26 novembro 2011

Resenha Crítica: In film nist (Isto não é um filme) - 2010

“Isto Não É Um Filme” é uma das obras mais peculiares que passaram pelo nosso país neste ano e, longe de ser uma das que mais entretém, é sem dúvida das mais intrigantes. O seu autor é Jafar Panahi, um simpático realizador iraniano que desde o início da década de 90 tem encabeçado uma nova vaga de cineastas do seu país, sendo respeitado por entre e para além das fronteiras do Irão, não apenas pela mestria da sua realização mas por, através dela, ir criticando de forma subtil mas incisiva alguns dos graves problemas sociais que afectam o povo iraniano, que há várias décadas se encontra num regime ditatorial encabeçado desde 2005 por Mahmoud Ahmadinejad. Deste modo, enquanto “Sangue e Ouro”, de 2003, abordou a corrupção e o fosso entre os grupos sociais iranianos, “O Círculo” e “Offside” (de 2000 e 2006, respectivamente) ilustram a degradante falta de direitos no que respeita às mulheres no seio da sociedade iraniana. Estas obras, entre outras, propiciaram ao realizador um currículo respeitável, engrandecido por prémios de reconhecido valor, entre os quais se destacam o urso de prata do Festival Internacional de Cinema de Berlim e o prémio do júri no Festival de Cannes.
As temáticas e os conteúdos dos seus filmes, infelizmente, não passaram com indiferença ao regime iraniano, que emitiu uma ordem de prisão em seu nome em Março do ano passado. Depois de um período de prisões e libertações sucessivas, aquando da realização desta obra Panahi encontrava-se em prisão domiciliária, depois de ter sido condenado a uma pena de seis anos de prisão, momentaneamente suspensa devido a um apelo por parte do seu advogado. Estava ainda proibido de sair do país, de filmar, de escrever argumentos e de dar entrevistas durante 20 anos. A acusação? Conspiração e congregação com a intenção de cometer crimes contra a segurança nacional e fazer propaganda contra a República Islâmica do Irão.
Encarcerado no seu próprio apartamento (que ao menos é grande e bonito), Panahi decidiu realizar uma obra, confinada do início ao fim ao perímetro do prédio onde vive, limitando-se a documentar um dia do seu cárcere. Sem ter, à partida, um objectivo específico exceptuando o da documentação em si, a película acaba por ter uma precisão e uma intencionalidade bastante surpreendentes.

Para verem o resto da crítica é só carregarem em "mais informações".



A obra inicia-se de manhã, ao pequeno-almoço (e sabemos isto porque vemos Panahi a comê-lo), e as primeiras horas do dia, filmadas sempre com a câmara pousada algures, abandonada e a gravar, servem como uma espécie de introdução de carácter geral - à situação jurídica de Panahi - e particular - às incidências do dia – manifestada principalmente sob a forma de três telefonemas.
Neste sentido, a primeira cena do dia centra-se no realizador, sentado sozinho à mesa do pequeno-almoço, a servir-se do telemóvel para falar com o seu amigo Mojtaba Mirtahmasb (realizador do documentário “Lady of the Roses”, entre outros), pedindo-lhe que o ajude a concretizar umas ideias em sua casa, as quais não podem ser pormenorizadas ao telefone. O segundo telefonema é-lhe feito pela esposa, alguns minutos depois, sendo atendido pelo voice-mail, e nele somos dados a conhecer que a sua mulher e filha estarão fora de casa o dia todo. O terceiro, por sua vez, é feito pelo realizador à sua advogada, que lhe dá um status quo da sua situação jurídica: há poucas esperanças de não cumprir a pena de seis anos, mesmo face às eventuais demonstrações de apoio vindas de fora e de dentro do país. A apreensão subsequente de tal novidade é visível no realizador, criando uma empatia imediata no espectador.
Estando feita a introdução de forma simples e natural, sem que Panahi dissesse praticamente o que quer que fosse para a câmara, falta conhecer Igy, a iguana de estimação da sua filha, que apresenta um porte respeitável e que vai deambulando livremente pela casa, negando-se comicamente a obedecer ao seu dono. Literalmente adorável, este belo animal irá aparecer a espaços no resto da película, cativando o espectador pelo seu exotismo e pela forma pachorrenta com que vai passeando de um lado para o outro.

É-nos, de seguida, apresentado o próprio Mojtaba, que chega a casa do amigo, dando início a um novo capítulo da obra. Passando a manusear a câmara, esta deixará de ficar estacada em cima de um qualquer móvel, começando a seguir o realizador com um maior dinamismo. É com ela que, atentamente, o amigo grava a transmissão da ideia de Panahi, que daria o propósito à película em questão: estando proibido de filmar e de escrever um argumento, não há nada que o impeça de ler em voz alta um guião já escrito, de um filme que não o deixaram realizar. Deste modo, “Isto Não É Um Filme”, não seria um filme. E é precisamente imerso neste empreendimento que se passam os minutos seguintes – Panahi narra a história de uma rapariga de classe baixa que, desejando abandonar a casa onde vive com os pais para frequentar a universidade, é trancada por estes dentro da sua modesta habitação, passando o resto do filme a procurar uma maneira de escapar das quatro paredes que a encerram. A tarefa acaba por ser interrompida com frustração pelo realizador - “se um filme pudesse ser contado, então por que razão seria filmado?” - deixando-nos entrever, no entanto, uma curiosa semelhança entre a situação da rapariga e a do realizador.
Os minutos seguintes documentam a tarde de Panahi através da lente do amigo. O realizador explica alguns excertos dos DVDs de alguns filmes da sua autoria, ao mesmo tempo que, aos poucos, e de forma contínua, se vão ouvindo alguns barulhos vindos do exterior, suspeitosamente semelhantes a tiros. Panahi procura informar-se do que se passa, tentando aceder à Internet, evidenciando o facto de não ter acesso a um número considerável de sites, censurados, ligando igualmente a televisão, que é tudo menos informativa.
Antes do cair da noite, que irá marcar a última fase do filme, poderemos ver algumas cenas verdadeiramente cómicas e contrastantes com o teor do enredo, todas ligadas a Igy, o verdadeiro alívio cómico do filme. Ao vermos a iguana subir inocentemente para o colo do dono ou a trepar pacientemente uma estante, não podemos evitar sentirmo-nos interessados e curiosos enquanto seguimos os passos do fascinante animal. Outra situação particularmente engraçada tem lugar quando uma vizinha de Panahi lhe pede que tome conta de Micky, o seu cãozinho, conseguindo convencê-lo, apesar da sua resistência, de que só demorará algumas horas até vir busca-lo. O pobre animal, no entanto, assim que entra em casa e é deparado com um lagarto de porte maior que o seu, desata a ladrar, procurando parecer feroz na sua pequenez, acabando por ser expulso comicamente do apartamento.

O final do filme, por fim, traz consigo um crescente clima de tensão, que se vai acentuando com o cair da noite. Os ruídos (semelhantes a tiros) ouvem-se com mais frequência, surgindo aqui e ali uma sirene de uma ambulância. Ouvimos igualmente o rebentamento de alguns foguetes, que vão iluminando diversos lugares da cidade de Teerão, filmados através da varanda do apartamento. É, de seguida, transmitida uma declaração do regime na televisão, que só vem apimentar o clima – apesar do feriado, é ilegal rebentar fogo-de-artifício, e quem o fizer estará a praticar um crime contra a República do Irão. O feriado em questão (que marca o fim do ano persa, mas isso não sabemos durante o filme) acaba, assim, por tomar os contornos de um contundente protesto contra a autoridade do governo de Ahmadinejad.
A tensão aumenta novamente com outro telefonema (a única coisa que liga Panahi ao mundo exterior), por parte de um amigo que descreve o clima de insegurança e nervosismo no qual a cidade imergiu. O seu autor acaba por se ver forçado a desligar, provocando um momento de autêntico suspense, voltando a ligar, instantes depois, narrando o controlo policial que lhe revistou o carro depois de terem descortinado uma câmara de filmar no banco de trás. É neste contexto que Mirtahmasb, que ainda se encontrava a filmar, se despede do amigo, revelando estar preocupado com o seu filho, que também tomou parte no fogo-de-artifício.
Ao sair, encontra um simpático jovem no elevador, que irá protagonizar os minutos finais do documentário. De forma conveniente para Panahi e para o espectador, este assemelha-se a uma autêntica personagem de um filme cómico – é simpático e nervoso, manifestando conhecer e respeitar o realizador, ao mesmo tempo que refere repetidamente a sua pena por não envergar uma roupa mais apresentável, pois vestira-se a pensar na tarefa que iria, e que estava agora a desempenhar: a recolha do lixo dos apartamentos. Juntando-se à sua empresa, Panahi esconde-se no elevador com a câmara ligada, à medida que ambos vão parando em todos os andares. Acabam por verificar que o prédio está praticamente deserto, por terem ido todos à celebração (ou manifestação) inerente ao feriado. Nos instantes finais, saindo para o pátio exterior, é possível vislumbrar, para além das grades que limitam o perímetro do prédio, um grupo de indivíduos a celebrar o feriado de forma entusiasta, tendo acendido uma fogueira de proporções consideráveis no meio da rua. A escuridão, o fogo, os gritos e o rogo por parte do jovem para que o realizador se esconda para que não o vejam a gravar, finalizam o filme num autêntico clima de tensão.

Apesar da extensão das minhas (e nossas) críticas no nosso blogue, procuro (e procuramos), ao narrar a história do filme, evitar contá-la do início ao fim, deixando-a em aberto para quem o irá visionar posteriormente. Neste caso, onde não é tanto a imprevisibilidade ou o entretenimento da obra que interessam, mas sim a sua mensagem, optei por uma abordagem diferente, para melhor exemplificar as minhas considerações finais.
Do início ao fim do documentário, somos confrontados com pormenores que parecem tudo menos ingénuos e que nos fazem pensar no quão intencional é a sua realização, apesar da aparente ingenuidade do seu autor. A própria estrutura do filme, ao incluir uma introdução aparentemente espontânea mas esclarecedora, e apesar de, antes da segunda metade, permitir a existência de um breve período de monotonia, faz com que sejamos rapidamente cativados pelo palpável clima de tensão que se vai instaurando progressivamente, agravando-se até ao final. Entretanto, a existência de ocasionais situações cómicas servem para aligeirar, de vez em quando, a seriedade que envolve a história.
A intencionalidade, no entanto, parece manifestar-se principalmente em vários detalhes do filme que parecem providos de um manifesto simbolismo, proporcionando algumas agressões certeiras ao regime iraniano. É o caso do guião que Panahi procura narrar, que expõe uma mentalidade degradante da sociedade iraniana, ou mesmo da censura verificável na internet e na televisão, ambas rigorosamente controladas. Mas, acima de tudo, e de longe, é na manifestação decorrente do fogo-de-artifício, que adquire os contornos de um violento protesto, que se reveste a machadada final do realizador ao regime liderado por Ahmadinejad. A resistência da população iraniana às ordens do governo e a sua adesão ao fogo-de-artifício, bem como os controlos policiais disseminados pela cidade, demonstram ao espectador que a insegurança e a vivacidade da oposição existente no seio da sociedade estão bem presentes, tal como o regime do seu líder não está solidamente controlado.
Na introdução desta crítica, mencionei que Panahi não só era reconhecido pela mestria da realização, mas também por demonstrar, de forma subtil e incisiva, alguns problemas sociais que caracterizam o seu país. “Isto Não É Um Filme” é apenas a continuação desse trabalho. Também de forma subtil e não menos incisiva, o realizador acaba por documentar o autoritarismo do regime que o mantém cativo, bem como a oposição de que este é alvo. Ironicamente, é devido à censura que foi imposta sobre a sua arte que esta foi aproveitada pelo seu detentor para lhe dar um maior impacto e precisão. A ironia manifesta-se no próprio título do filme que, destacando-se a branco num fundo negro, é a última imagem a ser mostrada ao espectador.
São raras as vezes em que uma película adquire contornos tão mais importantes do que os filmes que, com ela, preenchem as salas de cinema portuguesas. O mais provável, no entanto, é que quem não souber ou não quiser saber quem é Jafar Panahi, ou quem estiver à procura de puro e simples entretenimento (perfeitamente compreensível) não terá grande interesse em a visionar. Mas que não reste dúvidas de que “Isto Não É Um Filme”, que viajou até Cannes escondido numa pen USB, por sua vez escondida num bolo, do qual se seguiram não apenas na rejeição do apelo efectuado pelo realizador ao tribunal iraniano, mas também a prisão do seu amigo, o realizador Mojtaba Mirtahmasb, acusado de espionagem, é uma demonstração da profundidade de que uma obra de cinema se pode revestir quando nas mãos certas, e com um objectivo genuíno.

Pontuação: 4

Ficha Técnica:

Realização: Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb

Guião: Jafar Panahi

Elenco: Igy, a iguana


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