31 dezembro 2011

Resenha Crítica: Sem Limites (2011)

Já imaginou o que poderia fazer com um comprimido que permitisse utilizar toda a capacidade do seu cérebro? Este permitiria acessar a memórias que pensava estarem desaparecidas, efectuar trabalhos a uma velocidade muito superior, escrever uma crítica sem bloquear constantemente sobre a melhor introdução a fazer, entre muitas outras utilidades que poderia dar ao seu cérebro. Mas quais as consequências de tomar este comprimido? Essas quem as irá experimentar é Edward Morra (Bradley Cooper), o protagonista de “Limitless”, que vê a vida virar do avesso ao tomar um comprimido supostamente milagroso, que lhe foi oferecido pelo ex-cunhado, indo-lhe dar-lhe capacidades cerebrais sobre-humanas e trazer-lhe efeitos secundários devastadores. É em torno desta premissa que irá desenrolar-se o enredo de “Limitless”, o novo filme do realizador Neil Burger, que regressa à cadeira de realizador, após ter dirigido filmes como “The Ilusionist” e “The Lucky Ones”. “Sem Limites” começa por nos apresentar o protagonista do filme, Edward Morra, um escritor que sofre de uma grave crise criativa, cuja vida entra numa espiral negativa quando o rumo incerto da sua carreira profissional começa a entrar em conflito com a sua vida pessoal, com a namorada a terminar a relação amorosa que ambos mantinham.

A vida de Morra muda radicalmente quando encontra o seu ex-cunhado, Vernon Gant (Johnny Whitworth) e este oferece-lhe um comprimido de NZT, uma droga médica que faz o ser humano conseguir à totalidade das funcionalidades do seu cérebro, ao invés dos 20% habituais. Sem nada a perder, Edward toma o comprimido e a sua vida começa a mudar de um momento para o outro. Tudo passa a tornar-se mais claro e fácil de entender, as memórias que pareciam completamente perdidas voltam a surgir com uma facilidade surpreendente, o livro que estava a tentar escrever há meses é elaborado num curto espaço de tempo, surpreendendo tudo e todos com os seus conhecimentos. A vida do personagem de Cooper muda claramente e isso é visível até pelos próprios efeitos de câmara, cenários e tonalidades utilizadas, com as cenas do personagem sob o efeito do comprimido a apresentarem um brilho e claridade diferente do cinzentismo do cenário anterior. Consciente de que esta súbita actividade cerebral poderá trazer-lhe grandes proveitos, Morra começa a investir na bolsa, indo atingir um lucro brutal a ponto de chamar à atenção do magnata financeiro Carl Van Loon (Robert De Niro), que procura aconselhar-se junto deste jovem e inesperado investidor de sucesso. A colaboração com Van Loon acabará por ser marcada por fantasmas antigos do personagem com este a ter de lidar com elementos da máfia russa, uma acusação de assassinato, ao mesmo tempo que terá de lidar com os tubarões financeiros de Wall Street, e os nefastos efeitos secundários do NZT.

 Baseado no livro “The Dark Fields”, um techno-thriller da autoria de Alan Glynn, “Limitless” surge como um thriller intenso e intrigante, que conta com uma premissa interessante e um argumento eficaz de Leslie Dixon, sendo capaz de facilmente nos transportar para o interior desta peculiar história onde um comprimido consegue activar todas as funcionalidades do cérebro humano, mas traz efeitos secundários nefastos para o protagonista. Esta temática da tentativa de obtenção de todo o conhecimento possível e de obter capacidades extraordinárias não é propriamente nova, indo evocar temas já explorados em obras como Fausto de Goëthe, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” de Robert Louis Stevenson, sendo que em "Limitless" encontramos uma abordagem contemporânea à temática. No caso de "Limitless", não temos o Dr. Jekyll mas sim Edward Morra, um indivíduo comum, que se vê numa situação fora do seu controlo após tomar o comprimido. Morra é interpretado por Bradley Cooper, um actor que assume a sua capacidade para protagonizar um filme recheado de tensão e acção, incutindo no personagem características muito próprias, que o fazem parecer credível aos olhos do público, mesmo quando os seus actos nem sempre sejam os mais recomendáveis.

 Diga-se que esta ligação do personagem com o espectador não depende apenas do guião e do actor, mas também dos próprios movimentos e efeitos de câmara utilizados ao longo do filme, que são fulcrais para exacerbar os sentimentos do protagonista. Esta situação é paradigmaticamente demonstrada através da forma antagónica como as cenas do personagem de Bradley Cooper são exibidas quando este está sob o efeito do medicamento e quando este não utiliza o mesmo. Quando este toma o famoso comprimido, tudo torna-se brilhante e colorido, com o personagem a apresentar um visual descontraído e confiante. Por sua vez, quando Edward está fora do efeito dessa droga milagrosa, tudo torna-se algo cinzento e embaciado, parecendo que estamos a assistir a uma obra cinematográfica diferente. Os efeitos de câmara vão ser utilizados de forma constante pelo realizador para expor os sentimentos dos diferentes personagens, desde os travelings, passando pelo zooms e os zooms invertidos, passando pelas rotações da câmara, fazem com que o protagonista e o espectador tenham praticamente a mesma visão do cenário, permitindo uma maior ligação entre o personagem e o espectador. Esta situação irá conduzir por vezes o espectador a uma sensação de desconforto, em paralelo com o personagem, sobretudo quando a câmara começa a apresentar uma grande instabilidade, exacerbando o estado degradante em que se encontra Edward Morra, nos momentos em que este lida com a falta do NZT.

 Outra das técnicas utilizadas para aproximar o espectador e o protagonista passa pela narração efectuada pelo mesmo, que quebra a barreira entre o protagonista e o público, com o personagem de Cooper a comentar as várias situações que lhe vão acontecendo ao longo do enredo, algo que começa logo no inicio do filme, quando o personagem apresenta-se aos espectadores, ao mesmo tempo que a câmara efectua um longo zoom de forma a focar o personagem anónimo no meio da multidão. Estes efeitos de câmara vertiginosos efectuados por Burger, acabam por ser exacerbados pela cidade de Nova Iorque, cujo ritmo intenso adequa-se na perfeição ao ritmo do filme e aos seus personagens. O universo de personagens de “Sem Limites” é relativamente diversificado, destacando-se os personagens interpretados por Robert De Niro e Andrew Howard. De Niro volta a apresentar-nos mais uma sólida actuação, como o milionário Carl Van Loon, um indivíduo perspicaz e de personalidade duvidosa, que irá acabar por ser abafado por Edward Morra nos jogos pela disputa de poder. Quem se destaca de forma surpreendente é Howard como Gennady, um membro da máfia russa, que será o grande antagonista do personagem de Bradley Cooper, na disputa pela posse do NZT.

Embora o enredo do filme seja interessante e o seu argumento eficaz, também não deixa de ser notório que este deixa muitas questões em aberto, sobretudo no campo cientifico, algo que não é realmente grave, visto estarmos a falar de um filme e não de um livro científico ou um ensaio científico. Uma das questões que o filme levanta passa logo pela premissa inicial, de que apenas utilizamos 20% do nosso cérebro, algo que para os cientistas é mais um mito do que uma realidade, visto considerarem que utilizamos a totalidade das funcionalidades do cérebro, ainda que nem sempre o seja em simultâneo. Ou seja, a premissa inicial do filme, apesar de inteligente, acaba por levantar algumas dúvidas quanto à sua veracidade, embora isso não seja realmente importante. Para além disso, a forma como o NZT funciona no organismo humano pouco ou nada é explicado, sabendo-se apenas que é um comprimido que activa os efeitos do cérebro e pouco mais, não se sabendo ao certo como foi elaborado, quais as substâncias, sendo que apenas no momento final é que sabemos alguns pormenores sobre a produção do medicamento.

O regresso de Neil Burger à cadeira de realizador revelou-se inspirado e refrescante, ao realizar uma das obras mais intrigantes e interessantes da sua carreira, contando com uma história interessante e um bom trabalho de fotografia, sabendo escolher os diferentes ângulos e movimentos de câmara de forma a criar um ambiente dinâmico em torno da obra, que permite aproximar o espectador do protagonista, o azarado Edward Morra. Bradley Cooper confirma aqui a sua capacidade como protagonista, a ponto de manter na sombra o seu colega de elenco, o consagrado Robert De Niro, ao interpretar um indivíduo comum, que é consumido pela ânsia de conhecimento e poder. “Limitless” é um thriller inteligente e surpreendente, que consegue cativar o espectador com uma premissa intrigante e um guião eficaz que apresenta todos os condimentos para agradar aos fãs do género.

Classificação: 3.5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: Limitless
Título em Portugal: Sem Limites
Realizador: Neil Burger
Guião: Leslie Dixon.
Elenco: Bradley Cooper, Robert De Niro, Abbie Cornish, Andrew Howard, Anna Friel.

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