22 novembro 2011

Resenha Crítica: Nos Idos de Março (2011)

Os bastidores da política sempre geraram enorme curiosidade e dúvidas, sendo conhecidos pela prática de jogos estratégicos elaborados, cuja ética e acções por vezes são pouco recomendáveis. “Nos Idos de Março”, o novo filme realizado por George Clooney apresenta um retrato seco e incisivo a este curioso mundo, através da figura de um jovem idealista e entusiasmado que quer vingar na política e logo acaba por ser sugado pelo cinismo que circula à sua volta, tendo como base a peça de teatro "Farragut North", que por sua vez tinha sido inspirada na campanha às primárias do candidato do Partido Democrata, Howard Dean em Des Moines, no Iowa, algumas semanas antes de o Partido Democrata escolher o candidato para a concorrer à Presidência dos Estados Unidos da América.
 No início do filme somos desde logo apresentados a Stephen Meyers (Ryan Gosling), um dos responsáveis pela campanha do Governador da Pennsylvania, Mike Morris (George Clooney), às presidenciais pelo partido Democrata. A sua importância na estratégia da campanha é tão grande como o destaque que a câmara de filmar lhe reserva, num grande plano geral do auditório onde ensaia o discurso que será dito pelo candidato. No meio de tão grandioso cenário, é este pequeno personagem que sobressai; é nesta figura jovem, entusiasmada e idealista que dependem parte dos destinos da campanha. Pouco depois, vemos o político interpretado por Clooney a recitar o discurso elaborado pelos seus homens de confiança, e percebemos que este será sempre uma sombra dos seus homens-sombra. Enquanto este debate contra o seu adversário político, Stephen Meyers e Paul Zara (Philip Seymour Hoffman) observam atentamente a forma como este utiliza os seus textos, ao mesmo tempo que argumentam contra o director da campanha adversária, o astuto e venenoso Tom Duffy (Paul Giamatti).
 O enfoque do enredo será a campanha de Morris e a forma como os seus dois homens fortes, interpretados por Gosling e Hoffman, preparam minuciosamente a campanha, desde os textos aos anúncios e notícias soltos para a imprensa, passando por convencer possíveis apoiantes ao candidato, praticando as mais diversas artimanhas presentes no jogo político. Pelo meio, teremos um jogo de sedução efectuado por Tom Duffy a Stephen Meyers, para que este último passe para o seu lado da campanha, algo que trará graves repercussões para este último. Durante o primeiro terço do filme temos, assim, traçadas as peças de cada um dos personagens deste jogo de xadrez. Curiosamente, os candidatos interpretados por Clooney e Mantell acabam por ser meros peões neste jogo, em que os verdadeiros reis e rainhas estão nas figuras dos seus directores de campanha. Os dois apresentam-se como candidatos dicotómicos. Morris pretende demonstrar que é um político progressista e inovador, que quer voltar a colocar os Estados Unidos no topo do Mundo e deixar de depender do petróleo, enquanto Pullman apresenta um carácter mais conservador, identificando-se com uma linha política mais ligada à tradição. O candidato acaba por ter um papel bastante secundário, com George Clooney a manter-se sabiamente na sombra de Gosling (e sim estou mesmo a falar do desempenho dos actores).
 A Mike Morris resta apenas dar o seu toque pessoal aos discursos feitos pelos seus homens, arbitrar alguma decisão menos consensual na campanha e, sobretudo, não meter o pé na argola e mostrar que é um homem respeitável e bom pai de família, ou seja, que é exemplar na sua conduta. O problema é que, quando os esqueletos no armário começam a saltar, Meyers percebe que Morris não é o homem perfeito e ideal pelo qual lutou durante grande parte da campanha. Morris, realmente, também tem os seus pecados escondidos, e estes surgem na figura da bela Molly Stearns, por quem o personagem de Gosling se apaixona, e que está grávida de um filho ilegítimo do político, após um breve affair que mantiveram durante a estadia da campanha no Iowa. Responsável pela campanha de Morris, o jovem Meyers acaba por ajudar a rapariga a abortar, após o político rejeitar toda e qualquer ajuda. O problema é que, quando a rapariga se vê só e isolada, com todo o mundo a ruir sobre os seus pés, acabar por cometer suicídio. Este acto desesperado de Molly é a primeira casualidade de guerra da campanha, com tudo e todos a parecerem querer fugir à responsabilidade menos Meyers, que emerge de corpo e alma neste obscuro mundo das sombras políticas.
 “The Ides of March” apresenta um retrato duro e seco do mundo dos bastidores da política moderna e da ideologia por detrás dos políticos, através da transformação do personagem de Ryan Gosling. Este inicia o filme como um jovem idealista, que acredita na liderança e visão do seu candidato, que acredita no facto de este ser “the only one that's actually going to make a difference in people's lives", mas aos poucos tudo muda, com a morte de Molly a ser a alavanca que irá colocar Meyers nas sombras. É curioso verificar como os efeitos de câmara acompanham a transformação do personagem de Gosling. Inicialmente, este aparece rodeado por um cenário de luz e alegria, indo aos poucos emergir nas sombras e em cenários escuros e tempestuosos. Esta situação é paradigmática nos dois encontros principais que este mantém com Molly. No primeiro, num jantar romântico, o casal é rodeado pelas quentes luzes sobre os seus rostos, exacerbando o momento de felicidade e sedução. No entanto, o segundo encontro é recheado de sombras e escuridão, com este último a dar-lhe o dinheiro para abortar e a pedir para que desapareça. Meyers aparece assim como um outsider da política, que ao longo da desgastante campanha acaba por embrenhar-se neste mundo e transformar-se completamente, aprendendo todas as estratégias para sair por cima e levar a melhor sobre tudo e todos.
 No início da crítica comentei o facto de “The Ides of March” ser inspirado numa peça teatral. Esta situação é assaz evidente em várias das sequências do filme, sobretudo nas cenas que exigem reflexão por parte do triunvirato formado pelos personagens de Clooney, Giamatti e Gosling, a ponto de chegarmos a ter uma cena que estes estão os três numa sala isolada, sentados a conversar, numa cena típica do teatro e atípica do cinema. Diga-se que as cenas em que estes três estão juntos fazem com que o filme ganhe outra dinâmica, com o talento da troika a brilhar mais do que nunca. Várias outras cenas centram-se em personagens a conversar aos pares, ou entre si, situação que confere um tom algo intimista ao filme, embora lhe retire alguma dinâmica, numa obra recheada de deliciosos pequenos pormenores.
  Se já abordámos os efeitos de luz e sombra que rodeiam o personagem e a ética do personagem de Gosling, bem como a sensibilidade teatral da obra, falta ainda abordar o curioso título do filme. Este remete para os Idos que, no calendário da Roma Antiga, representam uma das três divisões dos meses (as outras eram as calendas e as nonas). Os idos eram a 15 de Março, Maio, Julho e Outubro e a 13 nos restantes meses. Os idos mais célebres são os idos de Março do ano 44 a.C., data em que foi assassinado Júlio César às mãos de Brutus e outros conspiradores. No caso dos “Idos de Março” do filme, Júlio César não é assassinado, mas cai às mãos do seu Brutus, que trai tudo e todos para colocar o tabuleiro político a seu favor. Esta curiosidade serve sobretudo para demonstrar o quão rica é esta obra, que peca apenas por apresentar um ritmo lento e pouco dinâmico, estendendo em demasia certas narrativas, algo que advém demasiado da sensibilidade teatral que Clooney incutiu surpreendentemente na obra.
 Aliás, o trabalho de Clooney como realizador é bem acima da média, sendo claramente a obra mais conseguida como cineasta a par de “Good Night and Good Luck”. O seu trabalho é bastante visível ao longo do filme, sobretudo na forma como pretende que cada plano e cada sequência tenha o seu sentido, beneficiando e muito do bom trabalho do director de fotografia. No entanto, o brilho maior é de Ryan Gosling, com o actor a brilhar de uma forma magistral perante um elenco composto por senhores como George Clooney, Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman. É através do seu Stephen Meyers que todo o enredo desenvolve-se e gira, é através da sua descida às sombras, ao “lado negro”, que assistimos à corrupção moral que o mundo da política pode causar num indivíduo. Aliás, o mundo da política é fortemente criticado ao longo do filme e isso é indubitável, numa clara crítica à forma como os destinos dos Estados Unidos da América são governados. Por vezes, chega a ser quase cómico verificar como os personagens falam sobre os cargos milionários que vão exercer após o final da carreira política, num problema que é encontrado à escala global.
 Importa ainda traçar um breve comentário ao elenco principal do filme. Se Gosling brilha, para isso teve que ter uma verdadeira constelação de estrela que subisse a fasquia, e isso é por demais evidente nas figuras de George Clooney, Philip Seymour Hoffman e Paul Giamatti. Clooney aparece num estilo mais sóbrio do que o habitual, como o candidato Mike Morris, um personagem aparentemente incorruptível e imaculado que tem os seus telhados de vidro. O intenso frente-a-frente que este terá com Gosling na parte final do filme, irá certamente ficar entre os momentos cinematográficos mais marcantes deste ano. Hoffman e Giamatti aparecem mais uma vez magistrais, dois grandes actores que não conseguem representar mal, que efectuam dois cínicos e ardilosos directores de campanha, capazes de tudo para colocar os seus candidatos no topo da política, considerando tudo e todos descartáveis se estes não fizerem parte dos seus planos políticos, com o filme a ser bastante eficaz na exploração da interacção destes personagens e dos jogos políticos.
 “Nos Idos de Março” apresenta um retrato seco e incisivo sobre o duro mundo dos bastidores da política, em que os envolvidos movimentam as suas jogadas como se de um jogo de xadrez se tratasse, numa crítica dura e pouco meiga aos políticos e ao modo de fazer política. O filme marca um regresso em grande de George Clooney à cadeira de realizador, três anos depois de nos trazer o mediano “Leatherheads”, cujas críticas e receitas de bilheteira desiludiram e muito aqueles que acreditavam no talento do astro de “Ocean´s Eleven” como realizador. Desta vez, o realizador apresenta um filme mais ao estilo de “Good Night and Good Luck”, mais focado nos personagens e na interacção entre estes, criticando os bastidores da política através de um jovem idealista, que é corrompido por este mundo que tem tanto de aliciante como de obscuro. Para o sucesso deste filme, muito contribuiu a estrela do momento, Ryan Gosling, que aos poucos tem vindo a conquistar o coração de Hollywood e do público, sendo muito possível que esteja mais tarde ou mais cedo entre os nomeados para os Óscares. Os Idos de Março deixaram de ser conhecidos apenas pela morte de Júlio César, para passarem também a ser conhecidos como o filme de George Clooney, e isso é dizer muito da obra. Um filme a não perder.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título original: “The Ides of March”.
Título em Portugal: “Nos Idos de Março”.
Título no Brasil: "Tudo Pelo Poder".
Realizador: George Clooney.
Guião: Grant Heslov, Beau Willimon.
Elenco: Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Evan Rachel Wood.

2 comentários:

Bruno Cunha disse...

Além da qualidade deste filme (que, espero eu, seja boa), também estou curioso para ver se Clooney será um realizador a seguir no futuro.

Abraço
Frank and Hall's Stuff

Aníbal Santiago disse...

O The Ides of March está bastante bom. A par de "Good Night and Good Luck" é um dos melhores filmes do famoso actor como realizador, veremos no futuro se irá manter o ritmo ou se irá voltar a realizar obras irregulares como "Leatherheads".

Cumprimentos.