28 outubro 2011

Resenha Crítica: Os Três Mosqueteiros (2011)

Uma das obras mais marcantes da história da literatura é “Os Três Mosqueteiros” do escritor francês Alexandre Dumas. A obra foi publicada originalmente em 1844, pelas Edições Baudry, e reeditado em 1846 por J. B. Fellens e L. P. Dufour. Desde então, o livro tem gerado as maiores paixões junto do público, que o passar das décadas parece não conseguir apagar. A história do livro “Os Três Mosqueteiros” já foi por diversas vezes adaptada ao grande ecrã, sendo a versão mais conhecida a protagonizada por Gene Kelly, Van Hefflin e realizada por George Sidney em 1948. A versão mais recente a chegar ao grande ecrã é “The Three Musketeers 3D”, realizada por Paul W.S. Anderson, que inova em relação às restantes ao rodar o filme com a tecnologia 3D, que tanto tem agradado aos executivos e realizadores de Hollywood. Paul W.S. Anderson é um nome bem conhecido do grande público, sendo o responsável pela adaptação cinematográfica dos jogos “Resident Evil”, encontrando-se neste momento a filmar o quinto filme da saga, intitulado “Resident Evil: Retribution”, para além disso conta com um vasto currículo, onde constam obras como “Mortal Kombat”, “AVP: Alien vs. Predator”, e o remake de “Death Race”. O guião ficou a cargo de Alex Litvak (“Predators”) e Andrew Davies (“The Tailor of Panama”). O elenco principal é composto por nomes conhecidos do grande público como Logan Lerman como D’Artagnan, Matthew Macfadyen como Athos, Luke Evans como Aramis, Ray Stevenson como Porthos, Orlando Bloom como Duque de Buckingham, Milla Jovovich como Milady de Winter e Christoph Waltz como Cardeal Richelieu.

 A história começa por nos apresentar os três mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, numa missão em parceria com Milady de Winter, para capturar um manuscrito de Leonardo Da Vinci, que contém a planta para uma arma invencível que promete resolver os conflitos armados em favor de quem a detiver. Cumprida a missão com êxito, o trio é surpreendido pela traição de Milady, que mostra todo o seu lado negro ao vender o manuscrito ao melhor pagador, o Duque de Buckingham, que aqui aparece como um dos principais antagonistas dos heróis. Numa breve elipse, o enredo passa para o ano seguinte, para a zona da Gasconha, onde o jovem D’Artagnan treina com o pai a arte do manuseio da espada, antes de partir em direcção a Paris para tonar-se um mosqueteiro do Rei. Este é um jovem destemido, audaz e algo imprudente, que logo começa a ganhar inimigos poderosos, na pessoa de Rochefort. D’Artagnan começa por desafiar, o Capitão Rochefort para um duelo, após este último ter ofendido a sua égua, no entanto, esse combate nunca se realiza pois Rochefort prefere utilizar a sua pistola ao invés de desembainhar a espada e sujar a sua preciosa arma. Esta cena acaba por ser algo anti-climática, fazendo recordar a cena de “Indiana Jones and the Raiders of the Lost Ark", em que o personagem de Harrison Ford dispara num egípcio, após este último elaborar um espectáculo efusivo com as espadas, que termina de forma rápida e abrupta.

 Mas os problemas de D’Artagnan não vão terminar com Rochefort. Numa das cenas mais célebres do enredo, D’Artagnan envolve-se num mal-entendido com Porthos, Athos, Aramis, os três mosqueteiros, indo marcar um duelo contra ambos. O duelo nunca chega a desenrolar-se, pois os quatro audazes espadachins são interrompidos pelos homens do Cardeal Richelieu. Nesta época, os duelos nas ruas foram proibidos, pelo que o quarteto terá de se entregar aos homens do Cardeal, caso contrário terão de ser presos e julgados perante o Rei. Junto aos homens do Cardel Richelieu encontra-se o Capitão Rochefort. Perante a presença de Rochefort, D’Artagnan irrompe em fúria com os soldados, surpreendendo tudo e todos, a ponto de galvanizar os mosqueteiros, que decidiram regressar aos bons velhos tempos em que combatiam lado a lado, contra todos os que se opusessem contra o Rei ou desafiassem os elementos do trio, seguindo o lema “Um Por Todos e Todos Por Um”. Numa luta vibrante e intensa, o quarteto vence os homens do Cardeal, gerando a ira do eclesiástico, que pretende ver os desordeiros severamente punidos pelo infame acto. O Rei Luís XIII inicialmente pretende castigar os seus homens de confiança, no entanto, a intervenção da Rainha Ana, e da sua aia Constance, fazem com que os mosqueteiros não só se livrem do castigo, como saiam por cima da constrangedora situação, ao terem vencido os quarenta homens do cardeal.

Insatisfeito com as fragilidades e imaturidades do Rei, o Cardeal decide elaborar um plano com Milady para abrir um conflito entre Inglaterra e a França, ao acusar falsamente a Rainha de ter um caso com o Duque de Buckingham, ao roubar uma jóia da esposa de Luís XIII, e colocar neste a ideia de que a sua amada é-lhe infiel, através de falsas cartas de amor trocadas entre ambos. Luís XIII decide então organizar um baile e pede à Rainha para levar consigo o precioso colar de diamantes. É então que Constance decide demonstrar toda a sua lealdade para com a Rainha, ao pedir ao seu amado D’Artagnan e aos três mosqueteiros que viagem até Londres para recuperem o colar de pérolas e salvarem a Rainha e o Reino. D’Artagnan e os três mosqueteiros do Rei terão de lutar contra os homens do Cardeal, contra o Duque de Buckingham e contra o tempo para conseguirem recuperar o colar e entregá-lo a tempo à Rainha, antes que esta seja injustamente acusada de traição.

O talento de Paul W.S. Anderson para a realização cinematográfica nunca foi acima da média, sendo um realizador que se manteve quase sempre na mediania/mediocridade, apesar de várias das suas obras proporcionarem alguns momentos de puro entretenimento e divertimento quando conseguimos desligar o lado mais pragmático. “Os Três Mosqueteiros” não escapa à regra, sendo um filme de acção leve e bem-humorado, que se perde em demasia nos seus efeitos especiais, nas longas cenas de acção e no seu argumento pouco elaborado. A história clássica de Alexandre Dumas é adaptada de forma livre, apresentando claras influências steampunk, com a narrativa a desenrolar-se durante a Idade Moderna e a conter ao mesmo tempo vários elementos futuristas e anacrónicos, próprios de um filme de ficção-científica e distantes do que nos é apresentado na clássica obra literária. A grande alteração em relação à obra acaba por ser a introdução de um manuscrito perdido de Leonardo Da Vinci, que continha um mapa com instruções para a construção de dirigíveis em forma de barco. Aqui, os guionistas pegaram no fascínio de Da Vinci pelo fenómeno do voo e pelos seus planos para a construção de várias máquinas voadoras, para introduzirem elementos futuristas no filme, nomeadamente barcos voadores que transportam os personagens pelos diferentes locais em que desenrola-se o enredo.

 Os elementos de ficção-científica acabam por introduzir uma nova abordagem à obra, sendo uma tentativa clara de rejuvenescer a mesma para chamar à atenção do público moderno. O problema é que esses elementos nem sempre ajudam a narrativa, e por vezes acabam por prejudicar a obra, sobretudo nas cenas dos combates aéreos, entre os barcos-dirigíveis dos mosqueteiros e de Rochefort, que prolongam-se em demasia, o que tira em certa parte a dramaticidade e emotividade à cena. Diga-se a bem da verdade que o problema das cenas dos barcos dirigíveis não funcionar deve-se não só à extensão das mesmas, mas também ao facto dos efeitos especiais nem sempre serem bem conseguidos, e pelo guião não ser suficientemente forte para que estes momentos sejam um dos grandes clímaxes do filme. Aliás, o enredo do filme nem sempre é bem desenvolvido, sobretudo a segunda metade, em que o filme apresenta diversas características de heist movie, com os mosqueteiros acompanhados por D’Artagnan a partirem em direcção a Inglaterra para recuperarem o colar de jóias da Rainha e assim evitar um mal-entendido entre esta e o Rei. No entanto, a grande desilusão não passa pelas cenas dos confrontos nos dirigíveis, mas sim pelo desfecho do filme, que deixa caminho aberto para uma sequela, que muito provavelmente nunca irá acontecer, numa tentativa clara de Anderson em gerar uma nova franquia para intervalar com “Resident Evil”, demonstrando bem as intenções com que elaborou esta nova versão de "Os Três Mosqueteiros".

 "The Three Musketeers" apresenta uma versão bastante livre da obra literária homónima, indo alterar vários elementos clássicos do livro. Entre as alterações, registe-se o facto do Duque de Buckingham e a Rainha Ana não serem amantes, mas sim antagonistas (aliás com o visual de Orlando Bloom e de Luís XIII, estes sim poderiam ser amantes), a ausência da personagem do Conde de Tréville, o capitão dos Mosqueteiros do Rei, cuja presença é omitida, cabendo a liderança do grupo a Athos, entre outras alterações que poderiam aqui ser apontadas. Apesar de tudo, a essência da obra de Alexandre Dumas está presente no filme, não faltando a união dos mosqueteiros, a lealdade destes ao Rei e à Rainha, os ardis do Cardeal Richelieu, a paixão entre D’Artagnan e a aia da Rainha, entre outros elementos, que fazem com que os fãs não possam ficar completamente desiludidos. Um dos elementos que sobressai em “Os Três Mosqueteiros” passa pelo seu elenco principal, composto por um vasto conjunto de nomes conhecido do grande público, que estão relativamente bem nos papéis que desempenham.

Logan Lerman destaca-se como D’Artagnan, revelando um carisma e à vontade até então desconhecido no actor, que encaixa-se na perfeição no trio de mosqueteiros interpretados por Matthew Macfadyen, Ray Stevenson e Luke Evans. Do trio de actores que interpreta os mosqueteiros, o elemento que mais sobressai é Ray Stevenson como o audaz e bonacheirão Porthos. Milla Jovovich não compromete como Milady de Winter, sendo bastante ajudada pelos ângulos generosos que o seu marido faz aos decotes da personagem que interpreta. A actriz consegue representar na perfeição a traiçoeira personagem, conseguindo aliar a sensualidade própria da personagem (e da actriz) à ferocidade e agilidade da mesma, capaz de combater lado a lado com os mosqueteiros e de cometer proezas nas alturas ao estilo de Ethan Hunt na saga Missão Impossível. Outro elemento do elenco que dá nas vistas de forma natural é Christoph Waltz como Cardeal Richelieu, com o actor a mostrar mais uma vez o talento que sempre nos habituou, embora o seu personagem por vezes roce a caricatura, nunca parecendo ser uma série ameaça aos intentos dos mosqueteiros. Por fim importa salientar as grandes desilusões no elenco, que passam por Freddie Fox como Luís XIII e Mads Mikkelsen como Rochefort. O primeiro é o menos culpado por esta crítica, mas é pavorosa a forma como o Rei Luís XIII, o Justo, aparece representado, com todas as suas inseguranças e medos a soarem como artificiais. Quanto a Mads Mikkelsen, o seu personagem é bastante mal aproveitado, sobretudo se tivermos em linha de conta o talento do actor para interpretar vilões, como o demonstrou em “Casino Royale”, onde interpretou Le Chiffre.

 Se Mads Mikkelsen não tem um papel à altura do seu enorme talento e e nunca é devidamente aproveitado, o mesmo não se pode dizer da banda sonora, com o compositor Paul Haslinger a efectuar um trabalho bastante inspirado, com as várias músicas a ajustarem-se na perfeição aos vários momentos do enredo. Diga-se que a música parece muitas das vezes recuperar a atmosfera épica da banda-sonora dos filmes da saga “Piratas das Caraíbas”. Mas as inspirações de “Os Três Mosqueteiros” não se ficam pela banda sonora de “Piratas das Caraíbas”. O realizador Paul W.S. Anderson inspirou-se claramente em filmes como “Indiana Jones” (no caso da cena citada), “The Matrix” nas cenas de acção e até em obras como “Van Helsing” que apresenta claros elementos steampunk e uma linguagem anacrónica para a época que representa. Para além disso, saliente-se o facto da segunda metade do filme parecer saída de um heist movie, com os três mosqueteiros e D’Artagnan a parecerem ter saído da equipa de Danny Ocean em “Ocean´s Eleven”. Diga-se a bem da verdade que “Os Três Mosqueteiros” não chega ao nível dos filmes citados, embora nunca o tente fazer, conseguindo divertir os espectadores, ainda que não os consiga entusiasmar.

Apesar da adaptar uma obra como "Os Três Mosqueteiros" de forma inovadora seja uma tarefa complicada, a verdade é que esta justificação não chega para explicar a história recheada de plot holes, os fracos efeitos 3D, aos efeitos especiais com resultados nem sempre bem conseguidos e um guião que perde a sua força no desenvolvimento e no clímax do filme. No entanto, é impossível negar o divertimento proporcionado pela obra, que durante a sua primeira metade consegue mesclar os elementos de acção, aventura, comédia de forma eficaz, perdendo um pouco o fulgor quando transforma-se numa espécie de heist movie, quando os mosqueteiros dirigem-se à Torre de Londres para roubar o colar de pérolas da Rainha e assim salvar a paz no Reino. Apesar de tudo, vale a pena dar uma oportunidade a “Os Três Mosqueteiros”, com actores talentosos, um enredo leve e descomprometido, o filme proporciona momentos agradáveis aos espectadores, desde que estes desliguem os neurónios mais críticos e desfrutem apenas do filme. “Os Três Mosqueteiros” não é um péssimo filme, tal como não é um grande filme, é sim um filme divertido, que pretende proporcionar aos espectadores cerca de hora e meia de puro escapismo, alienando os mesmos dos problemas da realidade quotidiana.

Pontuação: 2.5 (5)

Ficha técnica:
Título original - “The Three Musketeers 3D”
Título em Portugal: "Os Três Mosqueteiros"
Realizador: Paul W.S. Anderson.
Guião: Alex Litvak, Andrew Davies.
Elenco: Logan Lerman, Orlando Bloom, Christoph Waltz, Matthew MacFadyen, Ray Stevenson, Luke Evans, Milla Jovovich, Mads Mikkelsen, Til Schweiger, Gabriella Wilde, James Corden, entre outros.

Sem comentários: