de hoje em dia, fruto do pouco mediatismo que tiveram na primeira década do Século XXI. Especialistas em fazer rir, sonhar, divertir e comover o público, estas eternas figuras regressam em grande com “The Muppets”, o filme ideal para dissipar todas as dúvidas sobre a sua relevância nos dias de hoje. Pegando na citação que retirei do sapo Cocas, os Marretas ainda são capazes de entreter, de fazer sonhar e acreditar. Como diz Walter: “enquanto houver Marretas existe esperança”, e é bem verdade. Essa esperança, tal como a diversão que apenas Cocas, Miss Piggy e Gonzo nos podem proporcionar, regressaram graças ao engenho da dupla de argumentistas formada por Jason Segel e Nicholas Stoller e do realizador James Bobin, que conseguiram transpor para o grande ecrã toda a reverência e simpatia que nutrem por estes personagens e, assim, incutir o seu espírito ao filme. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)




Se os elementos da equipa criativa de “The Muppets” são fãs dos personagens criados por Jim Henson, o mesmo pode ser dito de Walter, o novo marreta apresentado pelo filme. Ingénuo, brincalhão, sonhador e emotivo, este vive com o seu irmão humano Gary na pequena cidade de Smalltown, onde estes crescem a admirar e adorar os clássicos Marretas, mesmo quando eles deixam de ser moda e se limitam a representar a sombra do sucesso de outros tempos.
Gary planeia comemorar o décimo aniversário de namoro com Mary (Amy Adams) em Los Angeles, pelo que decide levar consigo Walter para que todos possam visitar o mítico Muppet Theater. Chegados ao local, o clima romântico de Gary e Mary acaba por passar para segundo plano face à felicidade de Walter em finalmente conhecer o local onde Cocas e companhia gravavam os seus episódios. A sua curiosidade leva-o a entrar sorrateiramente no camarim do famoso sapo e a ouvir, inadvertidamente, aquilo que pensava ser impossível: que Tex Richman (Chris Cooper), um poderoso magnata do petróleo, tinha planos secretos para deitar abaixo o estúdio dos Marretas, com o objectivo de perfurar o solo e, subsequentemente, extrair o “ouro negro” existente nas suas profundezas. Ao ouvir tal terrível congeminação, o boneco entra num (cómico) pranto e, juntamente com Gary e Mary, decide partir em busca de Cocas com o objectivo de reunir os Marretas e, posteriormente, angariar a imponente soma de dez milhões de dólares que lhes permitira readquirir não só o Muppet Theater, mas também os direitos associados a cada um dos seus nomes.
A reunião em questão será, todavia, uma tarefa complicada. Todos os Marretas seguiram com as suas vidas e formaram novas carreiras. Gonzo é um magnata da indústria sanitária, Miss Piggy dirige uma revista francesa, Fozzie toca num bar de aspecto duvidoso, Animal faz terapia de grupo para curar a raiva, entre outros que, aos poucos, vão sendo introduzidos no meio do enredo. Esta união revela ser um momento de reflexão e crescimento para todos os Marretas que, vivendo um turbilhão de emoções, percebem que continuam a nutrir uns pelos outros o mesmo espírito de grupo e amizade que sempre os aproximara. Cocas e Piggy continuam apaixonados e deliciosamente cómicos, Gonzo mantém-se tão trapalhão como espontâneo, Fozzie prossegue com as suas estranhas piadas e Animal é a fúria em pessoa que nem a presença de Jack Black parece conseguir acalmar. Todos necessitam de regressar à ribalta para recuperar tudo o que outrora conquistaram. Simultaneamente, Gary e Mary tentam dar um passo em frente na sua relação, enquanto Walter procura descobrir quem verdadeiramente é.
Enquanto Cocas, Walter, Gonzo, Gary, Mary e Fozzie reúnem os restantes elementos do grupo, alguns espectadores vão recordando várias peças soltas da sua infância, ao passo que outros, pouco familiarizados com estas míticas figuras, têm aqui uma excelente introdução às mesmas. É uma reunião carregada de uma enorme nostalgia. Vários anos passaram desde a última aventura destes personagens e a dúvida que todos eles partilham sobre o sucesso do seu regresso deverá ter certamente assolado a equipa criativa de “The Muppets” antes da sua estreia no grande ecrã. Diga-se, a bem da verdade, que tais incertezas eram mais do que legítimas, corroboradas pelo decrescer da popularidade dos célebres bonecos ao longo dos anos, a ponto de apenas surgirem em telefilmes mais conhecidos por serem protagonizados por nomes da música pop, do que pelos Marretas em si. Tais incertezas manifestaram-se igualmente na forma como os media e os fãs encaravam o filme. Seria o regresso dos Marretas à ribalta? Iriam eles definhar numa espiral descendente e ser esquecidos como tantos outros personagens anteriormente populares? As dúvidas, no entanto, revelaram-se infundadas, pois “The Muppets” representa um regresso em grande destas figuras naquele que é, muito provavelmente, um dos melhores filmes da saga.
Num ano marcado pelo saudosismo em torno da história e dos primórdios do cinema, com filmes como “O Artista” e “A Invenção de Hugo”, nada melhor de que “Os Marretas” para nos fazer regressar à infância, a um tempo em que tudo parecia mais fácil e divertido, onde o sonho e a realidade mesclavam-se e formavam uma felicidade muito própria. A certa altura do filme, Walter diz que “As long as there are Muppets. There is hope” e não poderia estar mais certo. Onde existem Marretas existe esperança, risos, diversão, humor, felicidade e tudo o mais, num filme onde a paixão dos envolvidos é latente através dos diversos pormenores dos personagens. Cocas mantém o seu perfil sonhador, empreendedor e bem-intencionado, que nem a conjuntura desfavorável permite denegrir, Miss Piggy continua a ser… Miss Piggy, com o seu estilo de vamp, pomposa e com uma voz estridente, com uma paixão pelo “Coquinhas” que faz despertar um sorriso terno no espectador, Fozzie continua com as suas piadas pouco comuns, Gonzo continua muito trapalhão, entre muitos outros. Todos tinham novas carreiras, novas vidas, mas todos logo desfazem-se das mesmas para reunir a trupe e, assim, regressarem à ribalta. Curiosamente, o grupo foi agregado por Walter, o novo Marreta, um personagem que se inseriu na perfeição neste universo e que certamente irá permanecer no grupo nos próximos filmes da saga. Eivados de personalidade, virtudes, defeitos, os Marretas acolhem no seu íntimo este tímido personagem, que por eles nutre uma paixão imensa, que é partilhada com o irmão.
Os números musicais e as participações especiais eram alguns elementos marcantes dos filmes e das séries de televisão. A película não nos desilude nesse quesito e apresenta-nos, de facto, alguns números marcantes, acompanhados por canções como “Man or Muppet” (nomeada para Melhor Canção Original para a 84ª Edição dos Óscares), “We Built this City” (dos Jefferson Starship), o cover da emotiva música dos Nirvana "Smells Like Teen Spirit", entre outras. Estes desempenhos imprimem um ritmo emotivo e apaixonante ao filme, embora deva ser salientado que outros tantos números não tenham sido tão felizes. Um deles é “Party of One” de Amy Adams, que coloca a actriz a dançar no meio de um café recheado de pessoas, numa cena que anda mais para o constrangedor do que para o divertido.
Quanto aos convidados especiais, chega a ser impressionante a quantidade de celebridades que a equipa de produção conseguiu reunir. Nesta lista pontificam nomes como Jack Black, Sarah Silverman, Selena Gomez, a desaparecida Whoopi Goldberg, John Krasinski, Neil Patrick Harris, Jim Parsons, entre muitos outros que fazem as delícias do público com as suas breves mas marcantes participações. Importa também não esquecer a presença de Mickey Rooney - num filme que apela ao saudosismo, nada como ter a presença de um carismático actor de Hollywood que integrou filmes tão conhecidos e carismáticos como “The Bridges at Toko-Ri”. Se Rooney brilha pelo carisma, realça-se o papel de Jack Black, que tem aqui um dos melhores momentos no grande ecrã dos últimos anos, ao interpretar uma versão ficcional de si própria, que é raptada pelos Marretas para ser o convidado especial do programa. Estes personagens secundários são alicerçados por uma estrutura coesa formada pelos Marretas, Gary e Mary. Jason Segel e Amy Adams foram duas adições felizes ao elenco de “The Muppets”, e conferem aos personagens uma inocência e candura difíceis de encontrar, que destoam apenas com o desempenho divertidamente maléfico de Chris Cooper como Tex Richman.
Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com “The Muppets”. Após uma longa ausência destes personagens, cheguei mesmo a questionar-me sobre a necessidade de os fazer regressar ao grande ecrã para mais um filme. Contudo, no final, todos os envolvidos responderam da melhor forma possível, ao dar aos espectadores um dos melhores filmes da saga (provavelmente o melhor). Souberam jogar com a nostalgia do público que cresceu a ver estes personagens, ao mesmo tempo que os apresentaram a uma nova geração que, certamente, não esquecerá a sua existência, num filme inteligente, divertido e recheado de momentos nostálgicos e comoventes. Assistir a “Os Marretas” é como abrir uma caixa de brinquedos poeirenta que temos no sótão e encontrar valiosas recordações da infância. É deixar os problemas da idade adulta de lado por hora e meia e abrir o nosso coração à criança que se encontra reprimida no nosso íntimo, que se deseja divertir, livre e alegremente. A obra representa uma magia pura e enérgica, que pouco encontramos nos filmes de hoje; uma certa inocência que parece perdida nos personagens de animação contemporâneos. Enquanto houver Marretas existe alegria, diversão, emotividade, criativos números musicais, muita felicidade e esperança. Um filme para recordar que a nossa infância pode pertencer ao passado, sem que nunca seja esquecida; e, como ela, também os Marretas nunca se perderão na nossa memória.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: The Muppets
Título em Portugal: Os Marretas
Realizador: James Bobin
Guião: Jason Segel e Nicholas Stoller.
Elenco: Jason Segel, Amy Adams, Chris Cooper, Rashida Jones, Jack Black, Cocas, Miss Piggy, Gonzo, Fozzie, Animal, Statler, Waldorf, entre outros.

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