26 dezembro 2011

Resenha Crítica: A Dívida (2011)

O final da II Guerra Mundial não trouxe o esquecimento sobre os hediondos actos cometidos pelos nazis. Vários desses indivíduos foram julgados nos célebres “Julgamentos de Nuremberga”, no entanto, muitos outros elementos ligados aos sinistros actos do Partido Nazi conseguiram escapar, sendo mais tarde perseguidos pelas diferentes autoridades internacionais. “The Debt” acompanha a perseguição efectuada por um trio de agentes da Mossad, a um perigoso assassino ficcional conhecido como “o cirurgião de Birkenau”, um antigo cientista nazi que cometeu os mais terriveis actos e experiências nos judeus.
“The Debt” é um remake do elogiado thriller israelita “HaHov, HaChov”, dirigido por John Madden (o mesmo que nos trouxe (“Shakespeare in Love”), através do guião de Matthew Vaughn, Jane Goldman e Peter Straughan. Madden e Vaughn embarcaram no projecto, após o empresário Ari Emanuel, ter abordado a dupla para elaborar um remake da obra cinematográfica israelita, que estava a encontrar grandes dificuldades em encontrar distribuidores no mercado internacional, devido a ser falado em hebraico. O filme tem como particular atractivo, o facto de colocar três agentes judeus, em busca de um assassino diferente, num diferente período de tempo e espaço narrativo. Para dar vida aos agentes e à ambiciosa premissa do filme, Madden reuniu um elenco recheado de nomes talentosos, onde sobressaem os veteranos Tom Wilkinson, Helen Mirren e Ciarán Hinds, a revelação Jessica Chastain, para além de Sam Worthington e Marton Csokas. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)




O enredo do filme apresenta uma estrutura tripartida e desenrola-se em dois tempos narrativos. O primeiro desenrola-se em 1997, e acompanha Stefan Gold, Rachel Singer e David Peretz, três antigos agentes da Mossad que são idolatrados pelo seu povo por terem assassinado o célebre “cirurgião de Birkenau”. A convivência do trio após a missão é marcada por um período de grande afastamento entre ambos e por sérios problemas que resultam no suicídio de David. Durante a apresentação do livro da filha de Rachel (Helen Mirren), começamos aos poucos a ser apresentados à história dos três, cujas marcas do passado parecem ser muito mais profundas do que aparentam inicalmente. É então que um flashback remete-nos para o segundo tempo narrativo, que desenrola-se em 1966, durante a missão que Stefan Gold, Rachel Singer e David Peretz efectuam na Alemanha do Leste para capturar Dieter Vogel (Jesper Christensen), mais conhecido pelo infame nome de “cirurgião de Birkenau”. Vogel é uma estranha e assustadora criatura, que actua como ginecologista numa clínica alemã, naquele que parecia ser o disfarce perfeito para viver longe das consequências dos actos do seu passado. No entanto, os actos hediondos para com os judeus durante a II Guerra Mundial não foram esquecidos e o trio de agentes da Mossad acaba por conseguir captura-lo, numa sequência intensa e emocionante, em que Jessica Chastain surpreende pela forma desenvolta como participa nas cenas de acção.
A missão de captura de Vogel não corre com o esperado, com Rachel, Stefan e David a serem perseguidos pelas autoridades da RDA devido ao rapto do médico. Ao perderem o apoio dos Estados Unidos, estes vêm-se desamparados num território desconhecido e com um refém que desperta ódios antigos no seio do grupo. A partir daqui, a relação entre o trio passa a degradar-se de forma gradual, com o assassino nazi a saber jogar com a instabilidade psicológica do trio personagens. Aos poucos vamos assistindo às duvidas que os agentes colocam sobre os seus actos e sobre o melhor caminho a seguir, ao mesmo tempo que os dois membros masculinos não conseguem esconder o seu interesse por Rachel. A fuga do “cirurgião de Birkenau” não só deixa notórias marcas na face de Rachel como coloca os agentes em cheque. O que irão fazer? Assumir o erro ou dizerem que tinham assassinado o criminoso? O trio opta pela segunda vida, numa decisão que irá atormentar para sempre as suas vidas, abrindo-lhes feridas nas suas almas que demorarão muito mais tempo a cicatrizar do que a ferida na face da personagem de Jessica Chastain. Em 1997, o famoso vilão volta a aparecer nas suas vidas, com as antigas feridas do grupo a reabrirem-se e Rachel e Stefan a terem de terminar a missão que iniciaram em 1966 e pagarem “a dívida” que têm para com todos aqueles que os laurearam ao longo das suas vidas.
Após ter desiludido o público com “Captain Corelli's Mandolin”, “Proof” e “Killshot”, John Madden regressa aos momentos inspirados de “Shakespeare in Love” e traz-nos um trabalho à altura do seu talento em “The Debt”. Madden surpreende ao apresentar um thriller inteligente e ambicioso, cuja acção desenrola-se em dois tempos narrativos dicotómicos, com diferentes actores a interpretar os mesmos personagens. Perante uma decisão corajosa, o realizador decidiu minorar os riscos ao escolher um elenco à altura do guião, que conseguisse colocar os espectadores atentos ao enredo, ao invés de serem distraídos pelo facto de serem actores diferentes interpretarem os mesmos personagens. A escolha do elenco surpreende, com o realizador a reunir nomes como Sam Worthington, Marton Csokas e Jessica Chastain para interpretar os agentes da Mossad em 1967, e Helen Mirren, Tom Wilkinson e Ciarán Hinds a interpretarem os mesmos personagens em 1997. A decisão de desenvolver o enredo em 1967 e 1997, com diferentes actores a interpretar os mesmos personagens, foi um risco que o realizador e os guionistas correram, cujos resultados foram claramente positivos, embora venha a dificultar a criação de uma ligação entre o espectador e os personagens, a ponto de por vezes tornar a história algo confusa, algo que é menorizado pelo bom argumento do filme.
Apesar de abordar a perseguição de um grupo de espiões da Mossad, a um assassino nazi, o enredo de “A Dívida” não é focado nas cenas de perseguição e de acção, mas sim no relacionamento entre os espiões e a forma como estes lidam com a missão e com a decisão de não revelarem a verdade sobre a conclusão da mesma. O relacionamento de Stefan, David e Rachel é ainda afectado pelo facto dos elementos masculinos nutrirem uma paixão notória por Rachel, naquela que é a sub-trama mais fraca do filme, com os sentimentos entre ambos a soarem artificiais e a criarem pouca empatia com o público. Em certa parte o romance parece ter sido utilizado para criar algum sinal de afecto entre os personagens, que parecem absortos na sua missão e têm nos seus companheiros a sua contraparte. No entanto, o romance que Rachel mantém separadamente com cada um dos elementos masculinos do grupo, parece nunca resultar, sendo tão fria como os cenários despojados de adereço e afecto em que se encontram.
Para toda esta situação resultar e conseguir prender o público, muito contribuiu a escolha dos actores que dão vida aos personagens, com Sam Worthington, Marton Csokas e Jessica Chastain a mostrarem uma grande química, tal como Helen Mirren, Tom Wilkinson e Cirarán Hinds mostram mais uma vez a sua classe. Ao criar duas estruturas narrativas, John Madden acaba por tornar impossível que não se elabore uma comparação entre ambas, sendo clara a diferença entre as interpretações do trio de veteranos e o trio que interpreta os personagens durante o seu inicio de carreira, excepção feita à personagem de Rachel Singer, que é interpretado com igual mestria por Helen Mirren e Jessica Chastain. O talento de Mirren volta a resplandecer com Rachel, uma personagem forte, atormentada pelo seu passado, que tem de lidar com o regresso de um antigo inimigo e concluir a missão que lhe foi designada à vários anos atrás. Mirren tem como contraponto uma das grandes revelações de 2011, a talentosa Jessica Chastain. Aquando da escolha para o papel, John Madden pretendia uma actriz desconhecida para interpretar a personagem de Rachel Singer no passado, no entanto, a carreira de Jessica Chastain conheceu uma ascensão surpreendente, a ponto de ser uma das actrizes mais cobiçadas do momento, após ter protagonizado filmes como “The Three of Life” de Terrence Malick e no surpreendente “The Help” de Tate Taylor, e “Take Shelter” de Jeff Nichols. As cenas de violência física e psicológica a que Rachel Singer é submetida faz o talento das actrizes brilhar, com ambas a mostrarem o seu talento. A personagem de Chastain e Mirren está centro do enredo não só por ser uma das agentes responsáveis por capturar o “cirurgião de Birkenau”, mas também por estar no centro das paixões de Stefan e David. No caso dos personagens masculinos, nota-se algumas disparidades a nível de talento, nomeadamente, entre Tom Wilkinson e Marton Csokas, com o primeiro a mostrar o seu carisma como Stefan, um agente com uma moral duvidosa, que procura esconder o falhanço da sua missão de tudo e de todos, ao mesmo tempo que lida com a frustração de nunca ter sido amado por Rachel. Csokas apesar de não desiludir, também não consegue surpreender, faltando-lhe aquela “aura” que rodeia Wilkinson. Por sua vez, Sam Worthington dá uma boa réplica a Ciarán Hinds, com ambos a interpretarem na perfeição o atormentado David, um indivíduo que perdeu toda a família no Holocausto e é obcecado por levar Vogel à justiça.
Durante esta estrutura tripartida do filme, cujo enredo deambula entre o presente/passado/presente, a troika de personagens tem de capturar o célebre “cirurgião de Birkenau”, uma figura ficcional, que é claramente inspirada na caça aos criminosos de guerra nazis, que conseguiram escapar com vida do país antes da invasão dos aliados. O talento de Christensen vem ao de cima como esta figura sombria e tenebrosa, cujo ódio sombrio aos judeus é notório quando afirma de forma assustadoramente dura “Why did you think it was so easy to exterminate your people? You're weakness. I saw it. Everyday I saw it. Everyone of them thinking only of how to avoid being flogged or kicked or killed. Everyone thinking only of themselves. Why do you think it only took four soldiers to lead a thousand people to the gas chambers? Because not one out of thousands had the courage to resist. Not one would sacrifice himself! Not even when we took they're children away! So I knew then, that you people had no right to live!”. A citação é longa, mas serve bem para exemplificar o carácter frio e calculista do personagem, que procura despertar o ódio em David, indo representar bem os momentos de violência psicológica a que os protagonistas são sujeitos. 
Através destes personagens, Madden e os guionistas aproveitam para fazer uma certa crítica ao elogio dos heróis nacionais e à forma demasiada apolínea como olhamos para os grandes heróis da nossa história, esquecemos que apesar dos seus grandes feitos estes também têm defeitos. Essa exacerbação do herói é desconstruída em “The Debt”, cujo enredo questiona os heróis e os seus actos, ao apresentar três agentes da Mossad que são laureados por algo que não cumpriram, a ponto de deixar-lhes graves feridas que certamente irão demorar muito tempo a sarar. São essas feridas que são reabertas no último terço do filme, quando a narrativa volta a desenrolar-se no presente e coloca os agentes a pagar “a dívida” para com todos aqueles que acreditaram nos heróis que supostamente eliminaram o perigoso “cirurgião de Birkenau”.
“The Debt” é um thriller inteligente e intenso, que capta a atenção do espectador devido aos excelentes diálogos e interpretações do seu elenco, composto por nomes como Helen Mirren, Tom Wilkinson e Jessica Chastain. Ao apresentar uma estrutura com dois tempos narrativos diferentes, John Madden tomou uma atitude corajosa visto ter corrido o risco de alienar o público ao colocar diferentes actores a interpretarem os mesmos personagens. Inicialmente esta decisão dificulta alguma conexão entre o espectador e os personagens, mas a verdade é que pouco tempo depois esquecer-nos de estar a ver um flashback e imergir na narrativa cuja intensidade depende do relacionamento entre os personagens e a forma como estes lidam com os erros e mentiras do presente e do passado. Todos nós cometemos erros no passado, Rachel, David e Stefan não são excepção. O problema é que os erros do passado, mais cedo ou mais tarde acabam por atormentar-nos, e é isso que o trio de protagonistas vai descobrir da pior maneira ao longo do enredo de “A Dívida".

Classificação: 3.5 (em 5)

Ficha técnica:
Título original: “The Debt”.
Título em Portugal: “A Dívida”.
Realizador: John Madden.
Guião: Matthew Vaughn, Jane Goldman e Peter Straughan.
Elenco: Helen Mirren, Ciarán Hinds, Tom Wilkinson, Jessica Chastain, Marton Csokas, Sam Worthington, Jesper Christensen.

2 comentários:

Sarah disse...

Que excelente resenha! Adoro ler os teus textos, muitos parabéns. Escuso de dizer que concordo praticamente com tudo o que disseste ;) Cumprimentos!

Sarah
http://depoisdocinema.blogspot.com

Aníbal Santiago disse...

Obrigada :)

Cumprimentos,
Aníbal