15 novembro 2011

Resenha Crítica: "50/50" (2011)


"50/50” é o projecto mais recente do produtor (que neste filme é argumentista) Will Reiser e do realizador Jonathan Levine. Tendo estreado no dia 3 de Novembro, só soubemos da sua existência poucos dias antes, principalmente devido à sua inexistente campanha de marketing, pelo menos em Portugal, certamente relacionada com as poucas garantias dadas pelo filme à partida, tendo em conta que Reiser, até á data, nunca escrevera um argumento, e Levine realizava apenas o seu terceiro filme, precedido de duas películas com níveis de popularidade e aclamação relativamente modestos.
-->O elenco, mais consistente, juntou um grupo de actores relativamente jovens mas já bem estabelecidos a um de veteranos com algum reconhecimento. Destaca-se, no primeiro grupo, acima de tudo, Joseph Gordon-Levitt, a personagem principal, que, não parecendo, já entrou na casa dos 30, e que, apesar de um currículo bem razoável, só se começou a fazer notar há um par de anos, depois das interpretações de “500 Days of Summer” e, principalmente, de “Inception”. A coadjuvá-lo estão Seth Rogen, da mesma geração mas de características bem diferentes, ressaltadas no protagonismo de alguns filmes de comédia surpreendentemente bons, como “Superbad”, “Knocked Up” e “Pineapple Express” (a não ser que queiramos considerar “Green Hornet” uma comédia) e duas jovens actrizes de cada vez mais reconhecido talento, como são Anna Kendrick, a rapariga de “Up in the Air” e dos papéis secundários de “Scott Pilgrim vs. the World” e dos filmes da saga “Twilight” e Bryce Dallas Howard, a ruiva de olhos verdes que, há alguns anos, se destacou com uma excelente interpretação em “The Village”, seguindo-se bons desempenhos em “Manderlay” e em “Lady in the Water” (curiosamente também entrou em “Eclipse”, da saga “Twilight”). Entre os veteranos destacam-se Serge Houde, Anjelica Houston, Matt Frewer e Philip Baker Hall, todos com um currículo respeitável, constituído por filmes de maior ou menor discrição.
-->De certa forma surpreendentemente, a equipa de produção e os referidos actores e actrizes conseguiram criar um dos filmes mais emocionantes e envolventes do ano, tendo Reiser provado ser um excelente argumentista, Levine um realizador competente e Gordon-Levitt um dos melhores actores da sua geração. No decorrer da minha crítica procurarei explicar todos os contornos desta obra e o que faz com que ela mereça tais ousados elogios. Começarei, no entanto, e como de costume, pela sua história.

Para o resto da crítica, é só carregarem em "mais informações".

-->Joseph Gordon-Levitt é Adam, um jovem simples, simpático e reciclador, que vive sozinho numa casa discreta e que trabalha numa estação de rádio, onde se encontra a preparar uma peça sobre um vulcão que ele e só ele considera ser de interesse público. A sua namorada Rachael, protagonizada por Bryce Dallas Howard, é uma também simpática pintora amadora. No entanto, como que por oposição, é excêntrica, demasiado calada e suspeitosamente fria. A cena inicial do filme, em casa de Adam, introduz-nos à relação entre ambos. Nela, vislumbramos uma mistura de simpatia e cordialidade com alguma falta de comunicação que, até certo ponto do filme, irá passar despercebida.
-->No meio de uma típica conversa conjugal, ambos são interrompidos abruptamente por Kyle (Seth Rogen) que, estacionado à porta da casa, buzina repetidamente, sem dó nem piedade. Este é o melhor amigo e companheiro de trabalho de Adam e será o único que o irá acompanhar através da sua doença. É um jovem bem-disposto e sem pudor com o qual é quase impossível não simpatizar, apresentando uma predilecção (e um jeito) especial para falar com raparigas.
-->A vida de Adam é subitamente abalada quando, numa consulta de rotina, no seguimento de uma aparentemente inofensiva dor de costas, um médico (autêntico cretino) lhe informa, sem rodeios, e sem que nada o previsse, que o jovem contraiu uma espécie rara de cancro sob a forma de um tumor nas costas, não tendo outra opção senão aguentar a quimioterapia e esperar pelo melhor. As suas hipóteses de sobrevivência, descobre posteriormente, são de 50%.
-->Meio abalado pelo choque mas não se deixando abater, antes pelo contrário, o jovem telefona para a mãe dois ou três dias depois, um sinal do afastamento de ambos, combinando um jantar caseiro para lhe transmitir a notícia. Somos, deste modo, apresentados aos seus pais, Diane (Anjelica Houston) a mãe, exageradamente dramática mas até boa pessoa, preocupando-se com o filho e cuidando exemplarmente do marido. Este, Richard (Serge Houde), sofre de Alzheimer, já num estado avançado, e permanecerá a quase totalidade do filme calado, contribuindo a existência de um forte sentimento de apreensão por parte do espectador.
-->No seguimento do processo de tratamento e acompanhamento, Adam irá conhecer três personagens, uma menos secundária que as outras, mas todas muito marcantes. A primeira é Katherine (Anna Kendrick), uma psicóloga jovem e inexperiente que se encontra a tirar o doutoramento e, entretanto, encarregue de o acompanhar. É desajeitada e simpática e irá desenvolver com Adam uma relação que ultrapassa aquela que é normalmente estabelecida entre médico e paciente. As outras são Mitch e Alan (Matt Frewer e Philip Baker Hall, respectivamente), dois doentes de idade mais avançada que, tal como o jovem, sofrem de cancro. Esta animada dupla irá ser, por um lado, um escape à sua condição, ao conviver com ele e ao introduzi-lo à famosa e saudável marijuana medicinal e, por outro, um testemunho dos efeitos drásticos e destrutivos da sua doença.
-->O filme mostra a evolução da vida de Adam nos meses que se seguem de uma forma muito natural, beneficiando do facto de ter uma premissa bastante simples, um grupo de personagens restrito e uma realização simples, com um ou outro toque de classe. Vamos, assim, com alguma naturalidade, sentindo a solidão e o desespero incorporados com mestria por Gordon-Levitt e bem explorados por Levine, que se vão intensificando progressivamente, à medida que, por um lado, este, desamparado, se vai apercebendo da gravidade da sua doença e, por outro, as dores que lhe são inerentes se vão acentuando. Na referida exploração por parte da realização há que referir os constantes planos focados em Adam que, com o seu gorro, que não só esconde a sua cabeça rapada, mas que ainda lhe dá um ar de maior fragilidade, apresenta um ar verdadeiramente débil, por vezes penoso de observar.
-->É igualmente focado o seu relacionamento com os amigos e familiares, que, sem que ele se aperceba, também vão lutando com alguma dificuldade por reagir da melhor forma à condição do amigo, filho, paciente ou namorado. Com personalidades e feitios diversos mas bem vincados, estes são um dos pontos fortes do filme, levando o espectador ao riso várias vezes, iluminando a aura de negrura e tensão que acompanha o sofrimento de Adam, criando assim uma mescla muito singular entre a tristeza desanimadora consequente da condição do jovem e um humor constante, inteligente e sempre certeiro. Para tal, tem que ser referida igualmente a abordagem simpática (e, parece-me, obrigatória) que Reiser e Levine optaram por dar aos efeitos da quimioterapia, não exagerando na devastação e na agressividade desesperantes que a caracterizam na vida real. Esta combinação provoca com sucesso um divertimento constante no espectador, contrastante com uma profunda e gradual empatia não apenas por Adam, mas também pelas restantes personagens, culminando num final de belo efeito, capaz de nos levar a debater valentemente contra as lágrimas.
-->O êxito do filme parece-me, é possibilitado não apenas pelo triunfo da realização e das interpretações mas, acima de tudo, pela excelência do argumento de Will Reiser, ao qual, aos 26 anos, tal como a sua personagem, foi diagnosticado um cancro na medula espinal, curado apenas com uma operação alto risco que durou seis horas. Inspirado pela sua experiência, este procurou fazer um filme singular, rejeitando declaradamente uma perspectiva frequentemente representada no cinema, segundo a qual o doente, ao sentir a proximidade do fim, recorre ao seu espírito pragmático e de certa forma romântico, embarcando numa viagem especial ou concretizando as suas fantasias mais ousadas. Na óptica de Reiser, ao invés, formulada através da sua própria experiência e transmitida para o filme, não há maneira elegante de lidar com a situação. O paciente, ao invés, e como Adam o faz, limita-se a aguardar inglória e ansiosamente o desfecho do tratamento.
-->Curiosamente, Seth Rogen, o seu melhor amigo na vida real, acompanhou-o durante todo o processo, desempenhando no filme (onde também é produtor) um papel que foi o seu na vida real e que certamente o terá auxiliado na sua interpretação irrepreensível que este fez de Kyle, demonstrando a sua vivacidade e simpatia com o máximo de naturalidade possível.
-->No entanto, falando de actores, é sem dúvida Joseph Gordon-Levitt que merece a maior parte dos louros, ao interpretar o simpático Adam, num papel que nem lhe estava reservado até à última da hora, quando James McAvoy confirmou a sua indisponibilidade para o desempenhar. O jovem, de forma pouco aparatosa, como a sua personagem o exigia, conseguiu interpretar os sentimentos de isolamento e desespero de forma perfeita, demonstrando ter um talento que, até á data, nunca fora tão evidenciado. E se não há nada que dê mais credibilidade a um actor do que um papel exigente num grande filme, Gordon-Levitt tem sob a forma de “50/50” uma excelente consagração.
-->Os outros actores, apesar de terem interpretações menos exigentes, estiveram também irrepreensíveis. Assim, enquanto Anna Kendrick embrenhou sem reservas a personalidade desajeitada de Katherine, criando com sucesso uma química muito engraçada com Gordon-Levitt e uma manifesta empatia com o espectador, Bryce Dallas Howard esteve igualmente à altura, ao desempenhar o papel de namorada dele, dando um ar de credibilidade à sua inconsistência mental.
-->Quanto aos veteranos, destaca-se em primeiro lugar Anjelica Houston que, apesar do pouco tempo em cena, incorporou de forma excelente a mãe de Adam com todas as suas excentricidades, fazendo, ao mesmo tempo, de boa e de má da fita, tendo o seu marido, Serge Houde, um papel discreto, passando quase todo o tempo calado, exceptuando uma reacção verdadeiramente enternecedora no final do filme às palavras do filho, que compensa plenamente a sua quase ausência do enredo. Matt Frewer e Philip Baker Hall, por seu lado, fizeram o que deles era exigido e esperado, desempenhando um dos alívios cómicos do filme com verdadeira piada e genuinidade.
-->Também há que referir a banda sonora. Esta, discreta, faz-se ouvir nos momentos marcantes do filme, sendo composta na sua quase totalidade por músicas de rock ligeiro e alternativo adequadas à ocasião, escritas por bandas de aclamado valor, destacando-se “High & Dry” dos Radiohead, “To Love Somebody” dos Bee Gees ou “Crying Over You” do Roy Orbinson, não podendo, como de costume, faltar uma música dos Peal Jam, “Yellow Ledbetter”, que fecha o filme da melhor maneira.
-->Não havendo muito mais por dizer, só há que voltar a elogiar o filme. Este é original, interessante, bem realizado, bem interpretado e ainda mais bem escrito, proporcionando-nos um dos melhores filmes que passaram pelas nossas salas em 2011. Sendo certo que oculta, em parte, a seriedade da doença no qual se centra, a verdade é que, como poucos, nos demonstra que não é impossível enfrentar com humor uma situação aparentemente desesperante e, mais difícil ainda, criar uma sensação de divertimento, excitação e empatia no espectador do primeiro ao último minuto. Reiser e Levine (e Rogen, já agora) tinham à partida uma tarefa difícil, ao inventar uma comédia baseada em assuntos tão assustadores como o cancro e mortalidade. Acabaram por arriscar e, surpreendentemente, beneficiando do talento e coragem de cada um e da originalidade da sua abordagem, criaram um filme verdadeiramente singular, ultrapassando qualquer expectativa que sob eles recaía à partida. E, de facto, sem ser elogiar, que mais é que podemos fazer?


Pontuação: 4.5

Ficha técnica:

Realização: Jonathan Levine

Guião: Will Reiser

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Anjelica Houston, Bryce Dallas Howard, Serge Houde, Matt Frewer, Philip Baker Hall, entre outros.

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