27 fevereiro 2012

Ivo Canelas é Apeles em "Florbela"

"Este livo é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante..." - Florbela Espanca dedica o livro de contos "As Máscaras do Destino" ao irmão. 

É já no próximo dia 8 de Março que o aguardado filme sobre Florbela Espanca estreia nas salas de cinema. Realizado por Vicente Alves do Ó, através de argumento do próprio, a biopic promete conquistar os portugueses como a poesia da "Bela Flor" conquistou os seus corações. Nesse sentido, vamos procurar apresentar aos nossos leitores alguns dos personagens que estão representados no filme. O primeiro personagem a ser apresentado é Apeles, o irmão de Florbela Espanca, que é interpretado no filme por Ivo Canelas.

A escolha de Apeles Espanca para o primeiro personagem a ser apresentado deve-se em grande parte ao papel fulcral que este teve na vida da poetisa, quer na vida real, quer em "Florbela", onde ambos apresentam uma cumplicidade única e forte, capaz de comunicarem com um gesto, aquilo que mil palavras não parecem ser capazes de representar. Um dos pontos fortes do filme, vai ser a relação entre os personagens de Ivo Canelas e Dalila Carmo, por isso, nada melhor para começar uma série de artigos dedicados a "Florbela" com um breve ensaio sobre Apeles. 

A relação entre Apeles e Florbela tem sido motivo dos mais distintos estudos e variam entre a teoria de um amor fraternal entre ambos, com a poetisa a assumir um papel de mãe junto de Apeles e outra teoria de que os dois irmãos poderem ter tido uma relação incestuosa. A defender a teoria de que esta é uma relação entre irmãos, muitas das vezes semelhante a uma relação entre mãe e filho, encontram-se Agustina Bessa-Luís e Maria Alexandrina, duas autoras que estudaram Florbela Espanca. A confirmar a teoria do amor entre mãe e filho, está este trecho de uma carta de Florbela ao irmão: "Meu adorado pequeno - diz - pobre, pequeno, desamparado, a estender-me os braços... dá-me a impressão que não és meu irmão, mas meu filho (...)".

Apeles nasceu a 10 de Março de 1897, filho de Antónia (mãe de Florbela) e João Espanca que nunca reconhece o filho. O jovem rapaz viveu com a sua mãe em Évora até aos cinco anos, data em que António falece e deixa Apeles aos cuidados do pai. A partir daqui, este passa a ter maior contacto com a irmã, a única figura maternal e provavelmente o único apoio familiar, visto que a relação entre Apeles e o pai foi algo conturbada, a ponto do progenitor nunca reconhecer legalmente a paternidade do filho.

Na idade adulta, Apeles torna-se membro da guarda-marinha, algo que leva-o a passar grande parte do tempo em viagem para locais como Luanda, Alger, Rio de Janeiro, entre outros, que acabavam por separar os dois irmãos. Esta distância nem sempre era apreciada por Florbela, algo que é visível quando este parte para o Brasil, e a jovem poetisa fica "amarela, magra, fatigada", algo que não corresponde com a carta que escreve para o irmão "Lembra-te que és preciso ao meu coração, que tomou o doce hábito de te conservar um cantinho privilegiado onde mais ninguém entra."1

Apeles era conhecido pelo seu carácter aventureiro, dedicado à pintura, mulherengo, coleccionador de mulheres, embora não se conheça uma relação séria, embora este tenha afirmado que teve uma noiva numa carta à irmã. Agustina Bessa Luís refere-se à relação destes dois irmãos como uma relação entre uma mãe e o seu filho: "o seu estado de temor atenua-se perante aquele jovem alegre, que desafia o perigo, que viaja e ama, que volta para ela como um filho para o regaço da mãe"2.

A relação entre os Florbela e o irmão deteriorou-se em parte com a relação desta com Mário Lage, quando Apeles percebe que esta finalmente parece ter estabilizado na vida. Esta situação parece ser corroborada pela carta escrita pela "Bela Flor" ao irmão, datada de 5 de Janeiro de 1926, onde esta pede ao irmão visita-la: "Olha meu querido amigo, porque não vens tu cá ver-me e passar uns dias comigo? A casa é uma modesta casa de aldeia, mas é possível que te fizesse bem passar aqui uns dias; estaríamos sós todo o dia, e tu poderias contar-me tudo, dizer-me to, que eu só tenho o meu silência a compreender-te (...)"3.

Se os vários divórcios e casamentos de Florbela, a distância e as zangas entre os dois, não chegaram para afastar Florbela do irmão, o mesmo não se pode dizer do destino, essa força inexorável que teima em exercer a sua influência sobre a vida humana. Contra a opinião da irmã, Apeles decide tirar o curso de piloto-aviador, no entanto, um acidente num hidroavião acaba por vitimar o irmão de Florbela, naquele que é provavelmente o maior choque da vida da poetisa, e que mais tarde será uma causa fundamental para o seu suicídio. A morte de Apeles aparece rodeada de grande mistério e incerteza. Terá sido mesmo acidente? Ou terá sido suicídio? Um pouco dos dois? A verdade nunca iremos saber, mas é indesmentível que a mente de Apeles encontrava-se perturbada pelo facto de finalmente a irmã ter encontrado uma relação estável com Mário Lage e pela morte da misteriosa noiva.

A morte de Apeles vai levar a que Florbela entre em grande depressão e volte a escrever, após um período de maior apagamento. Como esta escreve, Apeles "Morreu. Parece que morreu tudo, que ele não deixou cá ficar nada, parece que levou tudo". A morte do irmão vai fazer que esta elabore uma comovente dedicatória no livro de contos "As Máscaras do Destino", em que escreve ao seu irmão "ao meu querido morto":
"Este é o livro de um Morto, este livro é o livro do meu Morto. Tudo quanto nele vibra de subtil e profundo, tudo quanto nele é alado, tudo que nas suas páginas é luminosa e exaltante emoção, todo o sonhe que lá lhe pus, toda a espiritualidade de que o enchi, a beleza que, pobrezinho e humilde, o eleva acima de tudo, as almas que criei e que dentro dele são gritos e soluços e amor, tudo é Dele, tudo é do meu Morto! (...) Este livro é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante..."4.

Apeles foi uma figura fulcral na vida de Florbela Espanca, este era o seu baluarte, o seu irmão, um pedaço da sua alma, o seu duplo intelectual e espiritual. A relação entre os dois será uma das temáticas fortes em "Florbela", o novo filme de Vicente Alves do Ó. No filme, o personagem é interpretado por Ivo Canelas, um actor talentoso e com um currículo interessantíssimo, tendo protagonizado séries televisivas, telefilmes, obras cinematográficas, sendo um dos actores mais talentosos da sua geração e que tem em Apeles mais um grande papel.

Podem ler mais sobre "Florbela" no seguinte link: http://bogiecinema.blogspot.com/2012/02/florbela-estreia-ja-no-proximo-dia-8-de.html




1 -BESSA-LUÍS, Agustina, Florbela Espanca. A Vida e a Obra, Lisboa, Arcádia, 1979, p.110.

2 - BESSA-LUÍS, Agustina, Florbela Espanca. A Vida e a Obra, p.120.

3 - Florbela Espanca. A Vida e a Obra, p.126.

4 - Florbela Espanca. A Vida e a Obra, p.186.

Bibliografia:

BESSA-LUÍS, Agustina, Florbela Espanca. A Vida e a Obra, Lisboa, Arcádia, 1979.

MATTOSO, José. História de Portugal Vol. V (de VIII), Lisboa, Editorial Estampa, 1993.

Barros, Eliana Luiza Santos, Os Enigmas do Dizer Poético de Florbela Espanca, in: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/15/P&Brev15Barros.pdf

http://www.prahoje.com.br/florbela/?p=142

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