23 agosto 2011

Resenha Crítica: Planeta dos Macacos: A Origem (2011)


Antes de iniciar a minha crítica peço, a quem esteja a ler, que faça uma coisa de importância maior: esqueçam o fracasso monumental que foi o filme de Tim Burton que, pelo que prometia, será lembrado, provavelmente, como o pior filme da carreira de um dos melhores realizadores do planeta. Digo isto porque, felizmente, Rise of the Planet of the Apes não foi inspirado naquele filme, mas sim no de 1968, protagonizado por Charlton Heston, esse sim, relembrado até aos dias de hoje pelas melhores razões, um dado atestado pelas quatro sequelas que inspirou, realizadas em 1970, 1971, 1972 e 1973, além de duas séries televisivas em 1974 e 1975.
Nesta nova tentativa de levar o mundo imaginado por Pierre Boulle em "La planète de singes" ao grande ecrã, a 20th Century Fox apostou no relativamente inexperiente Rupert Wyatt para a realização e na dupla Rick Jaffa/Amanda Silver para a escrita do argumento.
O elenco, por sua vez, é composto por duas estrelas em ascensão, James Franco e Freida Pinto, apoiados por uma já bem estabelecida, John Lithgow, que, apesar das suas interpretações irrepreensíveis, tanto neste filme como na popular série Dexter, será, para sempre - para mim -, o brilhante Dr. Dick Solomon de 3rd Rock from the Sun. É igualmente impossível não referir o papel de Andy Serkis que, tal como fizera em King Kong (Kong) e em Lord of the Rings (gollum), dá o corpo a uma personagem caracterizada por computador, bem como o de David Hewlett, não pelo seu desempenho, mas pelo factor “olha quem é ele”, na condição de serem nerds da série Stargate, como é o meu caso.
A história incorpora alguns elementos típicos de um filme de ficção científica, género no qual este trabalho de Wyatt deve ser enquadrado, pura e simplesmente. Assim, temos o bom cientista, Will Rodman (Franco), a trabalhar por uma boa causa, a cura da doença de Alzheimer, para um cretino e ganancioso empresário, Steven Jacobs (David Oyelowo). O projecto em questão tem como base um processo eticamente muito duvidoso: a injecção de produtos quimicamente modificados em pobres e inocentes macacos, sequestrados cruelmente do seu habitat natural. 



Após um eventual acidente, todavia, os símios acabam por ser mandados aniquilar e Rodman é despedido, levando, no entanto consigo um pequeno e adorável macaquinho, a quem será dado posteriormente o nome de Caesar. Assim que aquele entra em casa com a inocente criatura, é-nos apresentado o pai do jovem cientista, Charles (John Lithgow), cujo estado triste e miserável constitui a verdadeira motivação por detrás da pesquisa do filho – é assolado pela doença de Alzheimer.
Bastam poucas horas para que Charles e filho reparem que Caesar aparenta ter um intelecto insanamente avançado, que vai progredindo com o passar do tempo. Tal deve-se à herança genética por parte da sua progenitora, a quem, minutos antes de o dar à luz, tinha sido injectada uma solução milagrosa preparada por Rodman, que regenerava e desenvolvia as células do cérebro (ou qualquer coisa assim). Isto significava, por um lado, que o símio se iria tornar muito mais inteligente do que qualquer humano à face da Terra e, por outro, que o cientista, após cinco anos de pesquisa, tinha finalmente alcançado a tão desejada cura para o Alzheimer. Esta última observação é comprovada após Will injectar a referida substância no próprio pai, que, na manhã seguinte, demonstra estar não apenas curado, mas mais inteligente ainda.
A partir daí, com uma maior estabilidade familiar, vemos os anos sucederem-se, e a relação entre Charles, Will e Caesar a estreitar-se. A configuração do grupo ir-se-á mudar quando o jovem cientista conhece uma bela veterinária, Caroline (Freida Pinto). A química entre ambos é imediatamente visível e não tarda para que esta seja aceite como membro da família, formando com Will um enamorado casal.
Aos poucos, vamos testemunhando o envelhecimento de Caesar que, pela altura da adolescência, já é um macaco de porte razoável e de uma brilhante inteligência. Entretanto, vislumbra-se, raramente, um ou outro pequeno acesso de agressividade, o que culmina num episódio decisivo para o resto da narrativa – na sequência de uma acesa repreensão por parte do odioso vizinho do lado a Charles, o primeiro acaba por ser espancado pelo macaco, que lhe chega mesmo a arrancar um dedo à dentada. Como seria de esperar, Hunsiker (é o nome da vítima), incomodado pelo sucedido, apresenta uma queixa-crime à polícia, o que leva Will, num momento comovente, a entregar o animal, com o qual tinha já forjado uma relação paternal de muitos anos, a uma organização que consiste, tecnicamente, no patrão, um bigodista sensato na casa dos cinquenta, no seu filho, um jovem cruel e ameaçador, e em Rodney, um senhor simpático, mas que apresentava um ligeiro distúrbio. O trio estava encarregue de gerir uma espécie de armazém de macacos, ou seja, um conjunto de jaulas, cada qual com o seu animal, que dela não podia sair a não ser numa hora determinada, na qual todos se podiam congregar num pequeno pátio, rodeado por rochas e com uma árvore no meio, dentro do qual, devidamente enjaulado, se encontrava um feroz animal, semelhante a um Macaco Adriano com esteróides.
Devido aos frequentes maus tratos a que vai sendo sujeito pela parte de Dodge (o referido filho), pelos restantes membros da sua espécie e, acima de tudo, pela desilusão de não ser salvo por Will, que prometera repetidamente levá-lo para casa, Caesar, que até aqui se portara, essencialmente, como um adolescente triste e assustado, começa, como qualquer humano, a lutar pela sobrevivência, deixando-se levar, em parte, pelo seu instinto animal. O que é interessante, e que entretém e enaltece o espectador, é a convivência entre o lado animal e o lado humano do simpático macaco, o que o leva, através da inteligência, a suplantar-se face aos outros macacos para, em última instância, os comandar numa evasão do seu encarceramento.
A partir deste momento iremos assistir ao clímax do filme, numa fuga ordenada dos macacos, dirigidos por Caesar, que consiste numa excelente meia hora de cinema, frenético e repleto de acção, com um final imprevisível. Para tal contribui a excelente banda sonora a cargo de Patrick Doyle que, irrepreensivelmente, vai estabelecendo de forma gradual os momentos de tensão no filme.

A história, no geral, está muito interessante. O argumento está inteligente e não há nada a criticar sobre o ritmo da narrativa. O seu grande ponto forte é, essencialmente, a personagem de Caesar, brilhantemente interpretada por Andy Serkis. As suas expressões estão perfeitas, o mesmo se podendo dizer do seu comportamento que, no decorrer do filme, vai cativando, cada vez mais, o espectador - em suma, o animal está perfeito.
Os outros actores estão adequados. A James Franco e a Freida Pinto não são exigidos papéis complicados, o mesmo não se podendo dizer de John Lithgow, que faz, de facto, uma interpretação impressionante. Quanto a Tom Felton, o seu papel, levado a cabo de forma capaz, não difere muito do que fizera em Harry Potter (era o Draco Malfoy), ou seja, uma personagem odiosa e irritante, mas não com protagonismo suficiente para se dizer que seja, realmente, um vilão.
Não há muito mais que se possa dizer deste Rise of the Planet of the Apes. Gostaria, no entanto, de realçar a competência de Rupert Wyatt que, se como afirmou, pretende fazer deste filme o primeiro de uma série, não podia estar melhor encaminhado. Terá, através deste seu trabalho, atraído o interesse de um número considerável de espectadores, de entre os quais me incluo, devendo-lhe ser atribuído o feito de voltar a honrar o universo de Pierre Bouille através do cinema.
Dito isto, Rise of the Planet of the Apes é um bom filme, e aconselho-o a todo e qualquer leitor que se tenha dado ao trabalho de ler esta crítica até ao fim – penso que não se vão arrepender.

Pontuação: 4

Ficha Técnica:
Título Original: Rise of the Planet of the Apes.
Título em Portugal: Planeta dos Macacos: A Origem.
Realizador: Rupert Wyatt.
Produzido por:
Thomas M. Hammel (produtor executivo), Peter Chernin, Dylan Clark, Rick Jaffa, Amanda Silver, Kurt Williams (co-produtor).
Guião: Rick Jaffa e Amanda Silver (baseado num romance de Pierre Bouille).
Elenco: James Franco, Andy Serkis, John Lithgow, Freida Pinto, Tom Felton, Brian Cox, David Oyelowo, Jamie Harris, Tyler Labine, David Hewlett, entre outros.

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