29 março 2010

Resenha Crítica: O Leão da Estrela (1947)


A 25 de Novembro de 1947 estreava em Portugal “O Leão da Estrela”, uma comédia típica das que marcaram a produção cinematográfica Portuguesa dos anos 40 e inicio da década de 50, tendo atingido um sucesso considerável, sendo um dos filmes nacionais mais recordados deste período de tempo assinalado. Realizado por Arthur Duarte (“O Costa do Castelo”; “A Menina da Rádio”; “O Grande Elias”), através do argumento de João Bastos, Félix Bermudes e Ernesto Rodrigues, o filme apresenta um elenco recheado de estrelas do cinema nacional da época, entre os quais, António Silva, Milú, Maria Eugénia, Curado Ribeiro, Laura Alves, Artur Agostinho, entre outros. Mais do que o pano de fundo futebolístico, “O Leão da Estrela” apresenta-nos um importante testemunho da representação da sociedade portuguesa na filmografia nacional da época. Logo numa das primeiras cenas temos um elemento que marca várias comédias portuguesas produzidas neste período, a indolência do trabalhador, algo visível quando encontramos um grupo de funcionários a falarem sobre o jogo entre o Porto e o Sporting, em pleno horário de trabalho. Os primeiros cinco minutos do filme acompanham o esforço de Anastácio (António Silva), um indivíduo que se considera “um pobre leão desembolado” que sem a bola não passa de “um gato inofensivo”, em conseguir um bilhete para o jogo. Posteriormente somos apresentados aos restantes personagens, a mulher de Anastácio (Dª Carlota) típica dona de casa, que fica em casa à espera do seu marido, enquanto vê a empregada Rosa a efectuar a lida doméstica. Dª Carlota (Maria Olguim) vive acompanhada das suas duas filhas, Branca (Maria Eugénia) e Juju (Milú), a primeira uma jovem meiga, a segunda algo ambiciosa, embora ambas apresentem uma dependência enorme em relação às figuras masculinas e estejam longe de apresentarem ideais de independência. A estes personagens junta-se ainda Miguel (Artur Agostinho), o namorado de Rosa, um indivíduo bem falante e adepto do Sporting Clube de Portugal. No prédio onde habita a família de Anastácio encontramos ainda elementos como o Comandante, uma figura de respeito e muito misteriosa, entre outros que habitam um local onde todos se conhecem e todos se cumprimentam e convivem, ou seja, através do interior do edifício assistimos a uma espécie de comunidade, quase como se fosse um espaço rural, ainda que situado no espaço citadino, algo típico nestas comédias portuguesas da década de 40. 

Também típicos das comédias estado-novinas são os personagens presentes ao longo do filme, em particular Anastácio, um indivíduo de classe média, representativo do tipo de público que frequentava na época os cinemas, embora idealizado de acordo com os valores pretendidos pelo Regime. Após a apresentação dos personagens, o grande leitmotiv que os move é a ida ao Porto. Quer de Anastácio, que pretende assistir ao jogo a todo o custo, quer da criada, Rosa, uma mulher com enorme apetência para partir pratos, que pretende aproveitar a companhia de Miguel, que a convidou para ir ao Porto, para passear e conhecer a família deste. Com o bilhete na sua posse, Anastácio decide viajar até ao Porto, indo acompanhado de toda a família, da sua empregada e de Miguel. Estes dois últimos eram para ter ficado “em terra”, mas logo vão com a família de Anastácio, após Miguel oferecer os seus préstimos e transportar o ferrenho adepto do Sporting que temia perder o jogo por não ter transporte. Pelo meio, é de salientar um momento que marcou para sempre a carreira do saudoso António Silva, o "homem das arábias", nomeadamente, quando efectua um relato imaginário a um jogo do seu Sporting, remata na mesa e grita golo de forma eufórica, fazendo saltar o tampo da mesma. Temos ainda uma crítica subtil ao Governo, nomeadamente, quando Anastácio se queixa: “que país é este que não tem bilhetes nem tem comboios para levar os sócios do Sporting ao Porto. Não há comboios, nem carros, nem linhas, nem agulhas”. A crítica não fica por aqui. Veja-se quando na rádio é anunciado falaciosamente que tudo está regularizado e os adeptos já podem ir assistir ao jogo, algo que conduz Anastácio a não conseguir esconder a sua incredulidade perante os “aldrabões”. Esta é uma das poucas críticas encontradas ao Governo e ao País, a juntar à célebre placa “Estado Novo”, em “A Canção de Lisboa”. Diga-se que esta procura pelos bilhetes permite ainda a “Leão da Estrela” expor, ainda que subtilmente, a presença das Colónias algo visível quando Anastácio é avisado de que a fila na bilheteira atingiu umas proporções enormes e o protagonista sugere que “deve ter vindo gente das colónias”, revelando mais uma vez a capacidade mobilizadora do futebol, capaz de mexer com a população, a ponto de chamar elementos que partiram para as províncias ultramarinas.

 No Porto, instalam-se na casa de Barata, um burguês do Norte, que pensa ter em Anastácio um interlocutor com o mesmo estatuto social e financeiro. Diga-se que Anastácio e Barata nem são relativamente próximos, mas o primeiro aproveita-se do conhecido para que a estadia fique mais “barata”. Na chegada à cidade do Porto, Anastácio e a família dividem-se, com o primeiro a ir para o Estádio e os restantes elementos a dirigirem-se para casa dos Barata. A habitação de Barata e a sua decoração expõem desde logo o estatuto distinto destas famílias, com este a viver numa vivenda, ao contrário da família de Anastácio que habita num apartamento. Mas no Porto, nem só pela casa dos Barata, se ficam os nossos personagens. Somos levados ao clássico, que apresenta imagens dum jogo disputado entre estas duas grandes equipas, com “O Leão da Estrela” a ser um regalo para quem se interessa por futebol, e pela história do desporto, ouvindo-se falar de lendas como Peyroteo, Jesus Correia, entre muitos outros nomes que encantaram nos relvados Portugueses, utilizando a camisola verde e branca. O futebol surge apresentado como um espectáculo que envolve as massas, onde tanto o grande proprietário Barata, como o pequeno funcionário Anastácio assistem aos jogos, vibrando pelos seus respectivos clubes ao longo desta comédia de costumes. O jogo de futebol conta ainda com a cena clássica, onde o personagem interpretado por António Silva, com o seu estilo descontraído e contestatário, dá outra cor à mesma, com as provocações ao adepto do Porto perante o golo do Sporting. O resultado final foi uma dupla vitória, ou melhor, uma vitória para o Sporting do ferrenho Anastácio e uma vitória para os cinéfilos que tiveram a oportunidade de António Silva numa das cenas mais memoráveis da sua carreira, a par da cena acima mencionada.

 Para além destes personagens, também Miguel e Rosa se encontram pelo Porto, enamorados, relembrando o inicio do seu romance e as perspectivas de se casarem que, por entre desaguisados e conflitos vários, acabam por terminar o filme apaixonados como o começaram. Na casa dos Barata, somos apresentados à esposa deste e ao filho, por quem as duas irmãs apresentam especial interesse. Este costuma trocar correspondência com Juju, mas será Branca quem lhe tomará o coração, durante a estadia das irmãs pelo Porto. Finalizado o jogo é a vez de Anastácio participar na “invasão” à moradia dos Barata. A chegada de Anastácio ao local apresenta uma divergência em relação à formalidade daquele cenário, algo que fica ainda mais exemplarmente demonstrado no seu cumprimento a Barata, após terem trocado “mimos” durante o jogo, quando não sabiam da identidade um do outro. O comportamento informal de Anastácio no Porto apresenta contornos caricatos e plenos de crítica aos valores desta sociedade, apresentando um à vontade que poucos poderiam incutir no protagonista com a mesma naturalidade de António Silva, enquanto os personagens se envolvem numa série de mal-entendidos até ao previsível desfecho final. “O Leão da Estrela” apresenta uma história e estrutura típica de uma comédia de costumes, onde a história se deixa levar pelos personagens, apresentando uma enorme simplicidade, um conjunto limitado de cenários (apesar de ser uma das poucas comédias deste período, em que a acção se desenvolve para além do espaço fechado de um bairro/pátio, passando desde o trabalho de Anastácio, à fila das bilheteiras, ao Estádio de Futebol, e até na ida ao Porto, saindo do cenário Lisboeta) e um argumento eficaz apesar de alguns dos seus diálogos estarem claramente datados.

Apesar de contar com alguns bons momentos, "O Leão da Estrela" não deixa de apresentar sérios problemas ao longo do seu desenvolvimento, algo visível após o término do jogo, que é o elemento que alavanca o primeiro terço do enredo, com o filme a começar a perder algum fôlego com as constantes tentativas de Anastácio e da família em tentarem parecer de uma classe mais elevada perante a família Barata. Ao utilizarem as malas de viagem do Comandante, acabam por fazer-se passar por pessoas muito viajadas, devido às diferentes etiquetas referentes aos locais por onde este viajou. No entanto, acabam por cair no ridículo ao apresentarem conversas desconexas que nada têm a ver com os locais por onde passaram. Veja-se os comentários de Anastácio sobre Pompeia “tudo ruínas. Nós fomos depois da Guerra, mas antes devia ser uma grande cidade”, entre outros exemplos (aos quais podemos acrescentar os momentos em que Anastácio finge que a casa do comandante é a sua). Existe uma crítica à dicotomia do ser e parecer, a uma classe média-baixa, que pretende fazer passar-se por algo que não o é, sendo que o casamento promete esbater todas as diferenças. Esta é uma temática transversal a muitas das comédias Portuguesas da década de 40 e 50, atravessando obras como “João Ratão”, “O Pai Tirano”, “O Grande Elias”, entre outras. Diga-se que o filme apresenta uma estrutura muito revisteira, apresentando cenas longas no mesmo cenário, até se passar para um diferente, para além dos comportamentos exagerados dos personagens (os próprios actores contam com interpretações nem sempre convincentes), permitindo a António Silva ser um dos poucos elementos do elenco a sobressair. Quem também sobressai é a ideologia presente ao longo do filme, não faltando a defesa dos valores do casamento, a benevolência da entidade empregadora para com o trabalhador e o respeito deste último para com o primeiro, os valores familiares, o papel do pai de família, a manutenção da ordem, o espírito de comunidade, servindo como exemplo do Cinema como modo de criar uma ilusão que repercute os valores de uma sociedade, ou melhor, que transmite para a sociedade determinados valores de si própria, ainda que estes não possam corresponder à realidade. Temos assim uma das comédias “à portuguesa” mais memoráveis da década de 40, onde António Silva dá vida a um adepto fanático pelo Sporting, enquanto nos diverte imenso pelo caminho.

Bibliografia: 

Pina, Luís de, A aventura do Cinema Português, Lisboa, Vega, 1977.

Ribeiro, M.Félix, Filmes e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983.

Torgal, Luís Reis (coord), O Cinema sob o olhar de Salazar, Lisboa, Temas e Debates, 2001.

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