08 outubro 2011

Resenha Crítica: Moulin Rouge (2001)

Christian: [voiceover and typing] Days turned into weeks, weeks turned into months. And then, one not-so-very special day, I went to my typewriter, I sat down, and I wrote our story. A story about a time, a story about a place, a story about the people. But above all things, a story about love. A love that will live forever”.

Em Novembro de 1999, começavam as filmagens de “Moulin Rouge”, um musical da autoria de Baz Luhrmann que reunia um elenco composto por vários actores em busca de afirmação. Quando a notícia do inicio das filmagens surgiu, poucos foram os que previram que “Moulin Rouge” viesse a tornar-se um dos filmes mais marcantes da primeira década do Século XXI. A verdade é que não só tornou-se um dos filmes mais marcantes do novo século, como contribuiu para o rejuvenescer dos musicais, que pareciam estar fora de moda. “Moulin Rouge” foi realizado por Baz Luhrmann, realizador australiano que contava no seu currículo com o mediano “Strictly Ballroom” e o intenso “Romeu e Julieta”, que com “Moulin Rouge!” formam a chamada “The Red Curtain Trilogy”. O guião foi elaborado por Craig Pearce ao lado de Luhrmann, que já tinha trabalhado com o realizador nos dois filmes já citados. O elenco principal é composto por um conjunto de actores, que na época procurava a sua afirmação plena a nível cinematográfico. Nicole Kidman apesar do seu talento, era mais conhecida pela relação que manteve durante muito tempo com Tom Cruise, do que pelos seus desempenhos, Ewan McGregor estava colado à imagem de “Trainspotting ”, tendo ainda protagonizado o primeiro filme da prequela de “Star Wars” (a do Jar Jar Binks), enquanto o elenco secundário apesar de talentoso reunia nomes pouco mediáticos.


 O enredo desenrola-se em 1899, em Paris, quando Christian (Ewan McGregor) chega a Montmartre com o sonho de fazer parte da Revolução Boémia, indo juntar-se aos chamados “filhos da revolução”. Esta oportunidade surge de forma caricata, quando um conjunto de artistas boémios, liderados por Toulouse, cai do andar de cima, directamente para a sua sala, enquanto ensaiavam a peça “Spectacular Spectacular.” Uma série de eventos vão conduzir a que Toulouse e o grupo convidem Christian para escrever o guião da peça, após este demonstrar uma incrível compreensão dos ideais boémios, sendo fascinado pela verdade, beleza, liberdade e sobretudo... amor. Apesar do inegável talento de Christian, o grupo tem receio de que Harold Zidler, o dono do Moulin Rouge decida não aprovar a peça. Para a peça ser aprovada, decidem apresentar Christian a Satine, a cortesã mais famosa do Moulin Rouge, para que esta oiça as palavras do escritor, e fique encantada com as mesmas para convencer Zidler a aprovar a peça. É então que Christian e os espectadores são apresentados ao Moulin Rouge, um mundo boémio, festivo, colorido, recheado de belas mulheres, num cenário dominado pela cor vermelha, até aparecer Satine (Nicole Kidman)... o diamante cintilante, que aquece os corações de todos aqueles que se aproximam.

 Durante este espectáculo, Christian vê pela primeira vez a sensual Satine, por quem fica imediatamente deslumbrado. No entanto, Christian não está só nesta admiração pela cortesã, na plateia está um Duque que pretende investir no falido Moulin Rouge, e quer algo muito especial e valioso como moeda de troca...Satine. Num feliz mal-entendido, Satine confunde Christian com o Duque e logo começa a seduzi-lo. O que estes dois não esperavam era que este mal-entendido gerasse uma paixão capaz de lutar contra todas as adversidades que o destino irá reservar-lhes. Os dois encontram-se no quarto de Satine, no Elefante, para que Christian apresente a sua peça, enquanto a Cortesã procura fingir estar interessada nos pensamentos do suposto Duque num momento algo constrangedor dos personagens. A conversa é interrompida, quando Christian percebe que não está a ser ouvido, e irrompe com um tom de voz mais alto e canta “Your Song”. Neste momento, o público fica preso ao filme, e Satine fica presa a Christian. O destino não irá certamente ser bondoso para o casal, com o verdadeiro Duque a aparecer junto de Satine, para apresentar-se como um investidor do Moulin Rouge. Este aceita financiar o espectáculo, mas pede algo em troca. A exclusividade de Satine. Esta situação irá ser um grande revés na relação entre Christian e Satine, que irão aproveitar todos os momentos dos ensaios de “Spetacular Spetacular”, para estarem juntos.

 Há medida que Christian e Satine desenvolvem a peça, a relação entre os personagens vai-se fortalecendo, com vários dos momentos fulcrais da relação a serem expostos ao som de músicas como “Your Song”, “Come What May”, “Elephant Love Medley”, entre outras. A história da peça interlaça-se com a história de Christian e Satine, com os dois a terem de enfrentar os constantes avanços do Duque, que não parece abdicar de Satine por nada deste Mundo, acabando por interferir no enredo da peça e na vida do casal, que acaba por se separar. No dia do grande espectáculo é notória a dicotomia entre a luz e cor do Moulin Rouge, e o tom cinzento que assola os integrantes de peça. Mais do que nunca a perversidade do mundo do espectáculo, com o lema máximo do “the show must go on”, é evidenciada com os seus protagonistas a terem de participar numa peça cujo desfecho não é o pretendido. No entanto, num momento de grande emotividade a peça interpretada pelos personagens é interrompida, o espectáculo continua mas o que o público está a ver não é a jovem cortesã a discutir com um tocador de cítara, mas sim Satine e Christian. Desafiando, tudo e todos, incluindo o Moulin Rouge, o Duque e o tempo, Christian e Satine enfrentam o destino, apenas para ficarem juntos e felizes, no entanto, um mal bem mais forte do que o ciúme começa a tomar conta de Satine...

 Cor, luz, romance, paixão, espectáculo, drama, tudo isto faz parte de “Moulin Rouge”, um filme que supera todas as expectativas criadas em seu redor ao apresentar uma história de amor inconfundível e sincera, sobre um par romântico improvável, que encantará qualquer um. Ao assistirmos a “Moulin Rouge” ficamos com a ideia de que o título brasileiro talvez seja o que melhor se adeque à obra “Moulin Rouge – Amor em Vermelho”. O vermelho é a tonalidade que predomina ao longo do filme, esta cor simboliza ambição, confiança, coragem, e optimismo, estando também associada à paixão, ou seja, nada melhor para descrever o mundo que vemos em Moulin Rouge, cujos personagens ambicionam uma vida melhor, confiam no seu talento e sobretudo acreditam no amor, na paixão, nos ideais dos “filhos da revolução”, numa obra simplesmente memorável. O mais curioso, é que “Moulin Rouge!” conheceu um vasto conjunto de contrariedades, que certamente serviriam para abalar a maior parte das produções cinematográficas, que parecem não ter surtido efeito no filme. Desde logo, as filmagens foram adiadas por diversas vezes, quer por uma lesão de Nicole Kidman, quer pela produção ter de dar lugar a “Star Wars Episode II: Attack of the Clones”, que iria ser filmado no mesmo local. Para além disso, a estreia do filme foi adiada de Dezembro de 2000, para o dia 1 de Junho de 2001, para serem filmadas cenas adicionais, algo que nunca é bom sinal. No caso de “Moulin Rouge”, todos esses problemas não parecem ter afectado a qualidade do filme, num caso muito raro em Hollywood. E raro também é encontrar um elenco principal, constituído por actores que parecem ter nascido para interpretar os papéis.

 O elenco principal de “Moulin Rouge” é constituído por um conjunto de actores que na época procuravam afirmar-se definitivamente no grande ecrã, que parecem ter nascido para os papéis que interpretam. Apesar de conhecidos do grande público, poucos carregavam atrás de si um histórico de grandes êxitos como protagonistas. Grande parte do sucesso do filme vai estar na força do seu elenco principal, e sobretudo na química revelada por Nicole Kidman e Ewan McGregor, que parecem ter nascido para representar os papéis de Satine e Christian. Os dois brilham como um casal que desafia todas as barreiras para poder amar, mesmo que este amor seja de curta duração, com o destino a exercer um papel preponderante nas suas vidas. Apesar da actuação de ambos ser excelente, quem surpreende mesmo é Kidman, como uma cortesã que se deixa conquistar pelos ideais sonhadores de Christian, uma mulher aparentemente materialista, que aos poucos sucumbe aos ideais dos "filhos da revolução". Kidman e McGregor cantam e encantam nos números musicais, mostrando um talento que até então era desconhecido, contribuindo e muito para a forte conexão que geram com o público, formando um dos casais românticos mais marcantes da história do cinema. Apesar da história de Christian e Satine serem o centro da narrativa, "Moulin Rouge" dá espaço para alguns dos elementos secundários sobressaírem, entre os quais Richard Roxburgh.

Roxburgh aparece soberbo como o traiçoeiro e vilanesco Duque, numa das actuações mais mediáticas da sua carreira, a par de Conde Drácula em “Van Helsing”. No filme, Roxburgh consegue despertar os ódios mais recônditos do público, ao ser um dos grandes oponentes à felicidade de Satine e Christian, tratando a primeira como mera mercadoria que pode ser comprada. O actor cria um personagem com um ar meio idiota, que logo demonstra que as aparências iludem, ao ser um personagem de má índole, que não olha a meios para atingir os seus fins, mesmo que para isso tenha de destruir tudo o que está à sua volta. Outro dos elementos em destaque é John Leguizamo como Toulouse-Lautrec, um anão que lidera um grupo de teatro, que actua no “Moulin Rouge”. Este grupo acolhe no seu seio, Christian, e cedo percebe o talento deste último. Toulouse acaba por ser o elemento que conecta os espectadores ao filme, este vibra e torce para que a relação entre Satine e Christian dê certo, sendo difícil ficar indiferente à cena em que este interrompe uma discussão do casal durante a peça, para lembrar-lhes, que “the greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return”.

 O próprio Moulin Rouge acaba por ser um personagem importante no filme, sendo muito mais do que o espaço em que se desenrola o enredo. O cenário de cor, luz, alegria, palco de todas as loucuras para os seus clientes, acaba por sufocar os sentimentos daqueles que nele habitam. É curioso verificar como todo este mundo que aparece tão cheio de cor, divertido e apaixonante, pode ser tão madrasto para os seus personagens. Dois momentos simbolizam bem esta dicotomia entre o espectáculo radioso e burlesco do Moulin Rouge e a infelicidade dos seus personagens. A primeira quando Satine sucumbe aos ideais dos “filhos da revolução”, através da paixão que nutre por Christian, quando canta “One day I'll fly away (…) Leave all this to yesterday”, em que percebemos que esta pretende abandonar o Moulin Rouge, deixar de ser valorizada por aquilo que lhe pagam e passar a ser valorizada por aquilo que é, pelo amor que sentem por esta. O outro momento é o mais paradigmático, quando inicia o espetáculo inicial, com Satine e Christian num momento de grande tensão, com este a evidenciar uma portentosa crise de ciúmes, enquanto o público pensa estar a assistir a parte da peça.

 Os cenários presente ao longo do filme, nomeadamente do Moulin Rouge, são de grande pormenor, procurando reconstruir o mundo boémio do final do Século XIX, início do Século XX, em que este era um dos espaços de divertimento nocturno de maior fama mundial. Nos cenários, é impossível não ficar indiferente ao quarto de Satine, no Elefante. O quarto aparece recheado de enorme exotismo, com uma parafernália de objectos decorativos dominados pela cor vermelha. De realçar ainda a presença de uma janela aberta para a Lua, para as estrelas, como que uma porta aberta para o sonho, para o infinito. Se o elenco, a história e os cenários sobressaem, o mesmo podemos dizer da música e dos números musicais, que são essenciais para o bom funcionamento e desenrolar da narrativa. No caso de “Moulin Rouge” os números musicais são utilizados na perfeição (muitas das vezes a fazerem lembrar a estética dos video clips musicais), com cada música a simbolizar um momento fulcral na vida dos personagens. Entre as músicas que mais se destacam são sem dúvida a “Sparkling Diamond”, “Your Song” e “Elephant Love Medley”.

 A primeira apresenta a protagonista, a bela cortesã Satine, em todo o seu esplendor, com efeitos visuais a fazerem lembrar uma chuva de diamantes. A segunda é o momento em que Christian e Satine encontram maior intimidade, com estes a apaixonarem-se após um estrondoso número musical, em que o personagem de Ewan McGregor utiliza a sua voz para demonstrar os seus sentimentos. Quanto a Elephant Love Medley, não só apresenta um dos momentos mais encantadores do filme, como é uma das músicas mais românticas da banda sonora. Neste número musical, o casal argumenta sobre o amor e a vida de ambos, Satine começa de forma mais pragmática, enquanto Christian romântico como sempre defende que uma vida sem amor é impossível, pois “Love is a many splendored thing, love, lifts us up where we belong, all you need is love”, os dois vão argumentando ao longo da canção, quase sempre separados, indo reunir-se à medida que a mesma se vai desenrolando, acabando com o casal unido, com o Moulin Rouge, a Lua e Toulose como testemunhas. Estas músicas surgem muitas das vezes adornadas de sentimentos quentes e intensos, acompanhados por cor e ilusão, muitas das vezes quase a parecer ter saído de um filme de Bollywood, em que coloridos números musicais irrompem em várias cenas, fornecendo um toque diferente, algo exótico às mesmas.

 A inspiração na cultura indiana, não se fica apenas pelos filmes, a própria peça que Christian escreve é inspirada no Teatro Sânscrito, nomeadamente, na décima-peça, intitulada Mṛcchakaṭika, que centra-se em Charudatta um jovem sonhador que se apaixona pela rica cortesã Vasantasena. A paixão entre ambos complica-se quando um rico cortesão apaixona-se também por Vasantasena. No caso de Moulin Rouge, a peça chamada “Spetacular Spetacular” acompanha um sonhador tocador de cítara que apaixona-se por uma bela cortesã. Esta é cortejada por um poderoso Marajá, que não pretende perder a bela rapariga para um mero tocador de cítara. Mas as inspirações não ficam por aqui, com “Moulin Rouge” a ser claramente influenciado pela peça “La Traviata” de Giuseppe Verdi. A peça é dividida em quatro actos e centra-se em Violetta e Alfredo, uma cortesã e um rapaz pouco abastado, que contra todas as expectativas acabam por apaixonar-se, apesar de esta estar prometida a um barão. Como se pode notar, a história apresenta clara semelhança com a de Christian e Satine, sobretudo no seu desfecho, embora Baz Luhrmann atribua-lhe o seu estilo muito próprio, com o fascínio pelas paixões impossíveis, amores trágicos e sentimentos vividos ao máximo.

 O trabalho de Baz Luhrmann em “Moulin Rouge!” roça o perfeito. Desde o enredo aos actores, passando pelos cenários e banda sonora, até ao trabalho do realizador e da equipa de produção, tudo funciona na perfeição em “Moulin Rouge”, a ponto de se ter tornado num dos filmes musicais mais marcantes da primeira década do Século XXI, e contribuído para o rejuvenescer do interesse nos filmes do género. A citação mencionada no início da resenha crítica não só conclui a obra cinematográfica, como resume a mesma na perfeição. “Moulin Rouge” é uma história sobre o tempo, nomeadamente, o tempo em que os filhos da revolução irrompiam pelo mundo boémio com os seus ideais sonhadores, em que o amor estava acima de tudo; sobre um lugar, o Moulin Rouge; uma história sobre as pessoas, mas acima de tudo uma história sobre amor, uma paixão arrebatadora que perdurará para sempre, na memória dos espectadores. “Moulin Rouge” é um musical frenético e encantador, que apresenta uma história sobre um amor impossível entre uma cortesã e um sonhador escritor, que desafiaram o destino, o tempo, as dificuldades, os estereótipos, e todas as adversidades, apenas para amarem, e é sobre isto que é “Moulin Rouge”, um filme sobre “um lugar, uma história sobre as pessoas. Mas acima de tudo, uma história sobre amor”.

Pontuação: 5 (em 5)

Ficha técnica:
Título original - “Moulin Rouge!”
Título em Portugal: "Moulin Rouge"
Realizador: Baz Luhrmann
Guião: Baz Luharmann e Craig Pearce.
Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh.

2 comentários:

Roberto Simões disse...

Uma irreverente, electrizante e arrebatadora experiência cinematográfica, capaz de redefinir o género, aproximando-o do grande público e das mais novas gerações que o menosprezavam. No meu entender, uma obra-prima.

http://cineroad.blogspot.com/2008/09/moulin-rouge-2001.html

Roberto Simões
» CINEROAD «

Aníbal Santiago disse...

É um dos meus filmes preferidos. Tem um ritmo electrizante e uma história apaixonante.

Cumprimentos