26 setembro 2011

Resenha Crítica: 007 - Só se Vive Duas Vezes (1967)

Em “You Only Live Twice”, James Bond está de volta para resolver mais um intrincado caso que promete abalar as relações internacionais entre os Estados Unidos e a União Soviética, no quinto filme da saga cinematográfica de James Bond. O filme foi realizado por Lewis Gilbert, que mais tarde viria a realizar "The Spy Who Loved Me" e “Moonraker”. Inicialmente Lewis Gilbert rejeitou o projecto, mas posteriormente foi convencido por Broccoli a aceitar integrar o mesmo. Gilbert tinha à época dirigido filmes de sucesso como “A Cry from the Streets”, “The 7th Dawn” e sobretudo Alfie. O guião do filme foi elaborado por Roald Dahl, inspirado no livro de Ian Fleming com o mesmo título. A escolha de Dahl envolveu um grande risco, pois apesar deste ser um escritor de créditos firmados, não era certo que conseguisse transpor esse talento para a elaboração de um roteiro. A título de curiosidade, importa salientar que Dahl escreveu obras como “Charlie and the Chocolate Factory”, “James and the Giant Peach”, “Fantastic Mr Fox”, “The Gremlins”, entre outras. “You Only Live Twice” conta no elenco com Sir Sean Connery (na sua quinta participação como James Bond), Akiko Wakabayashi, Donald Pleasence, Bernard Lee, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, entre outros.  O filme estreou originalmente em 1967, tendo obtido um êxito bastante elevado de bilheteira a nível mundial, tendo decuplicado o valor do seu orçamento.

 O enredo de “007 - Só se Vive Duas Vezes” desenrola-se em plena Guerra Fria, período no qual Estados Unidos da América e União Soviética viviam num clima de “paz armada”, que poderia facilmente resvalar num conflito armado e é nesse ambiente explosivo que começa a história do filme, com uma nave Norte-Americana a ser alvo de um ataque terrorista, sendo engolida em pleno espaço, indo as suspeitas dos Estados Unidos da América recair sobre o grande rival, a União Soviética, gerando-se um clima de possível conflito/incidente diplomático, entre ambas as potências. Mas a Inglaterra não é da mesma opinião dos Estados Unidos e salienta que tem um agente em Hong Kong a investigar o caso. E claro está que esse agente é Bond, James Bond. E é então que temos a primeira surpresa do filme, James Bond é assassinado, sendo a notícia amplamente divulgada em termos internacionais. Passado os créditos iniciais, e como não poderia deixar de ser, é-nos revelado que a morte de Bond foi apenas uma tentativa do MI6 em ludibriar os inimigos do seu mais prestigiado agente, e assim este poder cumprir as suas missões de forma mais sossegada. Bond é enviado pelo MI6 para o Japão, onde a agência de segurança acredita estar a nave Norte-Americana que fora desviada. Com o personagem no Japão, Lewis Gilbert aproveita para mostrar alguns locais do território, na maioria citadinos, onde não falta o célebre combate de Sumo, onde Bond encontra-se com Aki, a intermediária que o irá guiar ao agente Henderson.

 Henderson é um agente do MI6, que se encontra infiltrado no Japão há muitos anos, conhecendo como poucos o território e a cultura local. Este informa Bond que terá de entrar em contacto com Tanaka, o chefe dos serviços secretos Japoneses, salientando, que quem está por detrás deste caso dos desaparecimentos das naves não são os Estados Unidos, nem a União Soviética e muito menos o Japão. No entanto, Bond não consegue receber muitas informações, visto que Henderson é assassinado enquanto fornecia informações. Bond acaba por descobrir que quem está por detrás do assassinato trabalha na Osato Chemicals. Durante uma fuga aos homens de Osato, este acaba por deparar-se com Tanaka, o chefe dos serviços secretos Japoneses, que o irá ajudar a desvendar o caso das aeronaves desaparecidas. Uma série de pistas levam James Bond a reunir-se com Osato e a sua secretária Miss Grant, que logo percebem que Bond não é quem diz ser. Osato e Grant são dois agentes da SPECTRE, que a par de Blofeld, o líder da SPECTRE, serão os grandes antagonistas de 007 ao longo do filme. Para além de contar com a perseguição dos agentes da SPECTRE, a missão de Bond complica-se mais do que nunca, quando uma nave de origem soviética é capturada, deixando alarmados os diplomatas, e sobretudo o MI6, sobre a origem deste ataque terrorista, colocando a paz mundial em perigo, com 007 a ter de correr contra o tempo para salvar os tripulantes das aeronaves, evitar um conflito entre União Soviética e Estados Unidos, e frustrar os planos da organização terrorista.

 “You Only Live Twice” é um percursor dos filmes grandiloquentes da saga, ou não tivesse sido dirigido por Lewis Gilbert, o mesmo realizador de “The Spy Who Loved Me” e do execrável “Moonraker”, ambos com a presença do célebre vilão Jaws. O filme coloca o herói em situações tão inusitadas como uma fuga resolvida com um íman gigante num avião, James Bond a treinar para ser um ninja no quartel-general de Tanaka, uma base secreta da SPECTRE no interior de um vulcão adormecido, uma espécie de helicóptero chamado de Little Nellie que é capaz de fazer frente aos aparelhos mais sofisticados, entre muitos outros exemplos. Todos estes exageros fazem com que muitas das cenas de acção do filme acabem por ser um dos pontos fracos do filme, ao apresentarem um tom quase cartunesco, para além de muitas destas terem uma duração excessiva, tornando muitas das vezes as perseguições e confrontos anti-climáticos. Dois destes casos flagrantes, passam pela cena da perseguição de carros em que Bond é perseguido por homens da SPECTRE e pela cena de acção final num dos esconderijos da organização criminal. A primeira cena acaba de forma anti-climática com o carro da SPECTRE a ser lançado ao mar por um íman gigante. A cena de acção final desenrola-se no quartel de operações da Spectre, no interior de um vulcão aparentemente inactivo, esta é relativamente pouco conseguida, arrastando-se demasiado tempo, com a invasão de Bond ao local a acabar com uma miscelânea de tiros, socos, facadas, explosões, e... uma invasão dos Ninjas de Tanaka. No entanto, há que matizar bastante todos estes excessos, visto estes serem uma das imagens de marca da franquia, conferindo até algum charme à mesma, numa obra que beneficiou e muito do desempenho de Connery.

 O elenco do filme é um dos pontos fortes do You Only Live Twice”, conseguindo mesclar na perfeição os actores estabelecidos na franquia com os novos personagens. Sean Connery interpreta o personagem pela quinta vez consecutiva, numa das suas actuações mais mediáticas, não só devido ao seu desempenho, mas também por este na época ter anunciado que iria abandonar a franquia. Connery ajudou a moldar o personagem de James Bond, tendo durante vários anos sido considerado como um dos mais icónicos actores que deu vida ao personagem, sendo considerado por muitos (onde eu me incluo), como o melhor James Bond. O actor incute uma mordacidade e ironia muito próprias ao personagem, ao mesmo tempo que interpreta Bond como um agente implacável que nunca falha na obtenção dos seus objectivos, capaz de resolver o mais difícil dos casos com a mesma calma que pede um martini "shaken, not stirred" (batido, não mexido). Com grande parte do enredo da obra cinematográfica a desenrolar-se no Japão, não poderia faltar a presença de vários actores oriundos deste local. Destes actores, importa salientar dois nomes, Akiko Wakabayashi como Aki, a bond girl do filme, e agente do chefe dos serviços secretos japoneses. Esta tem um desempenho notável, sobretudo se pensarmos que teve de aprender inglês em pouco tempo, para poder interpretar a personagem. Akiko mescla a irreverência típica destas personagens com um lado mais sensual e frágil, ainda que não chegue aos níveis de outras Bond Girls, como Ursula Andress, e até Eva Green.

O outro elemento de origem japonesa que se destaca no elenco do filme é Tetsurô Tanba, como Tanaka, o líder dos serviços secretos japoneses, que teve em “You Only Live Twice” o seu primeiro trabalho em língua inglesa. O actor aparece como uma espécie de M de origem japonesa, apresentando uma grande cumplicidade com o personagem de Connery, com a dupla a apresentar vários momentos de ironia, bom humor e dureza. Quanto ao restante elenco, importa salientar a presença de Bernard Lee como M, Lewis Maxwell como Miss Moneypenny, e Desmond Llewelyn como o inesquecível inventor Q. Entre o restante elenco secundário, há que salientar a presença de Donald Pleasence como Ernest Stavro Blofeld, líder da SPECTRE. O actor procura incutir um tom ameaçador ao personagem, no entanto, este objectivo perde muito do seu efeito a partir do momento em que Pleasence surge no grande ecrã. Blofeld já aparecera em “From Russia With Love” (1963) e “Thunderball”; mas apenas através da sua voz e nunca com o seu corpo. Este aparece como uma figura desfigurada, acompanhada sempre pelo seu gato branco, proferindo frases ameaçadoras ao mesmo tempo que acaricia este último, algo que acaba por descredibilizar um pouco o personagem. Apesar de tudo isto, Blofeld tornou-se num dos mais icónicos personagens da franquia, a ponto de ter sido satirizado na franquia “Austin Powers”, através do personagem Dr. Evil.

 Num filme de Bond, não poderiam faltar os célebres créditos iniciais acompanhados de uma música que embale o espectador para o filme. No caso, a música conta com a bela voz de Nancy Sinatra, filha da lenda Frank Sinatra. Se hoje parece claro que Nancy foi a escolha ideal para dar voz à letra de “You Only Live Twice”, a verdade é que nem sempre foi assim. Frank Sinatra foi inicialmente convidado para dar voz ao tema do título, no entanto, recusou a proposta e recomendou que escolhessem a filha, Nancy Sinatra que assim teve uma oportunidade de ouro para valorizar o seu trabalho. O tema músical do filme é acompanhado pelos créditos iniciais que mesclam o exotismo oriental com os tons quentes da lava, que escorre durante grande parte da música, sendo uma das músicas mais icónicas dos filmes dos personagens, a par de “Goldfinger”, “Thunderball” e “Goldeneye”. A banda sonora de “You Only Live Twice” é bem conseguida, sendo fulcral nos momentos de maior tenção do enredo, ajudando a exponenciar os mesmos.

O facto da história da obra cinematográfica desenrolar-se no Japão permite refrescar a franquia, e manter algo que se tornou habitual nos filmes de James Bond, que passa pelas filmagens em locais exóticos. Neste caso não temos algumas cenas a desenrolarem-se em território nipónico, mas sim grande parte do enredo, para além de contar com alguns elementos locais no elenco. Lewis Gilbert e a sua equipa aproveitam bem o cenário envolvente para o integrar no enredo, demonstrando vários espaços e costumes locais, em que não faltam as ruas movimentadas de Tóquio, a tecnologia de ponta, a luta de sumo, o exotismo das mulheres locais, entre outros, que certamente deixarão os fãs apaixonados pelo território. Por fim, importa salientar ainda o facto do filme ser um bom documento das produções cinematográficas de espionagem desta época, mostrando um período na história mundial em que as duas grandes potências da época, Estados Unidos e União Soviética, combatiam nos avanços tecnológicos. “You Only Live Twice” apresenta o caso particular da célebre corrida ao espaço dos EUA e da USSR, apresentando um toque de ficção com a intromissão da SPECTRE, uma organização terrorista que lucra com a Guerra.

 Apesar de ser considerado como um dos filmes menores de 007, protagonizados por Sean Connery, “You Only Live Twice”, mantém um certo charme nos dias de hoje, respeitando a estrutura base dos filmes do célebre agente secreto, onde não falta um intrincado caso por resolver, as célebres bond girls, as cenas de acção explosivas e impossíveis, humor, ironia, charme, os célebres engenhos de Q, num dos filmes mais exóticos e leves da saga. Tendo em conta a alteração que o personagem conheceu em pleno século XXI, com a entrada de Daniel Craig como James Bond, é sempre interessante voltar a ver os primeiros filmes da saga e perceber que estes não perderam o charme, a qualidade e a capacidade de atrair os espectadores, sendo um caso flagrante de obras cinematográficas que tornaram-se intemporais. Um filme a não para todos os fãs da saga de James Bond.

Ficha técnica:
Título original - “You Only Live Twice”.
Título em Portugal: “007 - Só se Vive Duas Vezes”
Realizador: Lewis Gilbert
Guião: Roald Dahl e Harold Jack Bloom.
Elenco: Sean Connery, Akiko Wakabayashi, Mie Hama, Donald Pleasence, Bernard Lee, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn.

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