17 novembro 2011

Resenha Crítica: A Saga Twilight - Amanhecer Parte 1

Goste-se ou não a saga “Twilight” é uma das franquias mais populares dos últimos anos. Independentemente das críticas negativas e das constantes piadas de que é alvo, a saga conta com um conjunto de fãs fiéis, que impressionam pela devoção que têm aos personagens criados por Stephanie Meyer na série literária “Twilight”. Para o último capítulo da saga, os executivos da Summit Entertainment procuraram contratar um nome de peso e respeito para realizar o filme, tendo a escolha recaído em Bill Condon. Condon tem um currículo de respeito, tendo realizado obras como “Kinsey” e “Dreamgirls”, este último nomeado para oito Óscares da Academia em 2007. O guião ficou nas mãos da argumentista da “casa”, Melissa Rosenberg, que elaborou a adaptação de todas as obras da saga ao grande ecrã, sempre com a supervisão e apoio de Stephanie Meyer. Desta vez, Rosenberg teve bem mais trabalho, visto o seu trabalho não passar só por elaborar a adaptação do último livro da saga “Twilight”, mas também criar um guião interessante para as duas partes em que o filme foi dividido, tendo em vista a estender a sua história pueril ao máximo.

 A história de "A Saga Twilight - Amanhecer Parte 1" começa pouco tempo depois do último filme, com os preparativos para o casamento de Edward e Bella, um dos momentos supostamente mais emotivos da saga, em que o jovem casal finalmente oficializa a sua relação junto de tudo e de todos. A cerimónia tem alguns bons momentos, com o pai de Bella a ter o discurso mais emotivo e sincero, não faltando vários discursos engraçados e comoventes dos vários personagens que têm marcado a franquia. Como não poderia deixar de ser, o lobisomem Jacob ainda aparece para despedir-se de Bella antes desta se tornar uma vampira, mas o encontro termina da pior maneira, com o jovem a arranjar confusão com tudo e todos, acabando por manchar um pouco a cerimónia, antes de correr velozmente em direcção aos outros lobisomens, onde irá demonstrar toda a sua insatisfação e ressentimento para com Edward, ameaçando que poderá eliminar o rival se este vitimar Bella. Enquanto isso, o pálido casal parte em direcção ao Rio de Janeiro para gozar a lua de mel, indo posteriormente para uma ilha chamada Esme, onde irá pela primeira vez consumar a relação, noutro momento muito esperado pelos fãs e que certamente irá tirar muitos sorrisos dos seus lábios ao verem o estado de destruição maciça em que ficou o quarto depois de Edward e Bella terem a primeira relação sexual.

 Tudo parecia correr da melhor maneira até Bella inesperadamente engravidar, algo que parecia impossível tendo em conta que esta é humana e Edward um vampiro. A gravidez é vista como um mau pronúncio, sobretudo quando a mulher do caseiro revela que a rapariga carrega consigo a morte, deixando o jovem casal muito apreensivo. A criança que Bella carrega no seu ventre começa a consumi-la por dentro, indo aos poucos tirar-lhe a vida, deixando tudo e todos muito apreensivos e com um sentimento de impotência quanto ao destino da jovem. Enquanto desesperam para ajudar Bella, os restantes vampiros terão ainda de lidar com a ameaça dos lobisomens, que quebram o tratado ao querer assassinar a filha que Bella carrega no ventre, levando Jacob a tomar uma das decisões mais importantes ao longo da saga. A luta pela vida de Bella e de Renesmee está mais feroz do que nunca, com o clã Cullen a contar com um aliado de última hora.

“A Saga Twilight - Amanhecer Parte 1” surpreende em certos momentos, mas perde em comparação com os anteriores filmes da saga (algo que não é bom), ao estender em demasia um enredo demasiado leve para ser dividido em dois filmes. A cena do casamento demora cerca de vinte e cinco minutos da obra, os problemas decorrentes da gravidez de Bella ocupam metade do filme, enquanto o confronto final entre vampiros e lobisomens é curto e termina de forma anti-climática, com o filme a apresentar um enredo sem chama, cujos melhores momentos não chegam para interessar e cativar o espectador. A juntar a tudo isso, o suposto cunho pessoal de Bill Condon acaba por diluir-se numa estrutura de produção pré-estabelecida, que tal como no caso David Slade em “A Saga Twilight: Eclipse” pouco ou nada se notou, tendo trabalhado para o cheque, deixando a dúvida sobre o que andou o realizador de “Kinsey” e “Dreamgirls” a fazer durante todo o filme. É incompreensível como um realizador do seu calibre falhe em conseguir incutir um certo dinamismo na obra, mesmo que não tenha um bom guião a ajudar. O seu trabalho tem alguns rasgos de genialidade, como a cena em que Bella sonha que todos os convidados do casamento foram assassinados pelos Volturi, as cenas futuras da vida de Renesmee quando Jacob marca a rapariga, ou num trecho ao modo “A Árvore da Vida” a mostrar os melhores momentos da vida de Bella, até esta transformar-se numa vampira, mas tudo isso é muito pouco para uma obra que tem quase duas horas de duração.

 Vários dos problemas que minaram a franquia nos filmes anteriores continuam a prevalecer no novo filme da saga, com certos diálogos inexplicáveis a distraírem o espectador em diversos momentos de maior densidade emocional, bem como certas incoerências do guião, que geram risos em vez de tensão e dramatismo. Esse caso é claramente flagrante nas cenas em que Jacob está presente, em que o lobisomem tem tiradas tão geniais como apontar para Edward e gritar “a culpa disto é tua”, quando vê Bella grávida, num momento em que nos questionamos sobre como terá chegado a tão brilhante e eloquente decisão. Quanto ao enredo, não se percebe muito bem o porquê apresentar a temática da gravidez de Bella e do bebé que a consome por dentro em mais de uma hora de filme, e depois lança um confronto final entre vampiros e lobisomens que termina passado cinco minutos com uma justificação meio caricata. Ora, tendo em conta a forma como o enredo se estende de forma excessiva, torna-se incompreensível porque é que a dita forma que Jacob marcou Renesmee não foi explicada aos leigos espectadores. Quem leu os livros é capaz de perceber o que terá acontecido, mas quem viu apenas o filme terá certamente ficado a pensar no que terá mesmo acontecido, sem que exactamente chegue a uma conclusão sobre o assunto.

 Se a saga nunca brilhou pelo argumento, também não estaremos a surpreender ninguém que a qualidade das interpretações não é o ponto forte, embora neste capítulo Robert Pattinson e Kristen Stewart tenham mais espaço para sobressair, enquanto Taylor Lautner perde a aura irritante da figura descamisada e pouco expressiva dos outros filmes para tornar-se no alívio cómico e no grande apoio de Bella, indo lutar contra tudo e contra todos para defender a amada. Destes elementos, Kristen Stewart surpreende pela positiva, ao incutir na personagem uma densidade nunca antes vista na mesma. Taylor Lautner surpreendentemente só aparece uma vez descamisado, com Bill Condon a poupar os espectadores de uma das imagens de marca da franquia, que tantas paródias e piadas tem gerado. Este talvez seja mesmo a grande surpresa do filme ao variar entre o personagem atormentada por ver a amada nos braços de outro, para passar a ser o grande apoio de Bella, indo lutar contra tudo e contra todos para a proteger, mesmo que isso signifique ficar ao lado dos Cullen, com o filme a apresentar alguns avanços em relação às outras obras da saga.

 A falta de ritmo e as incoerências do guião não chegam para tirar ao filme o condão de ter finalmente avançado com alguns pontos-chave da saga, como o casamento entre Bella e Edward, o casal finalmente consumar a relação, e a jovem rapariga a tornar-se uma vampira, naquele que talvez fosse o momento mais esperado da saga, surgindo como um prelúdio para o grande final, algo que tira em grande parte o investimento emocional que o cinéfilo coloca na obra. Apesar de tudo, o filme apresenta alguns bons momentos, indo finalmente avançar com a relação entre Bella e Edward, algo que parecia impossível de acontecer, tendo em conta como a história do casal tem-se arrastado ao longo dos últimos dois filmes. O casamento de Edward e Bella é bem conseguido, bem como as cenas posteriores da Lua de Mel, no entanto, o filme perde algum fulgor a partir da segunda metade, em que assistimos a um arrastar excessivo do caso em torno da gravidez de Bella e percebemos que a história pouco tem mais para nos dar, a não ser servir de aperitivo para o último filme da saga e aumentar os lucros da Summit. “A Saga Twilight – Amanhecer Parte 1” sofre de uma grave falta de ritmo com grande parte do enredo a estender-se em demasia a ponto de perder toda e qualquer emotividade, tendo sido feito apenas para os fãs da saga, surgindo como uma obra dispensável e insonsa, que desperdiça a oportunidade de começar em grande a primeira parte do último capítulo de uma franquia cuja popularidade é completamente incompreensível.

Pontuação: 1.5 (em 5)

Ficha técnica:

Título Original: The Twilight Saga: Breaking Dawn Part 1.
Título em Portugal: A Saga Twilight - Amanhecer Parte 1.
Realizador: Bill Condon.
Guião: Melissa Rosenberg-
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Peter Facinelli, Ashley Greene, Kellan Lutz, Jackson Rathbone, Elizabeth Reaser, Nikki Reed, Billy Burke, Rami Malek, Michael Sheen, Maggie Grace.

2 comentários:

H. Barcelos disse...

boa crítica (e em tempo recorde). penso que eles já têm andado a fazer enredos do género nos últimos filmes, mas nos livros (pelo menos no 1º e 2º, os que li) é a mesma história. 300 páginas sobre a relação entre os moços, eventualmente acaba por surgir uma ameaça, é criada alguma tensão na antecipação de um confronto iminente, cada vez mais próximo, já só faltam cada vez menos páginas, estamos quase lá... e zás! 15 páginas e acabou tudo. E ficamos um bocado frustrados.

pronto e foi o meu desabafo do dia. em suma, boa crítica.

Aníbal Santiago disse...

O mais engraçado foi mesmo num dos momentos de maior tensão da saga, começar a ouvir risos por toda a sala. Diz tudo do filme.