30 setembro 2011

Resenha Crítica: Beginners (2011)

No dia 1 de Setembro chegou às nossas salas “Beginners”, um drama independente com alguns elementos de comédia, directamente saído da mente de Mike Mills, que o escreveu e realizou. Através desta crítica, vou tentar explanar a solidez do seu argumento, a excelência das interpretações e uma realização competente, factores que, espero eu, suscitarão a curiosidade de aqueles que a leiam, e que, relembro, ainda estão a tempo de apanhar o filme no cinema (!).
O elenco principal da obra é composto por Ewan McGregor, que dispensa de apresentações, bem como Christopher Plummer, que aos 81 anos, 45 anos depois de ter dado vida a Captain von Pratt em “The Sound of Music”, comprova estar numa excelente forma, e Mélanie Laurent, uma jovem francesa de olhar enigmático, que após “Inglourious Basterds” viu a sua popularidade subir a pique. Entre as personagens secundárias destaca-se Goran Visnjic, que durante cerca de dez anos interpretou o Dr. Luka Kovac na série de sucesso “ER”, de entre um leque de actores que passam despercebidos pelo papel menor que desempenham no filme.É o caso de Kai Lennox, Mary Page Keller, entre outros.
A história do filme centra-se em Oliver, interpretado por Ewan McGregor, um homem que procura orientar a sua vida após o falecimento recente do pai, Hal (Christopher Plummer). Este, aos 70 e alguns anos, pouco depois do falecimento da sua mulher e após um número respeitável de décadas de casamento, assumiu que toda a vida fora homossexual, manifestando o desejo de viver assumidamente como tal até ao fim dos seus dias.
Para verem o resto da crítica, carreguem em "mais informações".

Mills desenvolve a acção em três frentes: no presente, em torno de Oliver, no passado antigo, durante a sua infância, e no passado recente, pouco depois do falecimento da sua mãe. As acções no passado são-nos apresentadas gradualmente através de flashbacks durante a totalidade do filme e têm como objectivo ajudar-nos a compreender a juventude de Oliver e a relação entre este e os pais.
Assim, no presente, somos imediatamente apresentados a Oliver, que se encontra a arrumar alguns pertences do pai, pouco depois da morte deste, destacando-se, entre aqueles, um adorável cãozito de raça Jack Russel chamado Arthur, que acompanhou os últimos dias da vida de Hal e que Oliver leva para casa. Ao levá-lo, faz-lhe uma visita guiada à habitação numa cena paradigmática do filme, que mistura uma certa dose de comicidade com o ambiente triste e soturno do seu lar, desprovido de luz e de qualquer tipo de embelezamento. De seguida, é-nos apresentado o seu trabalho como um designer gráfico que, entre outras tarefas, ganha a vida a desenhar capas de álbuns musicais para artistas. Os seus desenhos são, geralmente, incompreendidos e sorumbáticos, o que garante ao seu autor uma aura quase palpável de solidão e tristeza, um efeito bem desenvolvido por Mills através de diálogos desconcertantes entre Oliver e o cão, ou de planos soturnos e pouco luminosos.
A história muda quando o desenhista é convencido pelos dois colegas que partilham o seu estúdio a acompanhá-los numa festa estranha mas engraçada, onde todos os convidados têm que envergar um disfarce. É nela que, por um lado, vemos o quão afastado Oliver está daqueles que o rodeiam, pessoas desinteressantes com gostos diferentes e, por outro, somos apresentados à personagem de Mélanie Laurent, numa cena particularmente bem conseguida – Oliver, disfarçado de Freud, dá uma consulta de psiquiatria à atraente rapariga, disfarçada de Charlot, que comunica com ele através de um bloco de notas, pois sofre de laringite. A forma como esta, ao contrário dos demais, notou a tristeza dos olhos do seu psiquiatra, dá-nos a entender que o compreende, começando assim uma química original e bastante perceptível entre ambas as personagens.
Eventualmente, a voz de Anna acaba por voltar, a relação entre ambos vai-se desenvolvendo e, como qualquer filme independente que se preze (ver Scott Pilgrim vs. The World, 500 Days of Summer, Blue Valentine), começam a namorar e, apenas à medida que a relação evolui, cada um vai descobrindo pormenores sobre o outro – quem são, o que fazem, o que querem fazer. É também à medida que tal acontece que ambos se vão apercebendo do que têm em comum – mentes ligeiramente caóticas e uma grave incapacidade em manter relações, originadas em grande parte pela infância de ambos e pelas relações traumáticas que os dois tinham com os pais.
E é o enfoque dado aos pais que suscita a aparição de vários flashbacks pela parte de Oliver. Falemos, primeiro, dos mais antigos. Estes mostram-nos a relação entre ele a sua excêntrica mãe, Geórgia, e a impressão que Mills nos proporciona é a da ausência do pai, Hal, em toda a infância da criança. Esta é notada tanto pela mãe como pelo próprio filho, com um misto de angústia e revolta por parte da progenitora.
O passado recente é muito mais explorado e muito mais interessante, retratando a evolução de Hal após a morte da sua mulher, iniciando-se no período em que este, para choque do filho, assume a sua homossexualidade, e culminando na sua morte. Estes regressos ao passado constituem algumas das melhores partes do filme, proporcionadas principalmente pelo desempenho brilhante de Christopher Plummer. Destaca-se igualmente o seu jovem namorado, Andy, cuja excentricidade é irrepreensivelmente interpretada por Goran Visnjic. O desenrolar dos acontecimentos oscila entre a comicidade e a tristeza, dando ao espectador um sentimento de enternecimento melancólico, comum a todo o filme, que nos proporciona algumas das sensações mais profundas de entre as que vamos sentir na película inteira.
E, assim, intercalando entre estes três planos de acção, a história desenrola-se. O romance entre Oliver e Anna está muito bom e consegue captar o interesse de quem o vê. Oliver é interpretado irrepreensivelmente por Ewan McGregor, que, não tem um papel particularmente indiscreto uma vez que a personagem é pouco expressiva, não é dada a muitos sentimentos e, mesmo quando está alegre, parece estar num estado de contentamento contido. Mélanie Laurent destaca-se mais. A sua personagem é gira, misteriosa, excêntrica quanto baste, por vezes cómica, por vezes não tanto, e ligeiramente maluquinha das ideias. A jovem dá, assim, mostras do seu talento, parecendo ser uma mera questão de tempo a sua presença em mais filmes de origem norte-americana (vejam “Le Concert”!). A relação e a química entre ambos, para além das cenas de Christopher Plummer, é a melhor parte do filme e está bem explorada.

Há também que mencionar Cosmo, o actor canino que interpreta Arthur, que é adorável e, como tal, muito bem aproveitado por Mills, que faz dele a herança mais palpável deixada por Hal e, sem dúvida, uma mais-valia para a sua raça.

O único defeito do filme é a sua sequência final, da qual se pedia que estivesse melhor trabalhada. É que o final não é mau, nem particularmente previsível, mas também não é brilhante, e roça o inglório. E, depois de quase uma hora e meia de estarmos a seguir a história, concentradíssimos, a acção acaba por se tornar pouco dinâmica e tão desconcertante que, por breves instantes, damos por nós a olhar distraidamente para as paredes da sala de cinema. Esta distracção é de pouca dura e, quando o filme entra na sua recta final, voltamos a dedicar-lhe toda a atenção exigida.

Durante toda a película, vamos sendo confrontados com alguns toques irónicos e cómicos, que a enriquecem, divertindo o espectador. Mas, reafirmo, é uma comicidade envolta em melancolia, fazendo jus à frase que a personagem de Ewan McGregor escreve, a dada altura, numa parede, em mais uma cena muito bem conseguida, entre este e Anna – “You make me laugh but it’s not funny”.

O referido ambiente é reforçado por uma banda sonora extremamente bela, que dá um toque de qualidade ao filme, na qual o piano sobressai decisivamente, acentuando as diferentes emoções que a acção das personagens provoca em quem as vê (e ouve). Esta ficou a cargo de Roger Neill, Dave Palmer e Brian Reitzell, mas conta com músicas de outros compositores, como Bach, Hoagy Carmichael, Jelly Roll Morton, entre outros.

Também é obrigatório realçar o cunho pessoal de Mike Mills, fortemente imposto na totalidade do filme, que se baseia na sua própria história de vida. Assim, a personagem de Hal baseia-se no seu próprio pai que, aos 75 anos, duas semanas após a morte da sua mulher, se assumiu como homossexual, tendo falecido cinco anos depois com cancro do pulmão. Além disso, tal como a personagem de Ewan McGregor, Mills trabalha, entre outros campos, como designer gráfico, tendo sido encarregado do design de capas de álbuns musicais de artistas proeminentes como Beck, Dirty Ol’ Bastard, os Beastie Boys e os Sonic Youth. Outro aspecto que é realçado pelo realizador é a questão da paternidade, que já tinha sido abordada em “Thumbsucker”, de 2005, e que é novamente explorada, focando-se no aspecto traumático que uma família disfuncional pode ter nos filhos.

Em suma, “Beginners”, ridiculamente traduzido como “Assim é o Amor”, é um filme que vale a pena ser visto. A história é bastante sólida e muito interessante, as interpretações estão excelentes e a realização de Mills garante um ambiente particular ao filme, que não vale a pena referir novamente. Perde, infelizmente, algum gás no final. No entanto, pedir outra coisa a Mills seria irrelevante. “Beginners” é, do início ao fim, um produto da mente do seu realizador, pelo que pedir-lhe que mudasse o mais ínfimo pormenor só diminuiria o seu encanto, a sua crueza e o seu impacto, tanto no espectador, com no próprio criador.
Pontuação: 4

Ficha técnica
Título original: Beginners
Título em português: Assim é o Amor
Realizador: Mike Mills
Guião: Mike Mills
Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic, Kai Lennox, Mary Page Keller, entre outros.


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