29 dezembro 2011

Resenha Crítica: O Panda do Kung Fu 2 (2011)

Colocar um Panda como um habilidoso praticante de Kung Fu parece uma ideia algo bizarra e fadada ao fracasso, mas a verdade é que resultou na perfeição em “Kung Fu Panda”, transformando o filme num dos maiores sucessos da história recente da Dreamworks. Ao todo, foram mais de 630 milhões de dólares ao redor do mundo em receitas de bilheteira, que a juntar às receitas do mercado home video e merchandising e a um conjunto de críticas positivas, levaram a que o estúdio se decidisse pelo desenvolvimento de uma sequela. Foi assim, que no dia 22 de Maio de 2012, “Kung Fu Panda 2” estreou nas salas de cinema Norte-Americanas, para rejubilo dos fãs, que aderiram em massa e confirmaram Po como um dos mais populares personagens da história recente do cinema de animação. Curiosamente, a sequela não ficou a cargo dos realizadores do filme original, Mark Osborne e John Stevenson, mas sim da estreante Jennifer Yuh (que tinha trabalhado no departamento de animação do primeiro filme). O guião ficou a cargo de Jonathan Aibel e Glenn Berger, dupla que ficou encarregue do argumento do primeiro filme e que, mais uma vez, apresenta um trabalho surpreendentemente coeso, a comprovar que os filmes de animação não são só para crianças.
 O enredo de “Kung Fu Panda 2” desenrola-se pouco tempo depois dos acontecimentos do primeiro filme, com Po a fazer parte dos Furious Five, sendo um ídolo para as crianças do Vale da Paz, tal como anteriormente Tigress, Viper, Crane, Monkey e Mantis foram para si. A entrada neste grupo corresponde a uma grande responsabilidade, com Po a ter de treinar arduamente não só para aprimorar as suas técnicas de combate, mas também para conseguir encontrar a paz interior, ao mesmo tempo que tem de defrontar os diversos inimigos que ameaçam a paz do território. A juntar a todos estes problemas, Poh tem ainda de lidar com várias questões de ordem pessoal, que surgem quando durante um combate, um símbolo de um dos seus inimigos faz-lhe ter um flashback da sua infância e descobrir que foi adoptado. Este símbolo é a insígnia do temível Lorde Shen, um pavão cujo destino está intrinsecamente ligado a Po, quando na sua infância é-lhe predestinado que será derrotado por um panda. Como tal, decide chacinar todos os pandas. Não é preciso ser um génio da dedução, para descobrirmos o que mais tarde foi revelado. Po foi abandonado no restaurante do Sr. Ping, para ser protegido da destruição levada a cabo por Shen, numa das mais belas cenas do filme, com os flashbacks a serem exibidos em animação tradicional.
 A confirmação de que foi adoptado deixa Po algo desiludido e confuso, ao mesmo tempo que tem de lidar com o maior desafio da sua vida: Salvar o Kung Fu. Após o Mestre Shifu anunciar que o Mestre Rhino Thundering (Victor Garber), líder do conselho de kung fu para proteger a cidade de Gongmen, foi morto por uma arma recém-desenvolvida, capaz de travar o kung fu, nomeadamente, o canhão, os Furious Five e Po terão de partir à aventura e travar os planos maquiavélicos de Lorde Shifu. O que Po não sabe é que o destino já tinha previsto este confronto entre si e Shen, e que o passado de ambos está intrinsecamente ligado pela perseguição que o pavão efectuou aos pandas gigantes para procurar livrar-se do seu nemesis e dominar a China a seu bel-prazer. Com o Kung Fu em causa pela descoberta da pólvora e do canhão, Po terá de salvar a China, o Kung Fu, e, ao mesmo tempo, procurar descobrir quem realmente é, numa jornada de auto-descoberta emocionante, que irá culminar no tenso confronto entre o Panda e o Pavão, num combate de proporções épicas em que o kung fu de Po será colocado à prova.
 Quando estreou em 2008, poucos esperavam que “Kung Fu Panda” conseguisse transformar-se numa das franquias de maior sucesso da Dreamworks, indo ficar lado a lado com “Shrek”. “Kung Fu Panda 2” não só comprova o porquê do primeiro filme ter sido tão bem sucedido, como expande esse universo narrativo, a ponto de apresentar uma história capaz de fazer inveja a muitos filmes com actores de carne e osso, que claramente supera a do filme original. Se o primeiro filme apresentava a aventura de Po como um “underdog” que efectuava a sua jornada até inesperadamente tornar-se num dos membros dos Cinco Furiosos, “Kung Fu Panda 2” apresenta o crescimento de Po como um herói que tem de assumir as responsabilidades que a função acarreta, ao mesmo tempo que tem de lidar com inesperados problemas da sua vida pessoal, assistindo-se a uma clara evolução no desenvolvimento do panda como personagem. Com o seu estilo atrapalhado e desajeitado, Po tem de lidar com vários problemas próprios da idade e relativos ao facto de ter sido adoptado. Aqui, os argumentistas trabalham uma temática bastante interessante e pouco comum para um filme de animação, que passa pela representação dos sentimentos das crianças/adolescentes que são adoptados, que na generalidade dos casos acabam por mais tarde ou mais cedo ter uma “crise” de identidade, querendo saber quem são os seus pais biológicos, porque é que estes o abandonaram, sobre o que os seus pais biológicos pensariam sobre a sua pessoa no presente, se os pais estarão vivos ou mortos, entre outras questões, que são retratadas de forma leve e sincera ao longo do filme. Esta era uma questão que já tinha aberto algumas dúvidas no primeiro filme, visto ser estranho um ganso ser pai de um panda, no entanto, visto tratar-se de um filme de animação, a temática acabou por ser esquecida pelo público, sendo agora reaberta e explorada de forma sincera.
 Ao mesmo tempo que esta jornada de auto-conhecimento e de crescimento de Po decorre, o rechonchudo panda terá de lidar com o seu maior desafio: salvar o kung fu, pouco tempo depois de ter aprendido a dominar algumas das suas técnicas. Mais uma vez, o filme apresenta um tema invulgar para o género, ao abordar de forma leve a introdução da pólvora na China, e a posterior utilização no canhão, o que culminou numa alteração das tácticas de guerra da época. Em “Kung Fu Panda 2” esta alteração vem tornar os guerreiros de kung fu obsoletos, visto que apenas um único disparo desta arma é capaz de fazer mais estragos do que os golpes acrobáticos dos guerreiros, com Po a ter de encontrar uma solução para vencer esta mortífera oposição, naquele que será um dos momentos mais entusiasmantes do filme. Mas não se pense que o filme apresenta um tom demasiado sério e denso, pelo contrário, os momentos de boa disposição predominam e quase sempre surgem das situações em que os personagens se envolvem e do estilo atrapalhado e ingénuo de Po, que levam-no a envolver-se em momentos verdadeiramente embaraçosos. Este não é um herói atormentado pelo fardo da responsabilidade, mas sim um herói que é apaixonado pelas suas funções, embora esse entusiasmo nem sempre seja reflectido nas melhores acções.
 O facto do personagem de Po conseguir criar uma grande empatia junto do grande público, deve-se também ao grande trabalho de Jack Black, cuja voz é um instrumento fulcral para o sucesso do personagem. Diga-se que o elenco de vozes volta a estar em bom nível, com especial relevo para Black, cuja carreira parece estar dependente de Po para não cair no total descrédito, e Gary Oldman, que em “Kung Fu Panda 2” dá voz ao temível Lord Shen. Oldman contribui para transformar o pavão num vilão tenebroso, ao qual não é alheio a forte construção que o guião elabora do personagem (que tem direito à sequência inicial do filme), cujo passado está intrinsecamente ligado ao de Po, o que vai incutir uma maior dramaticidade e emoção ao confronto entre os dois. Lorde Shen é das poucas novas adições que funcionam no enredo, ao contrário dos personagens de Jean-Claude Van Damme (Croc) e Dennis Haysbert (Storming Ox), cuja presença parece tão desnecessária como os seus personagens, que pouco ou nada foram desenvolvidos. Se Crog e Ox pouco ou nada são desenvolvidos, o mesmo não se pode dizer dos restantes personagens, nomeadamente os vários elementos dos Furious Five. Enquanto o Mestre Shifu continua a ser a voz da razão, que procura colocar algum bom senso no entusiasmo excessivo de Po, a Tigresa (Angelina Jolie) revela ser mais do que a confidente de Po, numa relação que pode vir a evoluir num romance no próximo filme da franquia. Da boa relação entre Tigress, Viper, Crane, Monkey, Mantis e Po, vai depender parte do bom resultado do filme, com estes mais do que a serem uma equipa, a formarem uma família que defende os seus elementos, de alma e coração.
 A jornada de auto-descoberta e crescimento de Po, ganha ainda mais interesse devido ao bom trabalho da equipa do departamento de animação do filme, que desenvolve um conjunto de cenários simplesmente deslumbrantes, aproveitando o facto do enredo desenrolar-se na China antiga e assim aproveitar o exotismo do local para o público ocidental. Os cenários são de excelente recorte, sobretudo no palácio do Lorde Shen, que se encontra recheado de pormenores deliciosos. A atenção ao detalhe é algo que não se fica pelos cenários, mas também pela utilização das cores dos mesmos, com as cenas onde está presente o antagonista a serem dominadas por tons escuros e pelos vermelhos, enquanto a presença de Po é rodeada de tons quentes e alegres. O trabalho da equipa de animação é também visível nas coreografias dos combates, com os personagens a movimentarem-se de forma fantástica, ao mesmo tempo que os seus movimentos são acompanhados por diversos sons, que chamam à atenção do espectador.
 Com um enredo superior a muitos filmes com actores de carne e osso, “Kung Fu Panda 2” junta ao magnífico trabalho da equipa do departamento de animação da Dreamworks um guião forte e uma história surpreendentemente cativante, que consegue prender o espectador do principio ao fim do filme. Mais do que uma sequela para o lucro fácil, “O Panda do Kung Fu 2” surge como um expansão do universo do personagem, numa aventura emocionante e bem construída, que coloca o personagem do filme com o desafio de enfrentar os problemas do seu passado para salvar o futuro da China e do kung fu. A estreante Jennifer Yuh mostra-se uma realizadora segura na sua estreia com uma longa-metragem de animação e logo num dos melhores filmes do ano, que promete ser o mais forte candidato a vencer o Óscar de 2011, na categoria de melhor filme de animação. Está aberto o caminho a “Kung Fu Panda 3”.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título original: “Kung Fu Panda 2”.
Título em Portugal: “O Panda do Kung Fu 2”.
Realizador: Jennifer Yuh.
Guião: Jonathan Aibel e Glenn Berger.
Elenco: Jack Black, Gary Oldman, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Lucy Liu, Seth Rogen, David Cross, Jackie Chan.

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